Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Gênero dos cientistas afeta a linguagem dos trabalhos de pesquisa

Artigos com um primeiro ou um último autor masculino eram mais propensos a descrever seu trabalho em termos positivos

Redação, The Economist

13 de janeiro de 2020 | 10h00

Lean In (Arrisque-se, em tradução literal), aconselha Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, em um livro com esse nome. Seu conselho para as mulheres - serem mais assertivas em obter influência no trabalho, em vez de esperar que esta seja oferecida - foi recebido com desprezo por algumas feministas. Elas dizem que as mulheres não estão se esquivando dos degraus mais altos da carreira. Em vez disso, elas estão sendo afastadas por forças injustas no mercado de trabalho ou enfrentando barreiras estruturais à medida que sobem.

Um artigo publicado no BMJ, periódico de pesquisa médica, no entanto, traz algum apoio à ideia de que os homens se promovem mais e que isso ajuda suas carreiras. Marc Lerchenmueller e Olav Sorenson, afiliado à Yale Business School, e Anupam Jena, da Harvard Medical School, examinaram a linguagem nos títulos e resumos de mais de 100 mil artigos de pesquisa clínica. Eles separaram aqueles em que o primeiro e o último autor citados eram mulheres daqueles em que um ou ambos eram homens. (O primeiro nome geralmente é de um pesquisador júnior que liderou o trabalho, enquanto que o último nome em geral é de um pesquisador sênior que ajudou a orientá-lo.) Com certeza, artigos com um primeiro ou um último autor masculino eram mais propensos a descrever seu trabalho em termos positivos.

“Original” foi o termo positivo mais comumente autoaplicado, e aqueles trabalhos com um homem como primeiro ou último autor usaram a palavra 59,2% a mais do que os artigos assinados por mulheres-mulheres. Mas “promissor” era ainda mais assimétrico: trabalhos com o primeiro ou último autor masculino usaram essa palavra 72,3% a mais do que aqueles com o primeiro e o último autor feminino. Os pesquisadores descobriram ainda que essa autopromoção estava associada a um maior número de citações subsequentes. E ambos os efeitos eram maiores em revistas de prestígio.

Uma possibilidade a ser testada é que os homens realmente fazem mais pesquisas “inovadoras” e “promissoras” do que as mulheres e, portanto, merecem elogios. Os autores do artigo tentaram fazer esse teste. Eles analisaram os rankings de prestígio dos periódicos envolvidos e compararam artigos semelhantes em áreas específicas de pesquisa o mais cuidadosamente possível. Embora seja difícil excluir completamente a possibilidade, outras pesquisas sugerem que os homens simplesmente se interessam mais por si mesmos do que as mulheres. Eles são, por exemplo, mais propensos a citar a si mesmos, de acordo com um artigo publicado em 2017 na Socius, uma revista de sociologia.

Então, as mulheres devem chamar atenção para si mesmas com maior entusiasmo? Um artigo recente rebate essa conclusão fácil. Em um estudo de pesquisa econômica, as mulheres foram sujeitas a mais comentários dos revisores e obrigadas a fazer mais revisões nos textos apresentados. As “notas de legibilidade” das mulheres (uma medida que recompensa palavras e frases curtas) aumentaram com os rascunhos subsequentes e com trabalhos posteriores em suas carreiras. Ao tentar agradar os obstinados revisores, elas parecem estar simplificando e tornando mais diretos seus resumos, e talvez também cortando palavras extras - como “promissora”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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