Rogério Soares/A Tribuna
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Inpe lança sistema de previsão de raios

Inédito no mundo, projeto levou cinco anos para ser desenvolvido e permitirá prever ocorrência de raios com 24 horas de antecedência

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 19h56

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS (SP) - A partir do próximo verão, o Brasil terá um sistema inédito de previsão de raios. Lançado ontem, o novo sistema, desenvolvido pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), permitirá prever a incidência de raios com antecedência de 24 horas.

De acordo com o coordenador do Elat, Osmar Pinto Júnior, o Brasil é o país com maior incidência de raios no planeta, com 50 milhões de descargas por ano, 80% delas durante o verão. Em média, os raios matam 110 pessoas por ano no País.

"O sistema permitirá reduzir o número de mortes em acidentes com raios. Mais de 80% desses acidentes poderiam ser evitados. Para isso, é preciso ter um sistema eficiente de previsão de raios e orientar a população para medidas de proteção", disse Pinto Júnior ao Estado.

Segundo o coordenador, embora o sistema envolva uma complexa combinação de observação de satélite, observação de superfície e modelos matemáticos, as previsões serão apresentadas em um formato simples e claro, gerando diariamente um mapa indicando, em todas as regiões do Brasil, as áreas onde haverá maior probabilidade de raios.

"A ideia é que a previsão de raios seja divulgada pela imprensa, como acontece hoje com a previsão do tempo. O sistema não indica a quantidade de descargas, mas aponta diariamente as regiões com potencial de descarga dentro de 24 horas. Isso permitirá que as pessoas se protejam e evitem, nessas regiões, atividades a céu aberto, como alpinismo, ou ir à praia", explicou Pinto Júnior.

Segundo ele, embora as tempestades sempre tenham chuva, nem todas as nuvens de chuva geram raios. "Os raios estão associados a um tipo específico de tempestades. O sistema leva isso em conta e consegue prever onde haverá esse tipo de tempestade e, consequentemente, a incidência de raios", disse. 

Os cientistas do Inpe realizaram pesquisas por cinco anos para criar o novo sistema. De acordo com Pinto Júnior, desde o verão passado ele está sendo testado internamente. Os testes mostraram que o nível de acerto das previsões é de 85%. Em comparação, os sistemas de previsão do tempo utilizados atualmente têm nível de acerto de cerca de 75%, segundo o coordenador.

"A precisão do sistema é da ordem de 10 quilômetros. Isso significa que, de modo geral, teremos uma previsão precisa para cada município. Em uma cidade grande como São Paulo, poderemos mesmo prever a incidência de raios especificamente na Zona Sul, ou na Zona Norte, por exemplo", explicou Pinto Júnior.

Nuvens de tempestade. Para elaborar o novo sistema, os cientistas utilizaram dados de satélites e observações de solo - que também são utilizadas na previsão do tempo -, mas agregaram a isso dados obtidos com modelos matemáticos e ferramentas estatísticas.

"As tempestades em cada região do País têm características muito diferentes. Como vivemos em um país continental, foi preciso estudar as especificidades de cada uma delas para desenvolver o sistema", disse.

De acordo com Pinto Júnior, em outros países há outros centros de pesquisa que estudam raios e estratégias de previsão. Mas o Inpe terá o primeiro sistema operacional de previsão de raios para divulgação ampla. "O desenvolvimento do sistema foi possível graças ao conhecimento. O Inpe estuda raios há 35 anos, o que nos deu essa capacidade", declarou.

Segundo o Elat, o fato de o Brasil ter a maior incidência de raios do mundo tem uma explicação geográfica: é o maior País da chamada zona tropical do planeta, onde o clima é mais quente e, portanto, mais favorável à formação de tempestades.

Um levantamento recente realizado pelo Elat mostrou que o número de vítimas fatais de raios no Brasil é maior que o número de vítimas de enchentes e deslizamentos. De 1991 a 2010, 2640 pessoas morreram atingidas por raios. No mesmo período, 2475 pessoas morreram por causa de enchentes e deslizamentos.

Embora seja o recordista de raios, o Brasil é o sétimo país com mais vítimas fatais. Os raios matam, anualmente, 700 pessoas na China, 450 na Índia, 400 na Nigéria, 220 no México, 150 na África do Sul, 150 na Malásia e 110 no Brasil.

"Esperamos que o novo sistema de previsão permita reduzir as mortes evitáveis em decorrência de descargas elétricas", disse Pinto Júnior. 

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