Indústria petrolífera deve investir em compensações ambientais

O risco para os oceanos da exploração de petróleo está presente em todas as fases da produção, desde a prospecção até o transporte. Para o oceanógrafo Fernando Luiz Diehl, diretor do Centro de Educação de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar da Universidade do Vale do Itajaí (CTTMar/Univali), "isso significa que o processo precisa ser bem controlado, para que os impactos sejam imensamente inferiores aos benefícios econômicos, sociais e até de soberania nacional que proporciona ao País", diz.Segundo o especialista, a partir daí, os impactos devem ser mitigados através de um bom gerenciamento, que contemple a prevenção e o atendimento aos acidentes, além de altos investimentos em projetos ambientais compensatórios. "Os momentos de maior risco são os vazamentos no manuseio do petróleo, durante a produção e distribuição. Os grandes derrames sempre vão ter maior impacto ao atingirem a costa, já que 80% da produção biológica dos oceanos está nas áreas costeiras, especialmente nos manguezais."Recifes artificiaisIsso não significa que seja impossível tirar proveito de uma situação adversa, como a presença de uma plataforma de petróleo em alto mar. "Os oceanos são, de certa forma, carentes em nichos ecológicos, que contemplem uma grande diversidade de espécies. Uma plataforma de aço, aparentemente estéril, acaba servindo de substrato para que espécies oportunistas colonizem rapidamente o espaço e propicie um ciclo de ocupação", explica Diehl.O projeto Peixes, desenvolvido pelo CTTMar em parceria com a Petrobrás, na plataforma P14, na divisa entre Paraná e Santa Catarina, entre 1999 e 2001, avaliou esse processo. A plataforma acabou se tornando um recife artificial, com uma grande variedade de organismos, como os corais e peixes, e passou a ser base de alimentação e descanso para espécies como tubarões e atuns, além de grandes mamíferos e aves marinhas. Essa diversidade biológica atraiu para a região a pesca industrial, gerando um novo risco, que é a aproximação excessiva das embarcações da plataforma.Segundo o diretor do CTTMar, a P14 foi desativada e levada para o litoral carioca e atualmente novas pesquisas estão começando na nova plataforma, a SS11, que vai explorar os poços Coral e Estrela-do-mar, também na divisa do Paraná com Santa Catarina. "Esses recifes artificiais são formados também com o afundamento de navios. Um programa da Comunidade Européia deverá afundar cerca de 1800 embarcações pesqueiras nos próximos anos, com o objetivo de minimizar a crise no setor", conta.Além de reduzir o esforço de pesca sobre estoques super-explorados, o programa vai tirar de circulação uma frota obsoleta, que representa mais riscos de poluição, e impulsionar a indústria naval. "Os barcos afundados se tornarão recifes artificiais e também ajudarão a recuperar os estoques", diz Diehl.Aprendendo com errosO gerente de Segurança, Saúde e Meio Ambiente da Petrobrás, Ricardo Santos Azevedo, admite que a exploração de petróleo é uma atividade de risco e que o grande desafio é trabalhar a prevenção e a capacidade de resposta às emergências. "As grandes empresas aprenderam com a história, como o derramamento do Exxon Valdez no Alasca, um caso clássico, ou a Petrobrás com o acidente da Baía de Guanabara . O que mais preocupa são empresas menores. No caso do afundamento do Prestige, na costa espanhola, até agora não se sabe bem quem era o responsável".Azevedo explica que, no caso do Brasil, as maiores riquezas estão no mar. "A Baía de Campos, no Rio de Janeiro, corresponde a 80% da nossa produção. Por isso, temos um trabalho forte de monitoramento tanto em Campos, nos nas baías de Santos e do Espírito Santo, para acompanhar a qualidade da água". Além disso, a empresa investe nas atividades compensatórias, com projetos voltados para os pescadores e para a área ambiental.OceanosNa opinião de Fernando Diehl, questões como a poluição e a super- exploração dos oceanos deveriam ser prioritárias não só para segmentos industriais, mas para o País como um todo. "O oceano carrega o maior patrimônio genético do planeta. Seu espaço tridimensional favorece a diversidade. Enquanto uma floresta equatorial tem entre 50 e 100 metros de altura, no oceano a profundidade chega até a 11 mil metros."Além disso, o oceanógrafo acredita que a capacidade de sobrevivência dessa infinidade de organismo marinhos, em ambientes muitas vezes inóspitos, pode nos dar muitas respostas, como a cura de diversas doenças. Como exemplo, cita espécies que sintetizam oxigênio de gases a base de enxofre, em regiões vulcânicas. "No entanto, temos no Brasil poucos grupos de pesquisas para trabalhar esse banco genético", diz.

Agencia Estado,

21 de maio de 2003 | 12h16

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