Igreja incluirá design inteligente em conferência sobre Darwin

Anúncio reverte a decisão do Vaticano de excluir essa discussão da comemoração do aniversário do cientista

AP, Efe e Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

11 Fevereiro 2009 | 15h36

O Vaticano vai incluir a discussão do design inteligente em uma conferência marcando o aniversário de 200 anos de Darwin e de 150 anos da publicação de sua Origem das Espécies, disseram representantes na quarta-feira, 11.    Você acredita que as espécies evoluíram a partir de um ancestral comum?   O anúncio reverte a decisão de excluir essa discussão, mas representantes do Vaticano disseram que o design inteligente seria tratado apenas como um fenômeno cultural - não como ciência ou teologia.   Organizadores não explicaram por que decidiram voltar atrás e incluir a discussão sobre a visão que diz que a vida é muito complexa para ter se desenvolvido apenas pela evolução, e que um poder superior alterou a seleção natural durante as eras.   "O comitê concordou em considerar o design inteligente como um fenômeno de natureza ideológica e cultural, embora digno de uma análise histórica, mas certamente não para ser discutido de maneira cientifica, filosófica ou teológica", disse Saverio Forestiero, da Universidade de Roma.   Fé e ciência   A Santa Sé prepara, para março, uma conferência inédita dentro do Vaticano para debater o darwinismo e chega a indicar que, séculos antes, alguns de seus principais nomes já falavam em teorias similares às de Darwin.   No último século, tanto o papa Pio XII como João Paulo II se manifestaram sobre a evolução. Em sua encíclica "Humani Generis" (1950), Pio XII já dizia que o "magistério da Igreja não proíbe o estudo da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente".   Naqueles tempos, Pio XII insistia em afirmar que "a fé católica manda defender que as almas são criadas imediatamente por Deus".   O pontífice encorajava um confronto "sério, moderado e temperado".   Em 22 de outubro de 1996, João Paulo II fez um grande discurso na Pontifícia Academia das Ciências afirmando que a evolução "já não era uma mera hipótese, mas uma teoria".   Após declarar, como Pio XII, que era importante não perder de vista alguns pontos predeterminados, João Paulo II reconheceu que a convergência dos resultados de trabalhos realizados independentemente nesse campo constituía "um argumento significativo a favor dessa teoria".   O antecessor de Bento XVI declarou que a Igreja estava interessada diretamente na questão da evolução, porque esta influi na concepção do homem, "sobre o qual - disse - a Revelação mostra que foi criado a imagem e semelhança de Deus".   O papa polonês ainda afirmaria anos depois que "não basta a evolução das espécies para explicar a origem do gênero humano, como não basta a casualidade biológica para explicar por si só o nascimento de uma criança".   Segundo documentos da Santa Sé preparados para o evento, Pio XII já havia indicado a teoria como "um válido aspecto científico" sobre o desenvolvimento humano. Em 1996, João Paulo II afirmou que a teoria era "mais que uma hipótese".   Já Bento XVI sempre defendeu a chegada à fé por meio da razão, apoiando o diálogo entre fé e ciência.   Da mesma forma que seus antecessores, o atual pontífice declara que não há oposição entre "a fé da compreensão da criação e a evidência empírica da ciência".   O Vaticano quer superar o enfrentamento em relação à teoria da evolução, principalmente quando sua principal luta hoje é contra a manipulação genética, clonagem e as novas tecnologias desenvolvidas pela ciência para controlar a vida.   O chefe do Conselho de Cultura do Vaticano (espécie de ministro), arcebispo Gianfranco Ravasi, admitiu que a Igreja chegou a ser hostil a Darwin. Mas alerta que ele jamais foi condenado formalmente pela Santa Sé. Ao anunciar o evento que ocorre em Roma em março, e que está sendo considerado como um marco no debate entre religião e ciência, o arcebispo fez questão de indicar que papas e chegaram a aceitar a teoria da evolução no passado.   "O que queremos dizer como evolução é o mundo criado por Deus", afirmou Ravasi, em sua apresentação sobre a conferência. Para ele, a visão cristã da criação e a teoria da evolução podem ser "complementares". A constatação de Darwin de que o homem poderia vir de uma evolução de formas de vida mais simples não condiz com a história contada no livro de Gênesis.   Mas o Vaticano tem uma resposta. Apesar de o homem compartilhar 97% de seus genes com macacos, os 3% restantes é o que distingue a raça humana como "única", inclusive com a existência da fé.   A Santa Sé ainda vai mais longe. Os primeiros sinais do evolucionismo foram identificadas com São Tomás de Aquino e Santo Agostinho na Idade Média. Santo Agostinho teria concluído que "peixes grandes comem peixes pequenos", em um esforço da Igreja de mostrar que aceita o conceito de luta pela sobrevivência das espécies.   Ele também teria indicado que a vida se transforma ao longo do tempo, traduzido isso até mesmo em suas orações.   O Vaticano quer passar a mensagem de que aqueles que defendem o Criacionismo estão se equivocando em rejeitar Darwin como sendo "totalmente incompatível com a visão religiosa da realidade". O Criacionismo entrará em debate na conferência em março, mas não de uma forma científica.   Avaliação objetiva   "Chegou o momento de termos uma avaliação rigorosa e objetiva (das teorias de Darwin)", afirmou Marc Leclerc, professor de filosofia na Universidade Gregoriana em Roma.   Mas nem a Universidade nem o Vaticano organizarão comemorações nesta quinta-feira, 12, aniversário de 200 anos de Darwin, ainda que admitam que o cientista deixou sua marca na história e na forma pela qual o mundo entende a humanidade.   No ano passado, o Papa Bento XVI já deixou claro que Galileu estava correto em suas teorias. Mas o Vaticano cancelou um projeto que tinha, de erguer uma estátua em sua homenagem.

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