Thomas Peter/Reuters
Thomas Peter/Reuters

Gatos gostam de pessoas! (De algumas pessoas, pelo menos)

Em experimento americano, dois terços dos felinos interagiram diretamente com os donos, assim como ocorre com os bebês

Rachel Nuwer, The New York Times

29 de setembro de 2019 | 10h00

Na eterna batalha em torno de cães e gatos, há um claro vencedor em relações públicas.

Os cães são o melhor amigo do homem. Eles são sociáveis, fiéis e obedientes. Nosso relacionamento com os gatos, ao mesmo tempo, é frequentemente descrito como mais transigente. Distantes, misteriosos e independentes, os gatos estão conosco só porque os alimentamos.

Ou talvez não. Na segunda-feira, pesquisadores relataram que eles estão tão fortemente ligados a nós quanto os cães ou os bebês, um desagravo aos amantes de gatos em todo lugar.

“Eu entendo muito isso: ‘Bem, eu sabia disso, pois sei que os gatos gostam de interagir comigo’”, disse Kristyn Vitale, cientista em comportamento animal da Oregon State University e principal autora do novo estudo, publicado na Current Biology. “Mas em ciência, você só sabe algo depois de testar”.

A pesquisa sobre o comportamento dos gatos está bem, atrasada em relação às que existem sobre cães. Gatos não são animais sociais, muitas pessoas assumem - e não é tão fácil trabalhar com eles. Mas estudos recentes começaram a aprofundar a avaliação da vida social dos felinos.

"Essa ideia de que os gatos realmente não se importam com as pessoas ou respondem a elas, não se sustenta”, disse Vitale.

Em um estudo realizado em 2017, Vitale e seus colegas descobriram que a maioria dos gatos prefere interagir com uma pessoa a comer ou brincar com um brinquedo. Em um estudo de 2019, os pesquisadores descobriram que os gatos ajustam seu comportamento dependendo de quanta atenção recebem das pessoas.

Outros pesquisadores descobriram que eles são sensíveis às emoções e humores das pessoas e que sabem seus nomes.

Mas os cientistas chegaram a resultados contraditórios, porém, sobre como os gatos constroem suas ligações com os donos, então Vitale e seus colegas projetaram um estudo para testar mais detalhadamente uma hipótese.

 Eles recrutaram donos de 79 gatinhos e de 38 gatos adultos para participar de um “teste de base segura”, um experimento frequentemente usado para medir os laços que cães e primatas formam com seus cuidadores.

Um teste semelhante também é usado para bebês. É baseado na teoria de que os bebês formam um vínculo inato com os cuidadores, que se manifesta por um forte desejo de estar perto dessa pessoa.

No experimento, que durou seis minutos, os donos de gatos e gatinhos entraram em uma sala desconhecida com seus animais. Depois de dois minutos, o dono saiu da sala, deixando o gato ou o gatinho sozinho - uma experiência potencialmente estressante para o animal. Quando o proprietário voltou dois minutos depois, os pesquisadores observaram a resposta do felino.

Cerca de dois terços dos gatos e gatinhos vieram saudar seus donos quando eles voltaram e depois foram explorar a sala, retornando periodicamente aos seus donos. Esses animais, concluíram os pesquisadores, estavam firmemente ligados aos seus donos, o que significa que eles os viam como uma base segura em uma situação desconhecida.

“Isso pode ser uma adaptação do vínculo que eles teriam com os pais quando jovens”, disse Vitale. Esse comportamento, ela acrescentou, pode significar: “Está tudo bem. Meu dono voltou, sinto-me à vontade e seguro, e agora posso voltar a explorar o ambiente”.

Cerca de 35% dos gatos e gatinhos exibiram insegurança no apego: evitavam os donos ou se agarravam a eles quando voltavam para a sala. Isso não quer dizer que esses animais de estimação tenham um relacionamento ruim com seus donos, disse Vitale, mas que não encaram seus donos como uma fonte de segurança e alívio do estresse.

Os resultados refletem outros realizados com cães e crianças. Nos seres humanos, 65% das crianças apresentam apego seguro a seus cuidadores, assim como 58% dos cães.

“Este resultado sugere uma semelhança na sociabilidade entre seres humanos e animais de companhia”, disse Atsuko Saito, cientista comportamental da Universidade Sophia, em Tóquio, que não participou da nova pesquisa. "Investigar esse fenômeno nos ajudará a entender melhor a evolução da socialização dos animais, inclusive a nossa”.

Após a primeira rodada de testes, os pesquisadores inscreveram metade dos gatinhos utilizados no estudo em curso de treinamento e socialização. A outra metade serviu como um grupo de controle.

Um dia por semana, durante seis semanas, os gatinhos brincavam um com o outro e eram treinados para se sentar, ficar parados e fazer truques. Quando o curso terminou, os pesquisadores repetiram o teste da base segura com os gatinhos.

Eles encontraram os mesmos resultados, o que significa que o treinamento não afetou o comportamento de apego dos gatinhos a seus donos. Isso indica que um gato forma um vínculo, que parece permanecer estável ao longo do tempo, disse Vitale.

Em gatos - como em bebês e cães - os pesquisadores ainda não conhecem todos os fatores que moldam o relacionamento com o cuidador, mas é uma mistura complexa de genética, personalidade e experiência.

É possível que ainda mais gatos estejam firmemente ligados aos seus proprietários do que o verificado no novo estudo, disse Mikel Delgado, pesquisador de comportamento animal da Universidade da Califórnia, que não participou da pesquisa.

Ao contrário de cães e bebês, muitos gatos passam quase todo o tempo dentro de casa, portanto ser levado para um novo ambiente pode ser uma experiência estranha e assustadora. Para alguns gatos, uma resposta temerosa a uma situação estressante pode ter precedência sobre um vínculo seguro com o dono, portanto, os resultados do estudo podem não capturar totalmente as ligações de alguns gatos.

Testar as respostas de gatos a estranhos, em vez de apenas com seus donos, pode revelar quais gatos estão realmente ligados a uma pessoa específica ou se são sociáveis em relação às pessoas em geral, acrescentou Delgado.

Vitale e seus colegas pretendem se aprofundar mais no estudo do relacionamento dos gatos com as pessoas e testar se intervenções mais específicas podem ajudá-los a se sentir mais seguros e ser adotados mais rapidamente.

Quanto mais descobrimos a respeito de gatos, mais vemos que eles são criaturas sociais e que as ligações sociais são realmente importantes para eles”, disse ela./TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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