Impacto ambiental de indústrias ainda é crescente

O descompasso entre os esforços de indústrias e negócios para reduzir seus impactos ambientais e o (mau) estado de conservação do planeta aumentou nos últimos 10 anos, ao invés de diminuir. Esta é uma das principais conclusões de 22 relatórios setoriais concluídos em maio último e apresentados, nesta semana, em Bali, na Indonésia, pela diretora de Tecnologia, Indústria e Economia do Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma), Jacqueline Aloisi de Larderel. Os relatórios traçam um panorama ambiental de várias indústrias e serviços, decorridos 10 anos da Rio92, e deverão servir de subsídio aos negociadores da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10), em agosto próximo. Os documentos foram elaborados em conjunto com 29 associações industriais dos setores de contabilidade, publicidade, alumínio, automotivo, aviação, química, carvão, construção, engenharia, eletricidade, fertilizantes, finanças e seguros, alimentos e bebidas, tecnologia da informação e comunicação, ferro e aço, petróleo e gás, ferroviário, refrigeração, transporte rodoviário, turismo, saneamento e gestão de recursos hídricos. De modo geral, mostram que o gerenciamento ambiental melhorou, resultando, sobretudo, na redução do consumo de energia, na queda das emissões de poluentes e no aumento da eficiência no uso de matérias primas e água. Mas ainda há um grande caminho a percorrer na redução dos impactos das atividades setoriais sobre a biodiversidade e os ecossistemas.?O descompasso deve-se ao fato de que, na maioria dos setores industriais e de negócios, apenas uma pequena parcela das empresas estão integrando preocupações ambientais e sociais nas decisões empresariais?, esclarece Jacqueline. ?E também porque as melhorias tem sido suplantadas pelo crescimento econômico e pelo aumento insustentável do consumo de bens e serviços, que dependem dos recursos naturais e ecossistemas?. O balanço final, em outras palavras, ainda é francamente negativo.Leis e forças sociaisOs principais fatores aos quais são creditadas as alterações positivas na gestão empresarial, tornando-a mais atenta ao meio ambiente, são legislações mais rigorosas e aumento da conscientização do público, com a conseqüente cobrança de posturas mais éticas e menos impactantes dos empresários. A grande mudança, que se destaca na última década, ocorreu nos processos industriais, vistos agora como um todo, com o objetivo de se reduzir a produção de resíduos e adotar tecnologias e procedimentos mais limpos, ao invés de simplesmente controlar as emissões no fim da linha de produção. Algumas convenções internacionais são igualmente citadas, nos relatórios do Pnuma, como fontes de pressão para operar mudanças. Entre elas, destaca-se o Protocolo de Montreal ? que regula a emissão de substâncias prejudiciais à camada de ozônio ? considerado um dos poucos acordos internacionais com resultados concretos.AlumínioUm dos setores destacados pelos relatórios setoriais do Pnuma é o de alumínio. Em 1900, a produção mundial de alumínio era de 1000 toneladas. Em 2000, o total mundial subiu para 32 milhões de toneladas, sendo 24 milhões de alumínio primário e 8 milhões de metal reciclado.Isso torna o alumínio o segundo metal mais usado, sobretudo nas indústrias de transporte (26% do mercado), construção (20%) e embalagens (20%). A maior contribuição do setor para a sustentabilidade global está na redução do peso de veículos e máquinas, resultando na economia de energia. Sua alta durabilidade na construção civil também significa redução do uso de outras matérias primas, como madeira. E ao contribuir para a conservação dos alimentos também ajuda a reduzir - em pelo menos 30% - os desperdícios na indústria de alimentos e bebidas.Os problemas ambientais relacionados a esta indústria estão associados à mineração, que altera profundamente rios, solo e subsolo locais e produz rejeitos tóxicos, como a lama vermelha; emissão de gases (perfluorcarbonos ou PFCs) e alto consumo de energia para beneficiamento do minério primário. A energia gasta corresponde a cerca de 25% do custo total do alumínio. Os maiores avanços na solução destes problemas ambientais, na última década, referem-se às emissões de PFCs. Embora a produção de alumínio tenha crescido 24% nos últimos 10 anos, as emissões foram reduzidas em 39%, segundo estimativas do Pnuma.AutomóveisA indústria automotiva mantém índices crescentes de produção, com vários impactos positivos sobre a distribuição de bens e serviços e grande influência sobre outros setores, mas é, sem dúvida, um dos setores com mais impactos ambientais globais. Entre os 22 setores pesquisados pelo Pnuma, a indústria