Goldemberg está otimista com recepção à proposta brasileira na Rio+10

O secretário do Meio Ambiente de São Paulo, José Goldemberg, saiu otimista da sessão plenária da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, na qual ele apresentou oficialmente a proposta brasileira de meta para o uso das fontes renováveis de energia. "Vários países apoiaram a proposta", comemorou Goldemberg. Apesar da oposição nas negociações entre quatro paredes, nenhum país se colocou abertamente contra durante a plenária. "Mas estamos começando. Temos um longo caminho a seguir?, ressalvou.A Nigéria e a Arábia Saudita, que ao lado dos outros países exportadores de petróleo resistem ao estabelecimento de metas para o aumento do uso de fontes renováveis de energia (hidreletricidade, álcool, solar, eólica, etc.), advertiram para os riscos de estabelecer metas, sem mencionar a proposta brasileira. Além dela, há outra da União Européia que também estabelece metas.O ministro do Petróleo da Nigéria, primeiro a se pronunciar, apelou para a pobreza de seu país para insinuar que há objetivos mais importantes do que o desenvolvimento sustentável, e que uma proposta que teoricamente pudesse reduzir o mercado de petróleo aumentaria essa pobreza. "No meu país há pessoas demais tentando sobreviver. Não há desenvolvimento sustentável nem de outro tipo. Não podemos desviar nosso foco dos pobres quando falamos de desenvolvimento sustentável e de energia." O nigeriano garantiu que seu país "não é hostil ao desenvolvimento sustentável nem às fontes renováveis de energia", mas advertiu que "estabelecer metas sem conceber um plano sobre como atingí-las seria despropositado". Goldemberg, o quarto a falar na sessão plenária, respondeu diretamente ao nigeriano. "Não entendo a posição da Nigéria, de dizer que a meta não tem base científica. Tem, sim."A proposta brasileira é baseada em um estudo de autoria do próprio Goldemberg, com uma radiografia da matriz energética mundial, e com gráficos que mostram o efeito da escala e do investimento em tecnologia no barateamento da energia. "A proposta brasileira captura a maioria dos pontos levantados aqui", disse Goldemberg, referindo-se à parte anterior da sessão plenária, na qual debateram representantes da sociedade civil. Segundo o secretário, ela reduz a poluição, cria empregos, protege as mulheres pobres dos efeitos da poluição doméstica e dos riscos de queimaduras pelo uso de lenha, entre outros benefícios.Goldemberg também contestou a versão do ministro nigeriano segundo a qual o Protocolo de Kyoto, sobre a redução das emissões de gases poluentes, não estabelecia metas. "É a primeira vez que ouço isso", disse o secretário, que fez uma das intervenções mais enfáticas dos 27 representantes de países que se pronunciaram.Soluções viáveisO representante da Arábia Saudita também chamou a atenção para o risco de estabelecer metas e para o problema da pobreza. "Temos que olhar as propostas com toda a atenção, examinar seu impacto cientificamente e com objetividade", disse ele, acrescentando que um quarto da população no mundo árabe vive na pobreza e é preciso "buscar soluções viáveis" para aliviar essa situação. O representante americano qualificou a questão de "complexa e multidimensional" e anunciou a Iniciativa da Energia Limpa, elaborada pelos Estados Unidos, destinada a promover o acesso dos pobres a esse tipo de energia. Segundo ele, a iniciativa é baseada na parceria entre governos, empresas e organizações não-governamentais. Nenhuma palavra sobre metas.O Japão também saiu pela tangente, com uma proposta de "tipo 2", que, pelo jargão da cúpula de Johannesburgo, significa que é de caráter voluntário e horizontal, entre países ou entidades que se interessem em participar. Chama-se Iniciativa para a Alfabetização em Energia, que ensina o uso eficiente da energia. Do ponto de vista brasileiro, a posição mais interessante foi a dos países pobres ? com exceção da Nigéria. Os representantes desses países reconheceram que fontes alternativas e renováveis de energia limpa são o caminho para superar seus dois grandes problemas nessa área - a falta de acesso à energia, que afeta 2 bilhões de pessoas no planeta, e danos à saúde e ao meio ambiente causados pelas fontes tradicionais, como a queima de lenha.A ministra do Turismo de Zâmbia, por exemplo, disse que menos de 20% da população do país tem acesso à energia elétrica e que a matriz energética é composta por 70% de queima de madeira e 14% de hidrelétrica. O restante são os chamados combustíveis fósseis, com o petróleo à frente. Esse padrão se repete em muitos países africanos e asiáticos. De acordo com o representante de Uganda, a África explora apenas 4,5% de seu potencial hidrelétrico. O petróleo é caro demais e a energia hidrelétrica requer investimentos, restando a queima de madeira. Já a representante da Namíbia disse que o país está "investindo agressivamente" na adoção de fontes alternativas, em busca de uma "energia limpa e de custo acessível". ArgumentaçãoEsses ingredientes podem criar um bom ambiente para a argumentação preparada pelo Brasil para obter apoio dos países pobres - a de que o estabelecimento da meta de 10% de fontes renováveis de energia até 2010, com destinação de investimentos e transferência de tecnologia dos países desenvolvidos, abriria caminho para a produção de energia limpa nos países pobres, que poderiam eventualmente exportá-la para os ricos. Entre essas fontes, que podem ser exploradas nos países pobres e em desenvolvimento, estariam o álcool, a madeira gaseificada (com projetos de reflorestamento), óleo de dendê, etc. A proposta brasileira prevê meta de 10% do uso de novas fontes renováveis de energia até 2010. O termo "novas" exclui as fontes tradicionais, como a queima de madeira para gerar energia, que, embora seja renovável, gera desmatamento, poluição e acidentes domésticos. A proposta também exclui as grandes hidrelétricas, pelo dano ambiental que causam.Os representantes do México, Chile, Argentina, Equador, Costa Rica e também o de Tuvalu apoiaram explicitamente a iniciativa brasileira. O apoio dos países da América Latina e do Caribe foi costurado numa reunião em São Paulo, em junho. Os vários países europeus que se pronunciaram e a Nova Zelândia manifestaram apoio à proposta da União Européia, que prevê 15% de uso de fontes renováveis de energia até 2010, mas inclui as grandes hidrelétricas e estipula que os países industrializados, membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), devem aumentar em apenas 2% sua fatia. A média de uso de fontes renováveis de energia no mundo, incluindo grandes hidrelétricas, é de 4,4% - excluindo-as, cairia para 2,2%.Veja o Especial Rio+10

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