Ibama cria núcleo para manejo de plantas medicinais

Toda feira livre ou mercado, no Brasil, tem pelo menos uma banca de plantas medicinais, onde podem ser compradas raízes, folhas, sementes, cascas ou flores de espécies nativas, usadas como remédios populares. Em alguns casos, desenvolvem-se pesquisas sobre os princípios ativos destas plantas e elas passam a ser vendidas já processadas, como fitoterápicos, com grande aceitação junto ao consumidor brasileiro.A coleta das plantas que abastecem esse mercado, no entanto, nem sempre é feita de acordo com a capacidade de suporte natural dos ecossistemas. E a popularização de um determinado chá ou tratamento fitoterápico frequentemente conduz a uma exploração predatória, colocando algumas espécies em risco de extinção.Para controlar este mercado e propor o manejo sustentável de pelo menos 221 espécies nativas consideradas prioritárias para a conservação, por estarem sob forte pressão, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) cria, nesta terça-feira, seu Núcleo de Plantas Medicinais. E ainda lança o livro Estratégias para Conservação e Manejo de Recursos Genéticos de Plantas Medicinais e Aromáticas, o primeiro relatório sobre o status destas espécies, elaborado a partir de um workshop de especialistas do próprio Ibama, da Embrapa e diversas universidades e instituições de pesquisa do país.A estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que este seja um mercado de meio trilhão de dólares no mundo, movimentando, aqui no Brasil, algo em torno de US$ 260 milhões anuais. Trata-se de um mercado em crescimento, também.Em um ano de 1999 para 2000, as vendas de fitoterápicos no país aumentaram 15%, contra 4% dos medicamentos sintéticos. E, nos Estados Unidos, onde os fitoterápicos representam US$ 5,1 bilhões anuais, a expectativa é de duplicar o consumo nos próximos anos.Com um orçamento inicial previsto de R$ 400 mil, o núcleo já está montando um sistema de informações on-line sobre plantas medicinais, de acesso aberto, a ser lançado até abril de 2003. Dentre as 221 espécies prioritárias para a conservação, 92 são consideradas de alta importância e serão as primeiras a ter as regras de manejo estabelecidas. E pelo menos 60 estão na lista oficial de espécies da flora ameaçadas de extinção."Nosso objetivo é agregar conhecimentos, resultados de pesquisas feitas com estas espécies, que estão dispersas pelas universidades e instituições, e direcionar as informações disponíveis para a conservação, seja através de manejo ou proteção em unidades de conservação, que seriam atribuições do Ibama, ou técnicas de conservação ex-situ (fora da área natural de ocorrência), mais ligadas à Embrapa", diz Suelma Ribeiro, responsável pelo núcleo, no Ibama. "A coleta indiscriminada das espécies, com a destruição de muitos habitats, compromete o futuro das espécies, levando muitas ao completo desaparecimento".Entre os casos considerados mais críticos estão Pau-rosa (perfume e cosmético), Aroeira (inflamações), Arnica (cicatrizante), Ipê roxo (câncer), Piqui, Faveiro, Pau-d´óleo, Jatobá, Catuaba (impotência sexual), Sucupira (garganta), Unha-de-gato (hepatite C-virótica) e a Espinheira Santa (úlcera) esta uma planta da Mata Atlântica que vem desaparecendo rapidamente devido à mencionada coleta indiscriminada e à fragmentação dos últimos remanescentes florestais, onde a planta ocorre.Segundo Suelma, a espinheira santa deverá ser a primeira espécie a ser regulamentada, porque os estudos estão mais adiantados.Além de abastecer o mercado interno, muitas espécies são também exportadas. De acordo com o relatório do Ibama, em 1998 foram exportadas oficialmente 2.842 toneladas de plantas medicinais, sendo 1.531 toneladas para os Estados Unidos e 1.466 toneladas para a Alemanha. Os maiores exportadores são Paraná, São Paulo, Bahia, Maranhão, Amazonas, Pará e Mato Grosso.Há uma grande preocupação, ainda, com a biopirataria, razão pela qual o Ibama vem investindo em duas parcerias: uma com o Traffic, um programa da União Mundial para a Conservação da Natureza (UICN) e do World Wildlife Fund (WWF), ligado à Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres (CITES), e outra com o Departamento de Comércio Exterior, para utilizar o Sistema de Registro (Sisreg) e obter nome, endereço e número de registro dos extratores, produtores e comerciantes cadastrados de plantas medicinais.

Agencia Estado,

02 de dezembro de 2002 | 21h26

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