Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

Hawking ficou famoso menos pela física e mais por seu sofrimento

Um dos maiores nomes da ciência sofria de esclerose lateral amiotrófica

The Economist *, O Estado de S.Paulo

14 Março 2018 | 16h55

A predestinação provavelmente não se inseria nas crenças de Stephen Hawking. Foi uma mera coincidência o fato de ele ter nascido no dia em que eram lembrados os 300 anos da morte de Galileu Gallilei. Mas Hawking, além de ser um grande físico, compartilhava com Galileu o fato de ter ficado famoso menos pela física e mais por causa do seu sofrimento. Que foi causado não por políticos eclesiásticos que preferiam a ordem à verdade, mas por uma esclerose lateral amiotrófica, que provoca uma atrofia dos músculos. E por isso também teve de lutar para ser ouvido.

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Na juventude nunca mostrou falta de confiança e certa vez interrompeu o grande astrofísico Fred Hoyle no meio de uma palestra na Royal Society, corrigindo-o quando dissertava sobre as massas das partículas. Mas quando não conseguiu mais escrever equações, suas teorias tiveram de ser convertidas em geometria em sua cabeça; e depois de uma traqueotomia em 1985, o oceano do seu pensamento tinha de passar por um pequeno tubo vocal. Suas palavras necessariamente ficaram tão reduzidas que precisou fixar os olhos no universo para definir e redefinir o máximo possível o que estava descobrindo ali. Suas teorias de tudo surgiram numa voz robótica e curiosamente carregada de emoção.

Seus livros também buscavam explicar suas teses mesmo para o homem da rua. "Uma Breve História do Tempo", publicado em 1988,  foi vendido aos milhões, embora muitos exemplares tenham sido abandonadas em mesas de café dada a dificuldade de entender.  E o livro Briefer History (Uma mais breve história do tempo), de 2005,  era a mesma tese tornada mais explícita, pelo menos para ele. Hawking esperava que as pessoas o compreendessem porque era importante para os cientistas explicarem o que estavam fazendo. Seu ramo de ciência, a cosmologia, visava responder a perguntas outrora levantadas pela religião. Em ambos os livros e em outros mais que escreveu, Hawking afirmou que as leis da ciência explicavam tudo  sem necessidade de invocar Deus. Se a teoria das cordas e suas 11 dimensões fossem compreendidas, por exemplo, isto mostraria como o universo começou.

A física moderna é uma ciência estranha e era parte do seu trabalho diário, como professor Lucasiano de matemática na universidade de Cambridge até se aposentar em 2009, quando então ela ficou ainda mais estranha, repleta de contradições. Objetos são ao mesmo tempo partículas e ondas, como a luz. A matéria sólida é principalmente espaço vazio. Quanto menor o objeto examinado, maior é o aparato necessário para o exame. Talvez para se harmonizar com esta estranheza, os elementos constitutivos do universo com frequência têm nomes extravagantes. Quarks, estranhos e cativantes. Léptons, mésons e glúons. E, naturalmente, buracos negros.

Foram os buracos negros, em particular, que ele mais estudou, chegando a proclamar que era mestre nesse assunto. O que veio aumentar sua mística. Os buracos negros, que foram prognosticados pelos matemáticos antes de serem descobertos na natureza, são anomalias - pontos em que as leis familiares da física não se aplicam, mas são circundados por superfícies conhecidas como Horizontes de Eventos. Qualquer coisa que cruze esse horizonte é tragada para sempre, diz a teoria. E coisas tragadas não podem retornar. Mas a energia consegue escapar de um buraco negro por meio de um processo que converte as partículas subatômicas virtuais que constantemente entram e saem do vazio do espaço em partículas reais.

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Esta "radiação Hawking" o surpreendeu tanto quanto outras pessoas, e chegou mesmo a incomodá-lo. Ela não foi detectada enquanto ele viveu, e por isto ele nunca conquistou um prêmio Nobel. Mas o Grande Colisor de Hádrons, no CERN, continua persistentemente envolvido no trabalho que poderá provar que ele estava certo - pois são poucos os que duvidam que a radiação Hawking existe.

Mas seu interesse em anomalias não se restringiu aos buracos negros. O próprio universo pode ser visto como um objeto anômalo, embora seja um objeto que os seres humanos veem de dentro e não de fora. E ele estava intensamente interessado na sua origem e também no tempo em si. Para explicar seu conceito, de que antes do Big Bang não existia realmente nem tempo e nem espaço, ele fez uma comparação, perguntando o que está ao norte do Pólo Norte. Quando sua deficiência não lhe permitiu mais entrar em discussões, felizmente ele se direcionou para esses estudos novamente. 

Tempo finito, espaço infinito

Hawkins dedicou-se também à Cosmologia hiper-dimensional, as pseudo-partículas de Yang-Mills, à Matrix S de dispersão, espaços dimensionais com curvatura negativa de Sitter, emaranhamento quântico, teorias gravitacionais de Brans-Dike e HOyle-Narlikar e gravidade quântica Euclidiana. Sua contribuição para publicações científicas foi contínua, mas insistia em destacar para os não especialistas o lugar da humanidade no Universo.

O desvio da realidade científica que o senso comum sugere vem ocorrendo (o sol girando em torno da terra, por exemplo) não mais ameaça as instituições políticas, mas ameaça a psique humana da mesma maneira que à época de Galileu. O Polo Norte do tempo de Hawking estava a 13,7 bilhões de anos no passado - três vezes mais antigo que a Terra. Seus cálculos matemáticos mostravam que o universo, embora finito no tempo, poderia ser infinito em termos de espaço.

Nenhuma filosofia que coloca a humanidade em algum ponto próximo do centro das coisas consegue compreender fatos como este. Resta apenas mantê-la reunida diante da esmagadora realidade. Mas a vista de um homem em uma cadeira de rodas constantemente investigando, procurando corajosamente demonstrar o alcance infinito da mente humana, deu ao ser humano alguma esperança de entender isto, como ele esperava que viesse a acontecer.

* Tradução de Terezinha Martino 

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