Ibama declara guerra ao tráfico

O grande afluxo de turistas nas praias da Bahia, nos meses de verão, dá oportunidade para os traficantes de animais silvestres, orquídeas e bromélias, de incrementar seu comércio ilegal, na beira das estradas. Por isso o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, Ibama, deflagra, a partir de amanhã (17/1) e até o dia 3 de março, uma operação especial de combate ao tráfico, com a mobilização de 70 agentes e campanha de esclarecimento junto aos potenciais compradores. A campanha procura sensibilizar os turistas, através de cartazes, folhetos e adesivos, a não contribuírem para a degradação do ambiente, na região por eles escolhida para passar as férias. Os slogans usados serão "Não leve a Bahia aos pedaços, leve fotos" ou "Eu não compro animais silvestres", frase usada num adesivo para veículos, que será distribuído nas praias e estradas.Paralelamente à campanha educativa, os fiscais vão montar barreiras fixas e móveis nas BR 101 e 116, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Florestal, para multar e prender quem se arriscar a comercializar animais e plantas ilegais, além de controlar a pesca predatória, incêndios florestais e demais crimes ambientais. A operação contará com o apoio de 15 veículos, barcos, um avião monomotor e um helicóptero. Os compradores flagrados com animais e plantas também podem ser autuados, já que comprar, vender e transportar animais e plantas silvestres sem a devida autorização do Ibama é crime ambiental, com penas que variam de multas a partir de R$ 500,00 por animal apreendido até detenção e apreensão de veículos. Enio Cardoso, do Ibama, lembra ainda, que os animais também podem ser portadores de doenças graves e contaminar principalmente as crianças e outros animais domésticos. Segundo ele, cerca de 20 mil animais são apreendidos todos os anos na Bahia. A maior parte (95%) são aves destinadas ao comércio ilegal nas feiras do Rio de Janeiro e São Paulo, incluindo papagaios e araras, cuja pressão, por excesso de captura, já compromete a sobrevivência de diversas espécies. Os primatas - especialmente micos e sagüis - também são muito visados, assim como jabutis, cobras e lagartos, que atendem ao mercado de colecionadores no Brasil e no exterior. Os animais também são vendidos às margens das rodovias, pela população pobre, que busca uma complementação de renda. O transporte em condições precárias - em sacos plásticos ou dentro de tubos de PVC - e os maus tratos a que os animais são submetidos terminam em morte, numa média de 9 casos fatais para cada animal vivo comercializado. Animais são embriagadosOs vendedores também costumam dar bebidas alcóolicas ou calmantes aos animais, para que pareçam dóceis. Passado o efeito, os compradores descobrem que têm um problema em casa, com o qual nem sempre sabem lidar. Muitas vezes, o mascote acaba "devolvido" à natureza, via de regra no lugar errado. E nestas áreas de soltura, se não morrem de fome ou na competição com os animais residentes, podem espalhar doenças ou parasitas, que antes não existiam no local. Mesmo os animais apreendidos pelos fiscais raramente podem ser devolvidos à natureza, porque é difícil saber exatamente de onde saíram.Além disso, a retirada de animais e plantas das matas, sobretudo em casos como o do litoral baiano, no qual restam muito poucos fragmentos florestais, causa diversos impactos ambientais. Entre os micos e saguis, o mico-de-tufo-branco (Callithrix jaccus) e o mico-estrela (Callithrix jaccus jaccus) são os preferidos dos traficantes. Como são responsáveis pela dispersão de várias espécies de árvores nativas da Mata Atlântica e pelo controle de alguns insetos de que se alimentam, sua ausência costuma contribuir para o empobrecimento da flora, pela falta de renovação natural e, no caso dos insetos, pela eventual proliferação de pragas. O mesmo acontece com pássaros, como o tié-sangue (Rampfhocelus bresilius), também dispersor de árvores frutíferas. No caso dos répteis mais traficados, como o iguana (Iguana iguana) e a jibóia (Boa constrictor), a retirada da mata compromete a cadeia alimentar, provocando tanto a proliferação de suas presas, como o desaparecimento ou migração de seus predadores.Bromélias José Roberto Miranda/CNPM EmbrapaCom as orquídeas e bromélias acontece o mesmo. Cada espécie tem um papel no equilíbrio geral da mata e a retirada de uma orquídea pode comprometer a sobrevivência de seu polinizador, assim como a retirada das bromélias deixa sem abrigo e sem água um número grande de espécies arborícolas, que dependem da planta em seus processos de reprodução ou para se defender dos predadores. Macacos grandes, como o muriqui e o bugio, por exemplo, bebem água das bromélias durante os períodos secos e, sem as plantas, são obrigados a descer ao solo, onde são presas mais fáceis do homem e dos predadores naturais. Várias espécies de pererecas se reproduzem exclusivamente entre as folhas das bromélias e, sem elas, estão condenadas à extinção. Sem contar que, como no caso dos animais, freqüentemente os compradores não sabem como cuidar das plantas silvestres e elas acabam mortas ou no lixo.

Agencia Estado,

16 de janeiro de 2002 | 10h06

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