Infecção generalizada mata 6 vezes mais que acidentes de trânsito no País

Segundo a Sociedade de Terapia Intensiva do Rio, autora do levantamento, há deficiência no ensino da medicina - terapia intensiva não faz parte do currículo da graduação. Outro estudo indica que só um terço dos médicos sabe reconhecer a doença

Clarissa Thomé / Rio, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2010 | 00h00

No Brasil, mortes por sepse - termo médico para infecção generalizada - superam em seis vezes os óbitos no trânsito. Anualmente, 220 mil pessoas morrem da doença, uma reação exacerbada do organismo à infecção, enquanto acidentes entre veículos mataram 34.597 em 2008, de acordo com a última estatística disponível no Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde.

A comparação entre os dados foi feita pela Sociedade de Terapia Intensiva do Estado do Rio de Janeiro (Sotierj), que pela primeira vez promove um congresso dedicado ao tema. O encontro termina amanhã.

"O assunto preocupa porque há uma deficiência muito grande no ensino da medicina", disse Moyzes Damasceno, coordenador de terapia intensiva do Hospital de Clínicas de Niterói e presidente da Sotierj, que critica a formação oferecida pelas faculdades. "A terapia intensiva, especialidade dos médicos que atuam em UTIs, não faz parte da grade curricular das faculdades de medicina."

Pesquisa do Instituto Latino-Americano da Sepse (Ilas), realizada com 917 médicos de 21 hospitais brasileiros, mostrou que apenas 27% sabem reconhecer a doença, provocada por uma reação do organismo a uma infecção - as toxinas liberadas pelo sistema imunológico para combater bactérias ou vírus são tão potentes que acabam atacando também órgãos vitais como rins, coração, pulmão e cérebro.

Foi o que aconteceu por duas vezes com o mineiro Ricardo Cota do Álamo Júnior, de 12 anos. Ainda recém-nascido, contraiu pneumonia que evoluiu para sepse. "Os médicos demoraram para perceber. Ele teve hemorragia cerebral e depois desenvolveu hidrocefalia", conta a mãe, Adriana Álamo.

No início do ano, Ricardo voltou a ser internado, por complicações provocadas pela hidrocefalia. Contraiu pneumonia e sepse. "Dessa vez era um hospital melhor, com profissionais bem preparados, que agiram prontamente. Ele só está comigo por causa desses médicos".

Desde 2005, o Ilas encabeça no Brasil a campanha mundial Sobrevivendo à Sepse. Faz parte do trabalho arregimentar centros médicos, que têm seus funcionários treinados e passam a abastecer o Ilas com dados sobre a doença. Segundo o último relatório da instituição, de abril, 48,7% dos pacientes com sepse grave e 65,5% dos com choque séptico morrem no Brasil. No mundo, essas taxas estão em 23,9% e 37,4%, respectivamente.

Padronização. "O desafio é padronizar a forma de tratar a sepse", diz Damasceno. O protocolo prevê o tratamento precoce com antibiótico e um conjunto de condutas a ser adotado logo que o paciente é internado - chamado de "pacote seis horas".

"Nesse momento, o médico precisa medir o nível de ácido lático do paciente, que é um indicador de desidratação. Também tem de colher sangue e urina, para a cultura, que vai indicar a bactéria que causou a infecção. E, o mais importante, dar a primeira dose do antibiótico", descreve o médico.

De acordo com dados do Isla, o índice mundial para o tratamento precoce com antibióticos é de 67%, enquanto no País é de 46,5%. A adesão dos hospitais ao "pacote seis horas" é ainda menor - 9% no Brasil e 13% no restante do mundo.

PARA LEMBRAR

Modelo morreu em 20 dias

A modelo Mariana Bridi, de 20 anos, morreu em janeiro do ano passado depois de travar uma batalha dramática contra a sepse. A jovem, que foi duas vezes finalista do Miss Mundo, desenvolveu uma infecção urinária, que evoluiu para choque séptico. Na tentativa de salvá-la, os médicos amputaram as mãos e pés da modelo. Em vão. Ela morreu depois de 20 dias de internação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.