Indefinição sobre transgênicos ameaça pesquisa

A indefinição política em torno da produção de transgênicos representa uma ameaça a um dos principais feitos científicos dos últimos 30 anos no Brasil: a adaptação da soja para o clima tropical, especialmente para o cerrado, obtida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).A polêmica criada sobre a soja transgênica no Sul do País levou a um clima generalizado de insegurança entre os investidores do setor privado, que relutam cada vez mais em financiar projetos de pesquisa agrícola no Brasil, tanto para variedades transgênicas quanto convencionais.O Brasil é hoje o maior exportador de soja do mundo graças ao desenvolvimento tecnológico da lavoura no Centro-Oeste. Originária da China, a soja é uma planta de clima subtropical e temperado, o que limitava as possibilidade de cultivo no Brasil ao extremo Sul."A Embrapa pôs o Brasil no cenário mundial com a tropicalização da soja, um trabalho digno de prêmio Nobel. A produtividade brasileira é motivo de inveja para o mundo", afirma Carlo Lovatelli, presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag) e da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).Graças à adaptação, a soja tornou-se o principal produto agrícola na balança comercial brasileira, com receita cambial estimada em US$ 7,7 bilhões para 2003.A indefinição política, jurídica e social em torno dos transgênicos desde 1998 colocou o trabalho científico numa encruzilhada. O plantio de sementes clandestinas em larga escala no Sul do País pode representar um retrocesso produtivo.A maior parte das sementes transgênicas cultivadas no Sul são contrabandeadas da Argentina, sem classificação, de qualidade duvidosa e mal adaptadas às condições brasileiras de solo e clima. Como resultado, doenças e pragas há muito controladas ou banidas podem ressurgir, além da queda dos índices de produtividade.A indústria de sementes certificadas, com origem identificada e garantia de qualidade, está sendo desmontada, e com ela toda a organização científica montada nos últimos 20 anos e que propiciou recordes de produção."A multiplicação interna de sementes clandestinas é vergonhosa para o País", ressalta Lovatelli, em referência à tese de que as sementes Maradona, como foram apelidadas as variedades argentinas cultivadas no Rio Grande do Sul, não entram em volume necessário no Brasil a cada nova safra, mas são reproduzidas em território nacional."O prejuízo é gigantesco, imensurável", resume Ywao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) e diretor da Fundação Meridional. "Toda e qualquer pesquisa com soja, não apenas com variedades transgênicas, foi paralisada de Santa Catarina para baixo", afirma Miyamoto.Como as pesquisas são financiadas pela iniciativa privada, o trabalho pára quando não há retorno financeiro. "Com o plantio generalizado de sementes clandestinas, sem royalties para as sementes melhoradas, não há como manter a verba para pesquisa", explica o dirigente.Segundo Miyamoto, as fundações vertem R$ 20 milhões por ano para a pesquisa, mas a indefinição política sobre os transgênicos ameaça a continuidade dos investimentos. "Somos parceiros do governo na pesquisa, mas não sabemos mais se devemos continuar."O efeito negativo do plantio clandestino é real, mas ainda pequeno em relação ao tamanho do Brasil, na avaliação do presidente da Embrapa, Clayton Campanhola, nomeado no início do ano com a mudança de governo em Brasília. "O problema existe, mas a pesquisa em si não pára, até porque não fazemos pesquisa de soja só no Sul", afirma.O principal entrave gerado pela indefinição em torno dos transgênicos, segundo Campanhola, é o engessamento da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) quanto à autorização para novos experimentos. A reunião interministerial que seria realizada nesta quinta-feira, em Brasília, para analisar os transgênicos foi adiada.

Agencia Estado,

13 de março de 2003 | 23h03

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