Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Hormônio da solidão

Foi descoberto um composto que é capaz de debelar os efeitos da solidão

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2018 | 03h00

A punição para quem já está preso é a solitária. Não é para menos: somos animais sociais e a ausência de convivência com outros seres humanos é extremamente penosa. Ela provoca depressão, aumenta a agressividade, facilita o aparecimento de doenças e pode levar ao suicídio. 

Nas sociedades modernas, a solidão atinge até 50% das pessoas com mais de 60 anos. Nas sociedades primitivas, vivíamos em constante contato, dividindo tarefas com os membros de nossa tribo. Hoje é possível sofrer de solidão vivendo numa grande cidade.

Que a solidão causa mudanças comportamentais ninguém duvida, mas até agora o mecanismo que provoca essa transformação era desconhecido. Agora foi descoberto um neuropeptídio, uma espécie de hormônio, envolvido nesse processo, e ao mesmo tempo um composto químico capaz de debelar os efeitos da solidão.

Tudo começou com a descoberta que em moscas submetidas à vida solitária a quantidade de uma pequena proteína chamada NkB (neurocinina B) aumentava muito. Como a mesma proteína existe no cérebro de camundongos e seres humanos, um grupo de cientista resolveu investigar se a NkB estava envolvida na solidão dos camundongos.

Camundongos foram colocados sozinhos por duas semanas (o que equivale a um ano para seres humanos). Após esse tempo, eles apresentavam os sintomas típicos da solidão. Alta sensibilidade a estresse, como a presença de uma sombra sobre eles e aumento da agressividade. Ao examinar os cérebros desses animais os cientistas observaram um enorme aumento na quantidade de NkB presente em todo o cérebro. Mas faltava demonstrar que o estresse e o aumento desse hormônio tinham uma relação de causa e efeito. 

Já era sabido que o NkB se liga a um receptor existente no cérebro chamado Nk3-R, e que existe uma droga chamada Osanetant que bloqueia essa ligação. Quando essa droga foi ministrada aos animais durante a solidão, os níveis de NkB aumentavam, mas os sintomas da solidão eram muito mais fracos, como se o bloqueio dos receptores impedisse o efeito do hormônio.

Em outro experimento, os cientistas usaram um truque genético para induzir o aumento do NkB artificialmente, sem expor os animais à solidão. Esses animais, mesmo convivendo com outros animais, mostraram os sintomas da solidão, comprovando que esse hormônio faz parte do mecanismo que provoca os efeitos da solidão. Finalmente os cientistas conseguiram aumentar ou diminuir a quantidade de NkB em regiões específicas do cérebro e assim puderam descobrir que em uma região especifica do cérebro o hormônio aumenta a agressividade e em outra o medo de sombras.

Esses experimentos demonstram que o NkB está envolvido com o aparecimento dos sintomas causados pela solidão em camundongos. 

Como esse mesmo hormônio e o receptor existem em seres humanos, é bem provável que, quando esses experimentos forem repetidos em pessoas, os mesmos resultados sejam obtidos. 

Apesar de agora conhecermos uma molécula que provoca os sintomas da solidão, ainda não sabemos como a solidão provoca o aumento dessa molécula no cérebro. Será que é a falta de interação física que provoca a solidão, será a falta de estímulos visuais ou olfativos, ou o aumento do NkB advém de uma combinação desses fatores?

Esses experimentos também sugerem que o Osanetant pode se tornar um medicamento capaz de fazer desaparecer os sintomas da solidão. Mas será que a existência dessa droga é uma boa noticia para os solitários do mundo? 

Não seria melhor curar a solidão interagindo com os amigos, a família e outras pessoas do convívio social? A solidão é um problema criado pela sociedade moderna. Será que ele deve ser resolvido com uma nova droga ou com uma mudança de comportamento?

MAIS INFORMAÇÕES: : THE NEUROPEPTIDE TAC2 CONTROLS A DISTRIBUTED BRAIN STATE INDUCED BY CHRONIC SOCIAL ISOLATION STRESS. CELL, VOL.173 PAG.1265 (2018)

*É BIÓLOGO

Mais conteúdo sobre:
ciênciadepressãohormônio

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.