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Gordura que emagrece

É possível imaginar que com essas células ativadas perderemos peso

Fernando Reinach *, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2019 | 03h00

O tecido adiposo - as odiadas gordurinhas, que aumentam contra nossa vontade - é motivo de muita frustração na sociedade moderna. Sua função original é acumular reservas alimentares. No passado, dezenas de milhares de anos atrás, a comida não estava na geladeira ou ao alcance do bolso no supermercado. Comer ou não dependia de nosso esforço e sorte.

Nesse ambiente, um órgão capaz de estocar alimento ingerido era indispensável. De vez em quando comíamos muito, mas quase sempre era pouco. Nos dias de pouca sorte, o tecido gorduroso que nos alimentava, transformando gordura acumulada em energia. Hoje faz o mesmo: qualquer excesso de alimento ingerido é estocado na forma de gordura e, como dificilmente passamos fome, o tecido adiposo não tem chance de nos alimentar e só aumenta. Regimes são estratégias para forçar o tecido adiposo a nos alimentar. Aí perdemos peso, mas como é difícil!

O que poucos sabem é que há décadas sabemos que existe um segundo tipo de tecido adiposo, o marrom. Ele também estoca o excesso de alimento, porém, quando ativado, não supre o corpo com alimento, mas com calor. Ele queima estoques de gordura e produz calor. Na maioria dos mamíferos, é responsável por ajudar na regulação térmica dos animais jovens e desaparece quando ele cresce. É assim nos humanos. Nos ursos, o tecido marrom acumula gordura no verão e fica inativo na hibernação. Na primavera, o tecido marrom é ativado e começa a produzir calor, esquentando o corpo do urso até ele acordar. Quem alimenta o urso no inverno é o tecido adiposo comum (branco). No fim do inverno é a vez do tecido marrom fazer seu papel.

A novidade é que nos últimos anos os cientistas descobriram que, entremeadas no tecido adiposo branco, há muitas células de um terceiro tipo de tecido adiposo, o bege. Ele fica inativo na nossa vida normal e só é ativado quando passamos muito frio por tempos prolongados. Em ratos, é necessário deixar o bichano por semanas a 15°C para ele ser ativado. Mas quando ativado, queima gordura para produzir calor, e o animal perde peso. 

Como temos casacos e aquecimento, dificilmente vivemos situações em que esse tecido é ativado. A descoberta entusiasmou cientistas, pois, se for possível ativar esse tecido com uma droga, isso nos faria perder peso rapidamente. O calor gerado poderia ser aliviado com banhos ou ar-condicionado. E assim começaram pesquisas para entender como o tecido bege é ativado.

O que se descobriu é que o mecanismo de ativação envolve o sistema nervoso simpático, por meio de receptores beta adrenérgicos. Esse sistema é bem conhecido, mas age de modo geral sobre vários órgãos, o que torna sua ativação por meio de drogas quase impossível sem incorrer em horríveis efeitos colaterais. Mas isso não desanimou os pesquisadores, que continuaram a buscar outro modo de ativar o tecido bege. Em experimentos com camundongos que não têm receptores adrenérgicos, cientistas descobriram um subgrupo de células do tecido bege que também são ativadas pela exposição ao frio, mas não precisam de receptores beta adrenérgicos.

Essas células parecem derivar dos mesmos progenitores que dão origem ao tecido muscular e, quando ativadas, queimam açúcar diretamente e geram calor. Essas células bege usam receptores distintos, mais semelhantes aos de algumas células do sistema muscular. Isso deve permitir controlar sua atividade com drogas que não devem ter tantos efeitos laterais. Como essas células no tecido adiposo (as adipócitos beges glicolíticos) consomem glicose e produzem calor, elas têm o potencial de não só diminuir a quantidade de gordura acumulada no corpo, mas, ao consumir parte da glicose no sangue, podem ajudar a controlar a diabete.

Se no futuro conseguirmos ativar essas células sem necessitar colocar o indivíduo no frio por longo tempo, é possível imaginar que com essas células ativadas perderemos peso e controlaremos a diabete, dois grandes problemas do mundo moderno. O problema é que as pessoas passariam o dia todo com calor. Mais um motivo para você se preocupar com o aquecimento global.

MAIS INFORMAÇÕES: THERMAL STRESS INDUCES GLYCOLYTIC BEIGE FAT FORMATION VIA A MYOGENIC STATE. NATURE (2018)

* É BIÓLOGO

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