automotiva lidera em investimentos em pesquisa e desenvolvimento e em produtividade, tendo chegado, nesta década, a alternativas importantes de economia de energia e redução do consumo de combustíveis fósseis, da poluição atmosférica (através de catalizadores, sobretudo) e do consumo de recursos. Também se diminuiu a poluição sonora e o uso de combustíveis com chumbo, um metal pesado tóxico e altamente persistente no meio ambiente. Porém, devido ao aumento de veículos em circulação ? com índices surpreendentes nos países emergentes ? ainda é a maior fonte de poluição urbana e contribui com uma parcela significativa das emissões de carbono, associadas ao efeito estufa.De acordo com o relatório do Pnuma, os motores de 100 novos carros, hoje, emitem a mesma quantidade de poluentes de um único automóvel dos anos 70. E as emissões de veículos pesados foram reduzidas em 10 a 20%, nos últimos 30 anos.QuímicosOs conceitos de produção limpa e/ou responsável e gestão ambiental estão sendo absorvidos, de forma gradativa, pela indústria química. O setor é o que tem unidades mais amplamente distribuídas pelo mundo, com impactos ambientais sérios, sobretudo quanto a poluição do ar, água e solo, relacionados aos resíduos industriais e ao uso ou disposição dos produtos. Por isso, as associações empresariais trabalharam, nesta década, sobre os efeitos da globalização, no incremento da segurança, em capacitação e inovação tecnológica. O resultado é uma adesão significativa das grandes empresas multinacionais ao chamado Responsible Care, conceito que pressupõe a melhoria contínua da performance ambiental e dos padrões de segurança e saúde. Em 1992, 13 grandes empresas iniciaram este movimento, hoje com 46 grandes corporações. De acordo com o relatório setorial do Pnuma, ainda falta concentrar esforços na divulgação de informação ao público sobre os produtos manipulados e seus riscos, bem como generalizar a transferência de tecnologias, sobretudo nos países em desenvolvimento.ConstruçãoO setor de construção chega a mobilizar metade do capital nacional de investimento da maioria dos países, com uma participação média de 10% no Produto Nacional Bruto (PNB ou GNP). Não existem estatísticas muito precisas quanto à força de trabalho, mas o relatório setorial do Pnuma estima que o setor emprega 111 milhões de pessoas em todo mundo, correspondendo a 28% dos empregos industriais. Em muitos países desenvolvidos, o setor mobiliza metade de todas as matérias primas retiradas da crosta terrestre (em peso), produzindo um considerável rastro de resíduos.A reciclagem e reuso de materiais e a substituição dos produtos de alto impacto ambiental, tradicionalmente usados, alivia um pouco a pesada contribuição do setor para a degradação do planeta. Mas a conservação de energia ainda é um grande desafio: na Europa, os ambientes construídos respondem por 40% do consumo total de energia, número que sobe para 50%, se considerada a energia gasta na produção dos materiais empregados. A eficiência energética dos novos prédios melhorou significativamente, porém ainda há muito a ser feito nas edificações já existentes. O aumento da representatividade das reformas e manutenção, no lugar das demolições, é encarado como positivo para o meio ambiente, já que diminui o consumo de recursos naturais e permite a incorporação de novas tecnologias e materiais inteligentes?. Na Europa, as reformas correspondem a um terço do mercado, chegando a 50% em alguns países europeus.Turismo Considerado um dos setores mais promissores para promover o desenvolvimento sustentável de regiões ainda preservadas, o turismo nem sempre está associado ao termo ecológico e pode produzir impactos ambientais importantes. O chamado turismo de massa, na verdade, é um dos principais fatores de perda de biodiversidade e degradação ambiental, sobretudo nas zonas costeiras e nas montanhas. O setor movimenta US$3,3 trilhões por ano e quase 9% do capital total de investimentos.As boas práticas do chamado ecoturismo possibilitam a criação de pequenas empresas, que absorvem mão-de-obra local, contribuem para o alívio da pobreza e, ao mesmo tempo, protegem o meio ambiente. Mas a fragmentação da indústria do turismo e a diluição de responsabilidades entre os setores público e privado podem levar o setor na direção oposta, aumentando seus impactos. A regulamentação das atividades turísticas, com a promoção de códigos de conduta, padrões de gestão ambiental e avaliação adequada da capacidade de suporte de cada destino turístico podem diminuir estes impactos, conforme o Pnuma, desde que implementados por todos.

Agencia Estado,

04 de junho de 2002 | 17h12

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