Governo britânico avalia casos de doping intelectual

Eles querem identificar uso de substâncias que tenham impacto na capacidade cognitiva de cientistas

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

22 de outubro de 2008 | 21h49

Um debate toma conta do mundo acadêmico e mesmo de governos na Europa e Estados Unidos: o doping intelectual. O governo britânico começa a avaliar os usos de substâncias e remédios que possam ter algum impacto na capacidade cognitiva de cientistas e mesmo de estudantes. Nos Estados Unidos, uma série de departamentos do governo vem realizando estudos para saber qual impacto das substâncias em diferentes setores. Na Inglaterra, a Associação Médica quer a imposição de novas regras para dificultar o acesso às substâncias.   Tudo começou com uma sondagem feita pela revista Nature que, em abril, concluiu que um a cada cinco pesquisadores e cientistas se dopam para fazer suas novas descobertas. Dos 1,4 mil cientistas que foram questionados nos Estados Unidos e Europa, 20% deles confirma que tomam regularmente substâncias para melhorar suas habilidades cognitivas. Mas o tema não se limita aos cientistas e já existem preocupações com o uso de substâncias para crianças e estudantes.   O setor farmacêutico vem criando nos últimos anos produtos para melhorar o aprendizado de crianças e evitar a perda de memória entre os mais velhos. Mas a conclusão da pesquisa é de que os produtos passaram a ser usados por cientistas.   Na Europa e nos Estados Unidos, o uso desses produtos está abrindo um amplo debate e já há quem defenda, no governo britânico, que haja um debate ético sobre o surgimento desses produtos e seus usos em pessoas saudáveis. As substâncias mais usadas são aquelas desenvolvidas para tratar de Alzheimer e hiperatividade.   Para a parcela dos cientistas a favor do uso dos produtos, a questão que colocam é simples: se um quadro de um artista que se droga é valorizado pelo resultado final, porque isso não poderia ocorrer nos laboratórios? Já outros alertam que se há um controle de doping no esporte, porque não na comunidade científica. Esse grupo ainda lembra que nesse meio a concorrência pode ser tão dura como numa competição esportiva e que bolsas e prêmios são dados aos que melhor desempenham suas atividades.   A pesquisa da Nature foi emblemática e, para o governo inglês, os resultados mostram como pode ser difícil estabelecer algum tipo de controle. Daqueles que afirmaram consumir as substâncias, uma grande maioria - 62% - confirmou que a preferida era o metilfenidato, usado para crianças hiperativas e que tem problemas para se concentrar.   Nas pessoas saudáveis, o efeito seria uma maior concentração. 44% dos entrevistados ainda indicou que usavam modafinilo. Nesse caso, o efeito não seria muito diferente da cafeína: manter os cientistas acordados e permitir que passem noites estudando. Um grupo ainda de 15% dos cientistas afirmou que usava propanolol, usada para pressão alta. 80% dos entrevistados ainda garantiram que estavam cientes das conseqüências e que são favoráveis ao "livre-arbítrio" entre os adultos.   Mas os governos não vêem a questão da mesma forma. Um estudo do da Academia de Ciências Médica do Reino Unido alertou o governo que há uma tendência cada vez maior do uso de substâncias por estudantes em escolas e universidades e pede regulamentações rígidas. O estudo, encomendado pelo governo, foi liderado por especialistas da Universidade de Cambridge University.   O grupo destacou que de fato a medicina pode contribuir para ajudar a solucionar problemas neurológicos. Mas alerta que o governo deveria até mesmo pensar em estudar regulamentações para evitar que pessoas saudáveis possam ter acesso a essas substâncias.   "Vemos similaridade no uso futuro de substâncias para melhorar a capacidade cognitiva e o atual uso de drogas para melhorar o desempenho esportivo", afirmou o chefe da pesquisa britânica, Sir Gabriel Horn no documento apresentado ao governo. "A sociedade precisa começar a se preparar para lidar com essa nova realidade", disse.   A Associação da Indústria Farmacêutica Britânica rejeita a necessidade de novas leis. "Não existem tantos abusos como diz a pesquisa. Essas substâncias somente podem ser adquiridas com receitas médicas", afirmou ao Estado uma representante da entidade.   Já o governo inglês aponta apenas que vai estudar o que fará com as recomendações. Mas admitiu que o tema será relevante nos próximos 20 anos.   Enquanto os governos se confrontam com um novo fenômeno, a sociedade civil já começa a se mobilizar, em ambos sentidos. No próximo mês, cientistas de todo o mundo se reúnem no que será um dos principais congresso mundial de neuro-ética, em Washington. O assunto do "doping mental" estará na agenda.   Até mesmo uma pagina do site Facebook foi criado por aqueles que querem a "integridade da pesquisa científica". "Diga não ao doping intelectual", afirma a página.

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