Gene descoberto pode ser a chave da evolução da fala

Professor da UCLA afirma que estudo pode ajudar no tratamento genético de problemas de linguagem

AP,

11 Novembro 2009 | 14h26

Chimpanzé, nosso mais próximo parente na cadeia animal, não fala. Nós falamos. Agora cientistas localizaram uma mutação em um gene que pode ajudar a explicar essa diferença. Essa mutação parece ter sido determinante para o desenvolvimento da fala. Provavelmente não é o único gene responsável por esse processo, mas pesquisadores acharam um gene que tem aspecto e atividade diferentes em chimpanzés e humanos, segundo o artigo publicado nesta quarta-feira pelo jornal Nature.

 

Testes de laboratório demonstraram que a versão humana tem relação com outros cem genes, diferente da versão do chimpanzé. Este gene - chamado FOXP2 - sofreu mutação durante o desenvolvimento humano, promovendo a habilidade da fala.

 

"Esta descoberta apresenta a maior diferença entre o chimpanzé e o homem", disse Daniel Geschwind, autor do estudo e professor de neurologia, psiquiatria e genética humana da Universidade da Califórnia. "Você faz a mutação deste gene em humanos e obtém um transtorno na capacidade de fala e comunicação", conclui o especialista. "Isto mostra o que pode estar acontecendo no seu cérebro."

 

A francesa Vargha-Khadem, chefe de desenvolvimento de neurociência cognitiva da Universidade de Londres, que não fez parte da pesquisa, disse que o estudo "segue uma linha que nós sempre suspeitamos." Vargha-Khadem estudou pessoas que possuíam mutações genéticas que afetavam a fala. Pessoas que apresentavam essas mutações tinham características físicas distintas na parte inferior da mandíbula, na língua e no céu da boca, da mesma forma que os chimpanzés apresentavam. Essas características físicas são importantes porque "você não pode dançar se você não tiver pernas apropriadas para dançar", disse a pesquisadora francesa.

 

O estudo deste gene e de outros podem ajudar a desenvolver tratamentos genéticos para pessoas com alguma dificuldade de desenvolvimento, como autismo, disse Geschwind.

 

Outra parte dos especialistas alertam para a euforia da descoberta. "É muito cedo e inconclusivo medir o quanto isso significa para a evolução da fala", disse Marc Hauser, professor de evolução biológica humana da Universidade de Harvard. "Eu ficaria bastante cético em relação a qualquer projeção de tratamentos por resultados desta descoberta", disse Hauser.

 

E a questão principal não é como, mas "porque nós falamos", disse Derek Bickerton, professor de linguística da Universidade do Havaí. "Só porque os humanos desenvolveram a habilidade de falar, não significa que isso vai acontecer automaticamente", completou Bickerton. "Muitas outras espécies sobrevivem por centenas de anos sem essa habilidade. Nós apenas temos uma características que outras espécies não têm."

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