Igreja diz que excomunhão de padre não tem relação com defesa de gays

O religioso Francisco Daniel, conhecido como padre Beto, de Bauru (SP), foi banido da Igreja depois de defender os direitos de homossexuais em sermões, entrevistas e vídeos na interntet

Chico Siqueira, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2013 | 15h03

ARAÇATUBA - Um dia depois de excomungar o padre Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, a Igreja Católica tenta desvincular a relação da excomunhão com a defesa que o padre fazia dos direitos dos homossexuais pela internet, em suas entrevistas, nas aulas e nos sermões de suas missas. Em nota distribuída pela assessoria do bispado de Bauru (SP), o juiz-instrutor da excomunhão diz que o ato se deu porque o padre não obedeceu aos seus superiores e insistiu em manter um comportamento em desacordo com as regras do sacerdócio.

Embora o bispo tenha exigido que padre Beto retirasse da internet os vídeos em que ele critica a postura da igreja em relação aos temas sexuais, a nota afirma que o padre não foi excomungado por defender os interesses dos homossexuais porque "isso não é matéria para excomunhão na Igreja". O comunicado diz que a excomunhão ocorreu "(...) de modo automático, em virtude da sua contumácia (obstinação) num comportamento que viola gravemente as obrigações do sacerdócio que ele livremente abraçou".

A nota completa: "a excomunhão foi declarada porque ele se negou categoricamente a cumprir o que prometera em sua ordenação sacerdotal: fidelidade ao Magistério da Igreja e obediência aos seus legítimos pastores", diz o juiz-instrutor, cuja identificação não foi divulgada pela igreja alegando motivos de segurança. O juiz-instrutor é designado pelo Vaticano e foi nomeado para o caso pelo bispo de Bauru, Dom Frei Caetano Ferrari.

Padre Beto reagiu à nota com indignação: "Então um padre pode ser pedófilo que ele não será excomungado só porque obedece aos seus superiores?", questionou. Segundo ele, a nota do juiz-instrutor é "uma artimanha para tirar o foco da questão, pois hoje, em pleno século 21, a sociedade não tolera mais isso, não tolera mais inquisições", diz. Padre Beto também negou a versão dada pelo juiz-instrutor, de que a excomunhão não tem relação com suas declarações em defesa dos gays. "Se fosse realmente isso, o bispo não teria exigido que eu retirasse os vídeos da internet com minhas reflexões sobre o assunto e pedisse perdão".

"Vejo essa carta como um pedido de socorro numa tentativa desesperada da Igreja de tirar foco sobre uma atitude intolerante que eles praticaram contra minha liberdade de reflexão e pensamento", continuou o padre. "Se não queria saber das minhas reflexões, por que a Igreja gastou dinheiro com minha formação, me enviou para estudar e fazer doutorado na Alemanha, na mesma universidade em que estudou o Papa Bento XVI e Frei Leonardo Boff?", comentou.

Segundo o bispado de Bauru, após a excomunhão, declarada pelo juiz-instrutor, o padre enfrentará agora um processo para demissão do estado clerical, quando então não poderá mais ser chamado de padre e ficará impedido do exercício do ministério sacerdotal. Durante o processo, o padre ainda poderá ser chamado para dar esclarecimentos a um juiz-notário nomeado para reunir provas. Por outro lado, se padre Beto demonstrar arrependimento, a Igreja poderá retirar a excomunhão, mas não a demissão. No entanto, não é esta a intenção de Beto. "Não me arrependeria dos meus atos nem que ainda existisse fogueira", afirmou.

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