Impressões fecais

Fernando Reinach, Biólogo

30 Maio 2015 | 03h00

De longe somos todos iguais, de perto completamente diferentes. Essa diferença é interior, temos pensamentos, memórias, opiniões e histórias diferentes. E também exterior, temos cabelos, orelhas e cores diferentes. Não é de se estranhar a obsessão humana em identificar os indivíduos de cada tribo, cidade ou país. Identificando características exteriores podemos associar um indivíduo físico à sua personalidade, desejos e outras características internas.

Em nossos ancestrais provavelmente funcionava assim: Olha o Paulo, macho, agressivo. Da última vez ele me bateu, agora talvez queira roubar minha banana, melhor fugir. Olha a Paula, fêmea atrativa, talvez seja uma oportunidade... Até hoje operamos nossa vida dessa maneira: Toma o telefone do Paulo, é ele que opera o sistema de propina, talvez seja uma oportunidade de garantir um contrato. 

Insetos sociais, como as formigas, não têm métodos para distinguir indivíduos. Somente identificam grupos de indivíduos. Mas em sociedades complexas, como a humana, a identificação de cada pessoa é essencial para o bom andamento das interações.

Primeiro sugiram os nomes. Depois incorporamos documentos com fotografias. Vieram os números associados à fotos e nomes, o que permitiu o uso da computação para identificar indivíduos. Foram descobertas as impressões digitais, únicas em cada indivíduo. Com o correio e o telefone surgiram os cartões de visita com as informações necessárias para contatarmos cada indivíduo. Nas redes sociais, a propagação da individualidade alcançou o planeta. Lá colocamos tudo o que desejamos divulgar, seja verdade ou não. Mas as novas tecnologias também caminharam em direção à precisão. São as imagens da íris, e o sequenciamento de DNA. Esse, além de permitir identificar o indivíduo, traz informações que permitem identificar seus pais, filhos e até netos e sobrinhos. 

Agora surgiu uma novidade. Foi demonstrado que a coleção de bactérias que habita o intestino de cada um de nós é única, o que permite o desenvolvimento das impressões fecais. Dada uma amostra de fezes é possível identificar o indivíduo que a produziu. 

Nosso intestino é habitado por um número enorme de espécies de microrganismos. Existem mais bactérias em nosso intestino que o total de células que compõem nosso corpo. Com o barateamento do sequenciamento de DNA se tornou factível caracterizar as milhares de espécies, cepas e variantes de microrganismos que vivem em nossas fezes. Esses estudos têm permitido aos cientistas descobrir associações entre a flora intestinal e doenças (Novo órgão envolvido no controle da obesidade, O Estado de S. Paulo, 7/9/2013). 

Esse novo experimento utilizou os bancos públicos de microbiomas intestinais (sequências do DNA do intestino de um indivíduo). Muitas vezes, as fezes de uma mesma pessoa haviam sido coletadas e sequenciadas mais de uma vez e, portanto, incorporadas ao banco em diversas ocasiões. Além da doação inicial de fezes, as pessoas haviam doado novas amostras de 3 a 300 dias após a coleta original. Usando somente a sequência de DNA, os cientistas foram capazes de predizer, entre todas as amostras, quais pertenceriam a um mesmo indivíduo. Feita a predição, ela foi comparada com os dados que identificavam os indivíduos que doaram as fezes. Em 84% dos casos, as predições estavam corretas, mostrando que é possível identificar o dono de diferentes amostras de fezes mesmo que elas tenham sido coletadas quase um ano depois da amostra original.

Mas o mais interessante é que nos 16% restantes não existia nenhum falso positivo. Ou seja, o método identifica corretamente o dono das fezes ou não encontra o dono. O método nunca identifica erradamente uma amostra de fezes. Isso significa que, caso a identificação seja possível, a probabilidade de ela estar errada é muito baixa. Esse resultado demonstra que a flora intestinal de cada um é única e constitui mais um método de identificação.

Hoje, na cena do crime, a polícia colhe impressões digitais e analisa manchas de sangue e sêmen. No futuro, veremos valentes membros da polícia científica escarafunchando privadas e cestos de lixo à busca de impressões fecais. 

MAIS INFORMAÇÕES: IDENTIFYING PERSONAL MICROBIOMES USING METAGENOMIC CODES. WWW.PNAS.ORG./CGI/DOI/10.1073/PNAS.1423854112 2015

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