Jenny Watling
Jenny Watling

Geoglifos da Amazônia tinham baixo impacto na floresta, diz estudo

Povos que construíram figuras misteriosas no Acre, há 2 mil anos, faziam 'manejo agroflorestal', promovendo grandes alterações na floresta, sem desmatá-la

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

07 Fevereiro 2017 | 20h51

Um novo estudo sobre as misteriosas figuras desenhadas em grandes áreas do solo, conhecidas como geoglifos, revelou que no oeste da Amazônia pré-colombiana, uma população considerável tirava seu sustento da floresta, transformando-a intensamente. Apesar disso, por realizar um manejo sustentável das espécies, as intervenções geravam pouco desmatamento.

Nos últimos 40 anos, os cientistas têm localizado, no leste do Acre, um grande número de geoglifos, que foram revelados graças ao gradual desmatamento na região, de acordo com os autores da pesquisa, publicada nesta terça-feira, 7, na revista PNAS. 

Pelo menos 450 geoglifos foram descobertos até hoje, ocupando uma área equivalente a 13 mil quilômetros quadrados. A maior parte deles foi produzida há cerca de 2 mil anos, dizem os cientistas. Alguns têm centenas de metros de diâmetro.

A função dos geoglifos até hoje permanece um mistério. Dificilmente eram cidades, já que os arqueólogos encontram muito poucos artefatos nas escavações. Pelo formato, os cientistas também descartam que as construções tivessem finalidade defensiva. De acordo com os autores do estudo, o mais provável é que eles só eram utilizados ocasionalmente, com objetivos rituais.

Para realizar o estudo, um grupo de cientistas britânicos e brasileiros analisaram a área de dois geoglifos localizados a leste de Rio Branco, no Acre. A pesquisa foi liderada por Jennifer Watling, enquanto realizava seu doutorado na Universidade de Exeter (Reino Unido). Atualmente, a pesquisadora é pós-doutoranda no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo Jennifer, a descoberta dos geoglifos contradiz a ideia de que a Amazônia era um ecossistema intocado antes da colonização, já que havia modificações humanas na floresta - mas também revela que os povos locais conseguiam fazer isso sem destruir a floresta.

"O fato de que esses locais ficaram escondidos por séculos sob a floresta desafia a ideia de que a Amazônia era um ecossistema intocado. Nosso objetivo era saber se a região já tinha florestas quando os geoglifos foram construídos e até que ponto o impacto dessas construções tiveram impacto na paisagem", disse a pesquisadora ao Estado.

Reconstituição florestal. Utilizando métodos de última geração, os cientistas reconstruíram as características da vegetação nos últimos 6 mil anos, nos dois sítios escolhidos. "Nós abrimos uma série de buracos até 1,5 metro dentro e fora dos geoglifos e, do fundo deles, para extrair amostras do solo", afirmou Jennifer. 

"Nessas amostras, analisamos os fitólitos, um tipo de fóssil feito de sílica que são introduzidos pelas plantas. Cada tipo de planta possui um fitólito diferente, o que nos permite descobrir qual era a vegetação que havia ali primitivamente", explicou a cientista. 

Além dos fitólitos, os pesquisadores também estudaram a quantidade de carvão vegetal encontrada nas amostras - para estimar a quantidade de floresta queimada no passado - e mediram os isótopos estáveis de carbono, que indicam o quanto a vegetação era aberta ou fechada. "Isso nos permitiu estimar se ali, há milhares de anos, havia floresta densa ou uma vegetação semelhante à savana", afirmou.

Embora os geoglifos sejam formados por grandes baixos relevos escavados na terra, espalhando-se por vastas áreas e causando grande alteração na paisagem, o estudo mostrou que havia pouca remoção da floresta. Desmatamentos temporários eram feitos apenas para a construção dos geoglifos, segundo Jennifer.

"Apesar do número enorme e da densidade de geoglifos na região, agora temos certeza de que as florestas do Acre nunca haviam sido desmatadas tão extensivamente como ocorreu nos anos recentes", disse a pesquisadora. 

O impacto na floresta era grande, mas não o desmatamento, segundo ela. "Em vez de queimar partes da floresta - para construir geoglifos ou para cultivar alimentos - esses povos transformavam seu ambiente concentrando espécies de árvores economicamente importantes, como palmeiras e castanheiras", explicou Jennifer.

"Designers" da Amazônia. Segundo a pesquisadora, o estudo traz evidências de que, no Acre, a biodiversidade de algumas partes da floresta atual pode ser um legado dessas antigas "práticas agroflorestais".

"As florestas que estão lá hoje em dia têm pelo menos 6 mil anos. Mas a partir de 4 mil anos atrás, elas começaram a ser alteradas para favorecer as plantas úteis. Isso é uma evidência de que a biodiversidade atual foi produzida por essas populações", disse.

Segundo Jennifer, a evidência de que a floresta foi manejada pelos indígenas muito antes do contato com os europeus não pode ser usada como justificativa para o uso da terra destrutivo e insustentável que é feito atualmente.

"Em vez disso, essas evidências devem servir para mostrar que foi possível, no passado, um regime de manejo que não levava à degradação da floresta. O estudo destaca também a importância do conhecimento indígena na busca de alternativas sustentáveis do uso do solo", declarou.

Além de Jennifer, são coautores do artigo os pesquisadores  Luiz Pessendi, do Centro de Energia Nuclear e Agricultura (Cena), da USP, Antonia Damasceno e Denise Shaan, ambas da Universidade Federal do Pará e Alceu Ranzi, da Universidade Federal do Acre, além de cientistas das universidades britânicas de Exeter, Reading e Swansea.

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