Governo tenta evitar fracasso de conferência ambiental

O governo brasileiro ainda tem esperança de reverter os prognósticos de fracasso da Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável, a Rio+10, marcada para agosto em Joanesburgo. A idéia é aproveitar a transferência simbólica de sede da conferência - do Brasil para a África do Sul - que ocorrerá entre os dias 23 e 26, no Rio de Janeiro, para conquistar apoio político e barrar as intenções de países desenvolvidos, principalmente dos Estados Unidos, de derrubar compromissos na área ambiental assumidos há dez anos, na Rio92.Em Báli, onde ocorreu a última reunião preparatória, os americanos tentaram alterar acordos, entre eles o que confere às nações responsabilidade proporcional ao dano ambiental provocado por elas. E investiram contra a repartição de benefícios em biodiversidade com os países que forneceram recursos genéticos para o desenvolvimento de produtos. Uma ofensiva que fere os objetivos iniciais da reunião de Joanesburgo, convocada para fixar metas de cumprimento de acordos firmados na Rio92. "Seria um desastre histórico perder essa oportunidade", adverte o assessor de Fernando Henrique para a Rio+10, o ex-deputado Fabio Feldmann.Por isso, o encontro para transferência da sede da cúpula do meio ambiente ganhou contornos políticos. Estarão presentes o primeiro-ministro da Suécia, Goran Person, o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e o da África do Sul, Thabo Mbeki. São chefes de governo, respectivamente, de países que sediaram conferências anteriores e do próximo anfitrião. Durante o encontro, as autoridades e participantes serão convidados a responder às seguintes perguntas: o que se deixou de fazer nos últimos 10 anos? o que esperam da cúpula de Joanesburgo e da próxima década em relação ao desenvolvimento sustentável? Estados Unidos e União Européia querem eleger a pobreza como tema principal da cúpula de agosto. "Não é preciso convocar 180 chefes de Estado para concluir que a pobreza é um problema grave", afirma o ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, que chefiou a delegação brasileira em Báli. Para ele, trata-se de uma manobra para desviar a atenção dos graves problemas ambientais gerados pelos "padrões de produção e consumo insustentáveis das economias desenvolvidas". O principal é o efeito estufa, que está aumentando o aquecimento do planeta. "Não podemos, definitivamente, ignorar que os EUA sozinhos fazem a emissão de quase um terço de gases do efeito estufa, que provocam o aquecimento da terra." Na opinião do ministro, não se pode discutir pobreza sem a criação de metas claras para melhorar a educação, a saúde e o saneamento. Ele defendeu doações das nações ricas a países extremamente pobres e abertura do mercado da União Européia, americano e japonês para os países desenvolvimento. "A única possibilidade é o mercado de alimentos, rigorosamente fechado pelos extraordinários subsídios que os países ricos dão a seus agricultores", diz o ministro.Carvalho observa que esse modelo econômico agrava os desequilíibrios regionais e acaba tendo desdobramentos indiretos para o meio ambiente. Na agricultura, forma-se o círculo vicioso de desmatamento, cultivo e abandono da área. "O que adianta ser o país mais importante num mundo absolutamente pobre, destroçado? Não vejo vantagem."

Agencia Estado,

14 de junho de 2002 | 18h12

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