Igualdade social aumenta diferença psicológica entre os sexos

Segundo teoria, traços herdados dos caçadores-coletores afloram a medida que sexos se igualam

John Tierney, The New York Times,

09 de setembro de 2008 | 19h46

Quando homens e mulheres fazem testes de personalidade, alguns dos velhos estereótipos Marte-Vênus continuam reaparecendo. Na média, mulheres são mais cooperativas, cuidadosas e emocionalmente receptivas. Homens tendem a ser mais competitivos, assertivos, imprudentes e emocionalmente indiferentes. Diferenças claras aparecem desde o início da infância, e nunca desaparecem.  O que não está claro é a origem dessas diferenças. Psicólogos evolutivos afirmam que esses são traços inatos, herdados de antigos caçadores-coletores. Outra escola de psicólogos diz que as personalidades de ambos os sexos foram moldadas pelas regras tradicionais da sociedade, e que diferenças de personalidade vão encolher na medida em que mulheres passem menos tempo alimentando crianças e mais tempo trabalhando fora de casa.  Para testar essas hipóteses, uma série de equipes de pesquisadores analisou repetidamente testes de personalidade feitos por homens e mulheres em mais de 60 países. Para os psicólogos evolucionistas, a má notícia é que o tamanho da diferença entre os gêneros varia entre culturas. Par a os psicólogos do papel social, a má notícia é que a variação está indo na direção errada. Parece que as diferenças de personalidade entre homens e mulheres são menores em culturas tradicionais, como a Índia ou o Zimbábue, que na Holanda ou nos Estados Unidos. Um marido e uma dona de casa da sociedade patriarcal de Botsuana parecem ser mais parecidos que um casal que trabalhe na Dinamarca ou na França. Quanto mais eles tenham direitos iguais e trabalhos iguais, mais suas personalidades divergem. Essas descobertas são tão contraintuitivas que alguns pesquisadores argumentaram que aconteceram devido a problemas inter-culturais nos testes de personalidade. No entanto, após analisar novos dados de 40 mil homens e mulheres do mundo todo, David P. Schmitt e seus colegas concluíram que os padrões observados são reais.  Schmitt, psicólogo da Universidade de Bradley e diretor do Projeto Internacional de Descrição Sexual, sugere que por mais que as sociedades acabem com as barreiras externas de diferença entre os sexos, algumas diferenças antigas estão sendo reativadas.  As maiores mudanças constatadas pelos pesquisadores envolvem a personalidade dos homens, e não das mulheres. Homens em sociedades tradicionais e países pobres parecem ser mais cautelosos e ansiosos, menos assertivos e competitivos que homens dos países mais ricos.  Para explicar essas diferenças, Schmitt e seus colegas apontaram as dificuldades da vida em países pobres. Eles lembram que em outras espécies, o estresse ambiental tende a afetar desproporcionalmente os machos, além de mudar características sexuais secundárias (como a plumagem em pássaros). E, eles dizem, há exemplos do estresse mudar características sexuais biológicas em humanos. Por exemplo, a diferença de altura entre homens e mulheres em países pobres não é tão acentuada quanto nos ricos, pois o crescimento dos meninos é afetado por estresses como má nutrição e doenças.  A personalidade é algo mais complicado que a altura, é claro, e Schmitt sugere que seja afetada não somente por estresses físicos como sociais, em sociedades tradicionais. Esses homens tiveram que adaptar suas personalidades a regras, hierarquias e papéis de gênero mais restritivos que aqueles dos países ocidentais. "A busca da humanidade pelo monoteísmo e pela monopolização do poder e dos recursos na mão de poucos é 'antinatural' de muitas maneiras", disse Schmitt, fazendo alusão a evidências de que caçadores-coletores eram igualitários. "De algumas maneiras, as culturas modernas estão retornando, psicologicamente, às suas raízes como caçadores-coletores", argumenta. "Isso significa alta igualdade sociopolítica entre gêneros, mas com homens e mulheres expondo interesses predispostos em domínios diferentes. Tirando o estresse das sociedades tradicionais, elas poderiam permitir que homens deixassem emergir mais sua personalidade natural." Alguns críticos da hipótese questionam se as variantes internacionais não têm mais a ver com a maneira como pessoas de culturas diferente interpretam as perguntas do questionário de personalidade. Os críticos gostariam de ver aferições mais diretas de traços de personalidade, e Schmitt também. Mas ele diz que já há um traço reportado - competitividade - com medida de diretas do desempenho de corredores.  Corridas competitivas são um bom caso de estudo porque ofereceram um plano de igualdade para mulheres nas últimas duas décadas nos Estados Unidos: números semelhantes de homens e mulheres competem em escolas e Universidades, segundo a NCAA. Mas essas mudanças sociais não encolheram as diferenças de gênero entre os corredores analisados por Robert Deaner, da Universidade de Colgate, que classifica corredores como relativamente rápidos se eles se aproximam dos melhores do mundo de seu sexo. Olhando para 40 finalista, Deaner geralmente acha de duas a quatro vezes mais homens relativamente rápidos que mulheres.  Essa grande diferença entre gêneros persistiu por décadas em todos os tipos de corridas e vários outros estudos relataram que homens treinam mais e são mais motivados para a competição, disse Deaner, que conclui que "isso deve ser considerada uma falha genuína para a condição da hipótese sociocultural" de que as diferenças de personalidade vão encolher à medida que as mulheres tiverem papéis semelhantes aos dos homens.  Se ele e Schmitt estiverem certos, então homens e mulheres não devem esperar compreender uns aos outros melhor tão cedo. As coisas podem ficar confusas se as diferenças de personalidade aumentarem na medida em que os sexos se tornam mais iguais. Mas ainda assim, talvez tem sido essa diferença e o mistério que manteve Vênus e Marte por tanto tempo juntos na savana.

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