Índios usam Kuarup na defesa de sítios arqueológicos

O Kuarup, homenagem tradicional aos mortos ilustres do Xingu, foi realizado, neste ano, próximo a sítios arqueológicos de grupos humanos que ocuparam a região há cerca de mil anos. Esta foi a forma que os indígenas encontraram para chamar atenção das autoridades e pedir que desautorizem a construção das barragens Paranatinga I e II, no Rio Culuene, cerca de 100 km ao sul do Parque do Xingu.O Kuarup ocorreu na semana passada, na Aldeia Kuikuro de Ipatse, no Estado do Mato Grosso. Um dos líderes kalapalo, Kurikaré, aproveitou apresença no evento do coordenador de Políticas Indígenas de Mato Grosso, José Seixas da Silva, para pedir proteção à área com vestígios de grandes aldeias.Área sagradaSegundo o antropólogo Carlos Fausto, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, os Kalapalo consideram a área sagrada e dizem ser possível demonstrar, por vestígios arqueológicos, que ali viviam seus ancestrais. Eles relacionam esse território às origens históricas do próprio Kuarup.O governo do Estado alega que o projeto é particular e que não pode se envolver na questão. As obras estão atualmente paradas por ordem da Justiça Federal.50 mil pessoasA Aldeia de Ipatse, que hoje tem pouco menos de 500 habitantes, fica próxima do local onde uma equipe liderada pelo americano Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, mapeou nos últimos anos vestígios da presença de uma população superior a 50 mil pessoas - hoje, em todo o parque o número de habitantes é de cerca de 5 mil.Os vestígios indicam a existência no Alto Xingu, no século 14, de aldeias estruturalmente similares às atuais, mas fortificadas com paliçadas e fossos, com até 500 mil m² de área e até 5 mil habitantes.Foram 19 aldeias descobertas com a ajuda dos Kuikuro. As aldeias eramligadas por caminhos de cerca de 5 quilômetros de extensão e até 50 metros de largura.Artigo científicoA descoberta rendeu em 2003 um artigo na Science. Dois dos principais chefes de Ipatse, Afukaká Kuikuro e Urissapá Tabata Kuikuro, assinaram op artigo junto com a equipe do arqueólogo."A gente fez questão de assinar junto. Nós escolhemos os dois chefes como forma de apontar para uma colaboração muito mais ampla da comunidade na pesquisa", explica o antropólogo Carlos Fausto, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele foi um dos integrantes da equipe que fez as descobertas.

Agencia Estado,

29 de agosto de 2005 | 11h38

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