Ibama investiga mortandade de caranguejos-uçá no Nordeste

No próximo final de semana, a cidade de Canavieiras, no litoral sul da Bahia, deveria realizar seu tradicional Festival Nacional do Caranguejo-Uçá, que costuma reunir turistas e comunidades tradicionais para degustação de pratos variados, feitos com o crustáceo, de ocorrência em todo o litoral nordestino. Mas vai faltar caranguejo. Há cerca de um ano, os caranguejos saem dos diversos trechos de mangue daquela região com dificuldades de locomoção e falta de equilíbrio ao erguer as pinças, o que os faz tombar com o ventre para cima e morrer. Em um levantamento coordenado por Emanoel Roberto Botelho, do Centro de Pesquisa e Extensão Pesqueira do Nordeste (Cepene/Ibama), em janeiro deste ano, foram encontrados 109 caranguejos-uçá mortos em um trecho de apenas 100 metros.?Convocamos para os dias 5 e 6 de setembro, uma primeira reunião de especialistas, de universidades, organizações não governamentais e comunidades tradicionais, para tentar identificar as causas da mortandade e as medidas emergenciais a serem tomadas?, diz José Augusto Tosato, gerente executivo do Ibama em Eunápolis. ?Há quem defenda que este é um problema cíclico, que afeta outras espécies também, mas é precipitado dar qualquer diagnóstico e definir qualquer estratégia antes de examinar melhor a questão, reunindo quem entende do assunto na mesma sala?.?Problema idêntico já afetou os caranguejos do Rio Grande do Norte, há cerca de 6 anos atrás, e a mortandade vem se espalhando do norte para o sul, tendo atingido os manguezais localizados entre os rios Jequitinhonha e Pardo, próximos às cidades de Belmonte, Canavieiras e Una, neste ano, e chegando até Corumbau, no extremo sul da Bahia, na semana passada?, explica Cleide Guirro, do Ibama. ?É como uma onda: o problema afeta mais os caranguejos adultos e, depois de algum tempo, os jovens já estão sadios. A questão é que esta ?onda? não pára, está se dirigindo para a divisa com o Espírito Santo e deve seguir adiante, para o litoral sudeste do país?.Cleide enviou alguns exemplares moribundos para análise ao Grupo de Pesquisa em Biologia de Crustáceos (Crusta), da Universidade Estadual Paulista (Unesp, campus São Vicente). ?Encontramos uma grande concentração de Escherichia coli, bactéria que pode causar diarréias nos consumidores destes caranguejos?, explica o biólogo Marcelo Pinheiro, responsável pelo laudo da Unesp. Segundo ele, a E. coli está presente nas áreas de descarga de esgotos não tratados, onde podem ocorrer eventos de poluição biológica, que diminuem demais o oxigênio dissolvido, causando letargia nos caranguejos do mangue próximo, um dos sintomas observados. ?Mas isso me parece um agravante e não a causa principal, que pode ser uma doença causada por vírus ou protozoário, eventualmente importada com camarões exóticos da espécie Litopenaeus vannamei, criados em fazendas, naquela área e em todo o resto do litoral nordestino?.Outras possíveis causas da mortandade podem ser poluição orgânica, decorrente de descargas de indústrias de celulose, ou química, por metais pesados e derivados de petróleo. Existem fontes locais de ambos os tipos de poluição, porém uma identificação positiva do que realmente está matando os caranguejos só será possível com uma nova coleta, em condições adequadas. ?O problema é que a falta do caranguejo tem grande impacto local, pois existe toda uma economia informal ligada à coleta do caranguejo. Não só os coletores e pescadores ficam sem alimento, como se desarticula boa parte do turismo, desaparecem os consumidores de fim de semana, das barracas de praia, das quais dependem cerca de 5 mil famílias da região?, calcula Sérgio Ramos, gerente executivo do Ibama em Ilhéus. ?E no mangue ou ecossistemas associados também há toda uma cadeia alimentar, que depende do caranguejo, incluindo peixes como o robalo e a carapeba e diversas outras espécies, como o cavalo marinho?.

Agencia Estado,

01 de setembro de 2003 | 18h29

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