Reprodução/Facebook
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'Minha função é prover resposta técnica, não política', diz novo diretor do Inpe

Governo Bolsonaro escolhe pesquisador civil como diretor do Inpe após deixar um interino militar por mais de um ano no cargo; responsável por monitorar a Amazônia, instituto vem sendo alvo de críticas e questionamentos do governo

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 07h48
Atualizado 02 de outubro de 2020 | 13h04

SÃO PAULO - Alvo de críticas e questionamentos do governo Bolsonaro há mais de um ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) tem um novo diretor. O engenheiro eletricista Clezio Marcos De Nardin, que era coordenador-geral de Ciências Espaciais e Atmosféricas do próprio instituto, foi escolhido pelo ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, para assumir o cargo máximo do órgão pelos próximos quatro anos.

Pesquisador da área da ciência espacial, Nardin, de 48 anos, é um dos criadores do programa de monitoramento do clima espacial no Inpe. A decisão foi publicada nesta sexta-feira, 2, no Diário Oficial da União.

Em breve entrevista ao Estadão, Nardin não quis entrar nas polêmicas e afirmou que pretende adotar, à frente do Inpe, um caráter pragmático em relação aos ataques do governo federal.

"O Inpe já esteve em situações difíceis no passado. Não estou dizendo que as críticas são bem-vindas ou indesejadas. Toda crítica é bem-vinda, e todas serão tratadas com análise técnica. Minha função é prover uma resposta técnica, não uma resposta política. Se você está atrás de uma resposta política, eu sugiro que você procure o ministro. Ele é quem tem responsabilidade por isso. A minha função é assessorá-lo. Encaro com naturalidade. Críticas são comuns no meio científico e as nossas respostas serão sempre sempre técnicas para atender ao País e ao governo", afirmou.

Quando questionado sobre o risco de corte de orçamento no próximo ano e sobre quais estratégias pretende adotar para blindar o instituto, Nardin insistiu no papel técnico do Inpe: "Sou um órgão técnico, não posso fugir disso. É a minha natureza. Sempre vou argumentar do ponto de vista técnico. Quem tem de decidir para onde vai o orçamento é a Câmara dos Deputados, o governo".

E complementou: "Cabe ao Inpe, com o que receber, fazer o seu melhor. E tentar, na medida do possível, diante da crise que o País vive, mostrar sua importância e onde o Inpe pode atuar para melhorar a economia do País. Não cabe ao Inpe criticar se o orçamento é ruim, ou é baixo, ou é grande, ou é pouco. Quem tem de fazer isso é o povo através dos seus representantes no Congresso. O Inpe trabalha pelo País, só isso."

A direção do instituto era ocupada interinamente desde agosto do ano passado pelo militar Darcton Policarpo Damião, depois que o então diretor, o físico Ricardo Galvão, foi exonerado pelo governo. Coronel da reserva da Aeronáutica, Damião era candidato à vaga definitiva e vinha, desde o fim do ano passado, conduzindo um polêmico processo de reestruturação no Inpe, o que indicava que ele poderia contar com algum favoritismo, o que era rejeitado pela maior parte do instituto e da comunidade científica. Desde sua criação, o Inpe sempre teve diretores civis.

Ao todo, nove pessoas se candidataram ao cargo, entre eles o ex-diretor do Inpe Gilberto Câmara e dois ex-diretores de institutos de pesquisa federais: Nilson Gabas Júnior (que foi do Museu Paraense Emílio Goeldi) e Victor Pellegrini Mammana (Centro de Pesquisas Renato Archer).

Um comitê de busca independente e científico submeteu uma lista tríplice ao ministro Pontes, mas não foram divulgados os nomes que a compunham. "O MCTI dá as boas-vindas ao dr. Clezio Marcos de Nardin, que possui todos os requisitos e competências exigidas para assumir tal missão. Dr. Clezio tomará posse nesta sexta-feira, 2, para uma nova gestão de quatro anos", informou o Inpe em seu site.

