Niall Carson/AP
Niall Carson/AP

Igreja irlandesa teve imunidade para esconder abusos sexuais

Relatório do ministério da Justiça revela conivência entre hierarquia eclesiástica e as autoridades do Estado

Efe,

26 Novembro 2009 | 13h35

A Igreja Católica irlandesa teve imunidade durante décadas para esconder os abusos sexuais contra menores cometidos por sacerdotes da arquidiocese de Dublin, revelou nesta quinta-feira, 26, relatório elaborado pela juíza Yvonne Murphy.

 

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A conivência entre a hierarquia eclesiástica e as autoridades do Estado, entre elas a própria Polícia e a Procuradoria, serviu, diz o texto, para encobrir os esforços de quatro bispos de Dublin em manter o prestígio da Igreja, proteger os pedófilos e evitar escândalos. Essas são algumas das conclusões de um documento apresentado pelo ministro da Justiça irlandês, Dermot Ahern.

O texto, de 700 páginas, veio à tona com uma série de cortes para não prejulgar presentes ou futuros casos penais, e foi eliminada qualquer referência aos sacerdotes que enfrentam processos penais, para não influenciá-los, e foram usados pseudônimos para proteger a identidade de outros.

O relatório, resultado de três anos de investigações, afirma que a política e táticas de ocultação da Igreja podem ser resumidas na frase "não pergunte, não fale". "A comissão não tem dúvida alguma que o abuso sexual clerical foi encoberto pela arquidiocese de Dublin e por outras autoridades da Igreja. As estruturas e regras da Igreja Católica facilitaram esse encobrimento", explica o texto.

"As autoridades do Estado facilitaram o encobrimento ao não cumprir suas obrigações e garantir que a lei fosse aplicada a todos por igual, o que permitiu que as instituições da Igreja se mantivessem fora do alcance do processo legislativo normal", acrescentou.

A comissão investigadora da arquidiocese de Dublin examinou as acusações de 450 pessoas apresentadas contra 46 sacerdotes por fatos ocorridos entre 1975 e 2004, assim como a gestão do escândalo por 19 membros da hierarquia católica, entre eles o cardeal Desmond Connell.

 

O cardeal chegou a ir aos tribunais para impedir a entrega de 5 mil documentos arquivados durante seu exercício à frente da arquidiocese, pedido que foi negado. Quando abordou as denúncias de maus-tratos sexuais, Connell estabeleceu em duas ocasiões julgamentos secretos sob os termos da lei canônica, segundo o relatório.

Embora a comissão não tenha encontrado provas da existência de uma rede organizada de pedofilia na arquidiocese, detalhou vários casos tão estarrecedores quanto os do "relatório Ryan", de maio.

Um sacerdote, por exemplo, admitiu ter cometido abusos sexuais contra mais de 100 menores, enquanto outro confessou que, durante o exercício de mais de 25 anos de ministério, abusava de menores a cada "duas semanas".

Em outra instância, o relatório denuncia que a Polícia irlandesa levou 20 anos para apresentar acusações contra um sacerdote.

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