Gordurinhas evolutivas

(Nota: O autor está de férias a partir do dia 30. A coluna voltará na semana do dia 5 de janeiro. Boas festas para todos!)     Imagine só: nesses tempos de crise financeira internacional, muito político e economista brasileiro andou dizendo que o Brasil estava protegido do pior porque ainda tem "muita gordura pra queimar". A analogia é mesmo ótima.   Mas você sabe por quê?     Nesses tempos de empanturramento generalizado de fim de ano, vale a pena explicar. Quando você encher a barriga de peru, chester, panetone e champagne nesse fim de ano, seu organismo será abastecido com muito mais calorias do que ele realmente precisa para funcionar.     O problema é que o organismo humano é extremamente egoísta e econômico quando se trata de gastar de energia. Vivemos sob uma ditadura biológica de desperdício zero! Se o seu corpo precisa de 10 calorias para funcionar, mas você ingere 200, as outras 190 calorias não vão passar de graça, não! Vão virar superávit energético! Ou seja: gordura.     O fato é que nosso corpo está sempre preocupado em estocar calorias para um eventual período de fome. Afinal, vai que você não consegue matar um mamute ou pelo menos um coelhinho até o próximo fim de semana.... melhor prevenir do que remediar!   Hoje esse exemplo parece absurdo, já que bastar ir ao supermercado, comprar um peru congelado, jogar no forno e está tudo resolvido.       Para os nossos antepassados hominídeos e homens das cavernas, porém, a vida era muito mais difícil.   Antes de inventarem a agricultura, se você tinha fome, tinha de pegar uma lança com ponta de pedra e sair por aí caçando algum bicho muito maior, mais forte e mais rápido do que você. Não era todo dia que tinha bife com batata frita, não. Você nunca sabia quando conseguiria matar a próxima refeição.   Também não tinha geladeira naquela época. Por isso, se você matava um mamute, tinha de comer tudo logo, antes que apodrecesse.     Consequentemente, os seres humanos primitivos que sobreviveram em maior número (e que deram origem a nós) foram aqueles capazes estocar mais calorias na forma de gordura, como forma de aproveitar ao máximo a energia contida nos alimentos.     A gordura, portanto, funciona como uma "apólice de seguro" energética. No caso de falta de alimento, o seu organismo começa a queimar gordura para sobreviver.     Ter um corpo super magrinho, com 10% de gordura, é ótimo para correr maratonas ou desfilar nas passarelas, mas é péssimo para se manter vivo entre um mamute e outro. Alegria meninas: se acabasse toda a comida do mundo amanhã, as modelos magricelas e sem gordura seriam a primeiras a entrar para a lista de extinção!   Portanto, quando o governo diz que "ainda tem muita gordura para queimar", ele quer dizer que, mesmo se a economia mundial entrar em regime de fome, a economia brasileira tem dinheiro e empregos suficientes em caixa para se manter viva por algum tempo. (Se isso é verdade ou não, pergunte ao Celso Ming, que entende de economia.)     Pense nisso neste Natal e réveillon, quando estiver com um panetone na mão e sentado na frente da televisão, assistindo à 25ª exibição de Rudolf, a Rena do Nariz Vermelho. Ou esparramado na praia, com uma cervejinha gelada nas mãos e um pacote de linguiças assando na churrasqueira. Feliz 2009!

19 de dezembro de 2008 | 14h43

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