Governo de SP cria parque para proteger nascentes do Rio Paranapanema

Área de 22,5 mil hectares de Mata Atlântica será preservada; Alckmin assina criação nesta terça-feira, 19, na Rio+20

José Maria Tomazela, de Sorocaba,

18 Junho 2012 | 21h42

Uma área de 22,5 mil hectares de Mata Atlântica preservada, com água cristalina brotando de 1.002 nascentes que dão origem ao Rio Paranapanema, um dos mais importantes rios paulistas. Um maciço florestal que abriga a maior quantidade de onças pintadas do sudeste e as últimas populações de monos-carvoeiros do País. É essa riqueza natural que o governo do Estado de São Paulo quer preservar com a criação do Parque Estadual Nascentes do Paranapanema que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) assina nesta terça-feira, 19, na Rio + 20 – a conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável.

A nova unidade vai compor com os parques estaduais Carlos Botelho, Alto Ribeira (Petar) e Intervales, além da Reserva Ecológica do Xituê e de parte da Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra do Mar, o futuro

Mosaico de Unidades de Conservação do Paranapiacaba, um maciço florestal com mais de 250 mil hectares, o maior remanescente contínuo de Mata Atlântica protegida do Brasil. A área já foi declarada Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e Sítio do Patrimônio Natural Mundial. A proposta, elaborada pela Fundação Florestal, órgão da Secretaria Estadual do Meio Ambiente que administra as unidades de conservação,

foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema).

Também já foi debatida em audiência pública, no dia 17 de maio, com a população de Capão Bonito – toda a área do novo parque está nesse município. O novo parque fica em área de serra e grande parte do seu território está nas zonas de amortecimento dos parques Carlos Botelho e Intervales. São terras devolutas, ou seja, já pertencem ao Estado. Na proposta, a Fundação Florestal invocou a necessidade de proteger as nascentes do Paranapanema, um dos corpos d’água mais importantes do Estado para abastecimento e geração de energia. Além da preservação, a criação do parque deve fomentar o turismo ecológico e cultural na região, valorizando as comunidades locais e gerando alternativas sustentáveis de emprego e renda, segundo a Fundação.

O local abriga a maior população de onças da Mata Atlântica, segundo Clayton Lino, presidente do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. “É um trecho de mata extremamente conservada, incluindo áreas intocadas do bioma. Entre os indicadores da riqueza da fauna e da flora existentes ali está a identificação de novas espécies e de populações ameaçadas de extinção, como a anta, macaco muriqui do sul, onça-parda e onça pintada.” De acordo com Lino, em apenas 60 dias foram registrados mais de nove exemplares de onça pintada no local.

  A conexão entre as várias unidades protegidas contribuirá para a sobrevivência da espécie, que depende territórios vastos e intocados. A onça tende a se afastar de locais frequentados pelo homem – nas áreas

de reserva, seus principais ‘inimigos’ são caçadores e extratores de palmito. Calcula-se a existência de apenas 250 indivíduos entre os Estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, a maioria na área do

mosaico. O levantamento da fauna mostrou a presença de 50 espécies ameaçadas de mamíferos, entre eles o cachorro do mato-vinagre e o veado-bororó, o cervídeo mais raro do Brasil, e 450 de aves, uma das

maiores diversidades do mundo.

MUNICÍPIOS QUEREM COMPENSAÇÃO

As prefeituras dos municípios de Capão Bonito e Ribeirão Grande, que terão áreas atingidas pelo parque, querem compensação pelo “congelamento” de parte dos seus territórios. De acordo com o vice-prefeito de Capão Bonito, Marco Antonio Citadini (PTB), importantes reservas minerais estão no solo a ser afetado. “Algumas são estratégicas, pois são as últimas reservas do Estado.” De acordo com Citadini, o ICMS ecológico paulista tem valor irrisório. “É preciso estudar outras formas de compensação, pois as perdas são grandes.”

Segundo ele, projetos de ampliação das duas fábricas de cimento existentes na região serão suspensos.

Citadini conta que, na audiência pública para discutir a criação do parque, muitas dúvidas não foram respondidas. “O que fazer com os moradores? Quem vai assumir a manutenção das estradas rurais da área?

Como o Estado vai gerir o parque, se as outras unidades da região têm sérios problemas de gestão?”, indaga. De acordo com o secretário estadual do Meio Ambiente, Bruno Covas, além da preservação, a criação

do parque vai desenvolver o turismo ecológico e cultural na região, gerando alternativas sustentáveis de emprego e renda. Segundo ele, foram identificados apenas dez ocupantes, cujos direitos serão respeitados.

  Ambientalistas destacaram a importância da medida. Para Fábio Feldmann, ex-secretário estadual do Meio Ambiente, com a criação do parque, o governo assume um compromisso de significado planetário, já

que as áreas são patrimônio mundial. Carlos Joly, coordenador do Programa Biota da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) classifica a Mata Atlântica como um gigantesco patrimônio

natural. “Fico extremamente satisfeito porque mais uma área indicada como prioritária está sendo protegida.” O também ex-secretário Paulo Nogueira Neto disse que a notícia é a melhor dos últimos anos para os

animais e plantas da floresta. “É um parque espetacular, com 22 mil hectares de matas primárias no coração da Mata Atlântica, em terras desocupadas e do Estado. Um achado!” Thomaz Lovejoy, que acaba de

receber o Blue Planet Prize, o mais importante prêmio do setor ambiental, disse que o novo parque é “um sinal entusiasmador da vontade de São Paulo de cumprir compromissos vitais com a biodiversidade da

Mata Atlântica.”

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