Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Insignificantes

Felicidade talvez seja criada no cérebro para impedir a morte antes da idade reprodutiva

Fernando Reinach *, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2016 | 03h00

Se tem uma coisa que a ciência faz bem é mostrar que somos menos do que imaginamos ser. Até ontem, acreditávamos que vivíamos no centro do universo, filhos especiais do todo poderoso, capazes de controlar nosso destino.

Bastaram 200 anos de ciência e a Terra, que era o centro do universo, passou a girar em torno do Sol. O Sol, antes tão importante, não é muito diferente de outra estrela. E nossa galáxia não passa de uma entre milhões. Vivemos num cantinho qualquer em um planeta não muito diferente de outros. E pior, temos razões para acreditar que deve existir vida em algum outro lugar.

Removidos do centro do universo sobrou a crença de que somos especiais, conscientes e capazes de controlar nosso destino. Doce ilusão essa, que também tem sido dissolvida aos poucos pela ciência. 

Basta observar outros animais para constatar que não somos únicos. Quatro membros, útero, placenta, glândula mamárias e tudo o mais. Veio Darwin e aprendemos que o processo que nos criou é o mesmo que deu origem a todos os outros seres vivos, nada de especial. Nossa história mostra que surgimos antes de ontem, mais uma espécie na rica história da vida no planeta. Outras espécies semelhantes, como os Neandertais, apareceram e desapareceram, como desapareceu a grande maioria das espécies. Descobrimos que a extinção é a regra, e tudo indica que estamos caminhando nessa direção. Talvez com duvidosa glória de levarmos conosco, para o mundo dos extintos, grande parte da vida no planeta.

E nossa cultura, que parecia ímpar, pode ser encontrada, incipiente, em outros animais. São macacos e pássaros que usam utensílios, se comunicam e transmitem conhecimento para os filhos. Sentimentos de solidariedade e altruísmo, antes tão humanos, vêm sendo descritos em outros animais.

Mas controlamos nosso destino? Talvez, um pouco, mas muito menos do que gostamos de imaginar. Não temos controle sobre onde nascemos, se numa família nababesca na China, entre pigmeus em extinção na África ou numa família de classe média em Calcutá.

Ninguém duvida que isso determina em parte a vida que vamos levar, reduzindo o universo das possibilidades. Tampouco controlamos os genes com os quais fomos contemplados, que apesar de não determinarem nosso destino, também colocam limites nas possibilidades. São doenças a que temos propensão, a cor de nossa pele, nosso sexo e outros limites à nossa liberdade de escolha. Esses genes, junto com o ambiente, determinam em grande parte o que somos.

Além disso, o que aprendemos sobre o mundo que nos cerca é em grande parte limitado pelas características de nosso sistema sensorial e de nosso cérebro. Está fora de nossas possibilidades ver o mundo como um morcego nos movendo guiados pelo eco. Nosso cérebro tem limites de processamento. Não consegue lidar facilmente com mais de duas variáveis de cada vez, privilegia o passado e o futuro recente, reprocessa e modifica as memórias, erra quando pressionado. Temos sentidos que nos enganam. Essas características ajudam nossa sobrevivência, mas limitam nossas possibilidades.

Nossas ações do dia a dia são influenciadas por reações pré-programadas, como a luta ou fuga. Somos guiados por instintos fortíssimos, como a fome, a agressividade, a proteção da prole e a sexualidade. Cada um influencia e limita as escolhas. Grande parte do funcionamento de nosso corpo é controlado pelo cérebro sem nossa interferência. E com Freud descobrimos que parte do que chamamos escolhas é influenciada por crenças e experiências que, enterradas no fundo do nosso inconsciente, dirigem e limitam o que gostaríamos de acreditar que é produto de nosso livre-arbítrio.

E se tudo isso não bastasse, nos últimos anos aprendemos que muitas das decisões que vamos tomar já podem ser detectadas no cérebro milissegundo antes de aparecerem na nossa consciência. Sobra pouco espaço para a chamada liberdade.

Talvez o que realmente nos torne únicos é que temos a ciência, essa forma de conhecer o mundo que destrói ilusões. E apesar de sabermos que somos insignificantes e sem controle, conseguimos, em muitos momentos, ser felizes. E a felicidade talvez seja algo criado em nosso cérebro para impedir a morte antes da idade reprodutiva.

* É BIÓLOGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.