A nota informa que Damião "assume um novo desafio" e será assessor especial de Pontes. O militar recebeu ainda uma condecoração nesta quinta e foi promovido pelo Ministério da Defesa ao grau de comendador.

Ataques ao Inpe

Responsável, entre outras atividades, pelo monitoramento por satélite do desmatamento da Amazônia, o Inpe está há mais de um ano no centro de críticas pesadas do governo federal. Em meados de 2019, quando o desmatamento da Amazônia começou a subir, o presidente Jair Bolsonaro disse diversas vezes que os dados revelados em alertas do sistema Deter, do instituto, eram mentirosos. Bolsonaro chegou a insinuar que Galvão estivesse a "serviço de alguma ONG." 

Galvão, na ocasião, respondeu de forma pesada e acusou o presidente de agir de forma "pusilânime e covarde". Ele defendeu a qualidade e a transparência dos dados, que foram também chancelados por instituições de pesquisa do Brasil e do exterior, como a Nasa. Mas o estresse foi tamanho que Galvão acabou exonerado.

De lá para cá, toda vez que o Inpe revelava que a situação de desmatamento e queimadas na Amazônia, e mais recentemente, no Pantanal, estava crítica, o governo voltava a atacar as informações. Neste ano, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, que coordena o Conselho da Amazônia, questionou várias vezes os sistemas de monitoramento, indicando que eles não seriam o suficiente para ajudar a conter o problema. Ao mesmo tempo, veio à tona a informação que o Ministério da Defesa pretende contratar um novo satélite, ao custo de R$ 145 milhões.

Boa parte da comunidade científica que trabalha com sensoriamento remoto criticou a proposta tanto pelo seu custo quanto pela falta de necessidade do instrumento. Gilberto Câmara, que dirigiu o Inpe entre 2005 e 2012, e é hoje diretor do secretariado do Grupo de Observações da Terra (GEO), da ONU, o comparou à cloroquina, droga que não demonstrou agir contra a covid-19. 

“Ao mesmo tempo em que pretendem gastar R$ 145 milhões numa compra de uma cloroquina espacial, o orçamento de pesquisa do Inpe foi zerado para 2021. A única explicação possível é que os militares querem substituir o monitoramento do Inpe pelo do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e produzir um número cujos dados não serão transparentes para a sociedade”, afirmou em agosto ao Estadão

Ao longo do processo de escolha do novo diretor, o Inpe sofreu um novo golpe, com a redução de parte do seu orçamento que é proveniente da Agência Espacial Brasileira. 

O Sindicato Nacional dos Servidores Federais na Área de Ciência e Tecnologia (SindCT) divulgou nota ressaltando que desde a exoneração de Galvão o Inpe foi atacado de diversas formas. "Duvidaram dos dados que mostraram o incremento acentuado na destruição dos biomas brasileiros, tentaram desqualificar os sistemas de monitoramento do desmatamento e das queimadas e menosprezaram a excelência da produção científica que fundamenta os resultados que tanto incomodam a um projeto de destruição ambiental. E calado ficou o interventor", escreveu o sindicato.

Em relação a Nardin, a entidade afirmou: "É um cientista qualificado, formado e treinado no próprio Inpe, onde se doutorou em Geofísica Espacial e atualmente é Coordenador-Geral de Ciências Espaciais e Atmosféricas. E assim se credenciou, aos olhos do Comitê de Busca, para dirigir uma instituição tão complexa como o Inpe, que nos seus 59 anos de existência tem prestado bons serviços à sociedade e contribuído para o avanço da ciência".

"Desejamos ao novo diretor uma profícua e exitosa gestão, baseada no compromisso maior com a ciência e o conhecimento, no diálogo com a comunidade interna, defendendo o Inpe quando este for atacado e não se curvando aos síndicos de ocasião e àqueles que desconhecem a história desta instituição e o seu comprometimento com o Brasil", afirmou o SindCT na nota.

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