Instinto selvagem

Imagine só: outro dia, quando minha sobrinha Lara era ainda apenas um bebezinho, ela me deu uma bela demonstração de como funciona o instinto humano. Ela estava sentada numa mesa e eu peguei um brinquedinho que estava por perto para brincar com ela.    Era uma lagarta amarela com rodinhas, dessas que você dá corda e ela sai rastejando por aí. Pois bem: quando peguei a lagarta na mão, Lara olhou para ela com curiosidade.   Mas, no momento em que eu dei corda e soltei a lagarta no chão, rastejando na direção dela, ela entrou em pânico. Se jogou para trás, tentando fugir, e começou a chorar imediatamente.   Eu logo a peguei no colo, escondi a lagarta e me perguntei: o que poderia ser tão assustador naquele simpático brinquedinho? De fato, há algumas lagartas peludas por aí que são venenosas e podem causar queimaduras doloridas na pele de quem encostar nelas. Mas a maioria é inofensiva. E seja como for, Lara era apenas um bebê, que nunca tinha visto uma lagarta na vida, muito menos ouvido alguma história traumatizante de alguém que tivesse sido queimado por elas. Por que, então, ela se assustou tanto com o brinquedo?   Minha suposição (e é apenas uma suposição, mas uma que acredito ter certo fundamento) é que aquela foi uma reação instintiva, a manifestação de um instinto evolutivo de sobrevivência impresso de alguma forma em nosso genoma que diz: "evite coisas rastejantes, elas são perigosas!".   Pense bem: ninguém precisa ser ensinado que aranhas, cobras, escorpiões (e lagartas amarelas que rastejam fazendo nheco-nheco) são bichos perigosos. São coisas que tememos por instinto, desde que nascemos. Na verdade, precisamos ser ensinados a não ter medo deles - e não o contrário. À medida que crescemos, aprendemos que algumas espécies são venenosas, outras não, e que não precisamos sair correndo apavorados toda vez que aparece uma aranha na parede ... mas, ainda assim, nossa reação instintiva, por toda a vida, é evitar contato com esse bichos.   Podemos pensar em vários outros exemplos. Um deles: o fato de uma criança, ao nascer, procurar instintivamente o peito da mãe. E assim que você dá o peito, ela sabe exatamente o que fazer. Mas como?? Como é que alguém que acabou de sair de dentro de um útero e que nunca viu nada na vida sabe que precisa de leite e que precisa fazer um movimento de sucção com a boca para tirá-lo do peito da mãe?   Outra coisa: imagine uma cadela labrador que acabou de dar à luz uma ninhada de cachorrinhos. Aí aparece um monte de seres humanos e cada um leva um dos cachorrinhos para casa.   Como é que aquele filhote sabe que ele é um labrador e não um pitbull ou um dálmata? Certamente não foi algo que ele aprendeu com a mãe, pois passou muito pouco tempo com ela. É algo que está impresso no DNA do animal, como um carimbo genético que diz: você deve ser brincalhão, carinhoso, hiperativo, pular como um louco e roer, sempre que possível, a perna da mesa da cozinha. Um filhote labrador vai sempre se comportar como um labrador e nunca como um pitbull, mesmo que ele nunca tenha visto outro labrador na vida!   Uma explicação darwiniana para o instinto é que temos medo de bichos venenosos porque esse foi um comportamento vantajoso para os nossos antepassados, que não tinham casas nem escolas e precisavam sobreviver na natureza como todo mundo. Aqueles que gostavam de brincar com cobras e aranhas provavelmente não deixaram muitos descendentes.   Talvez essa não seja a explicação correta, ou seja apenas parte da explicação. Mas, seja como for, o fato é que muitos dos comportamentos mais básicos da nossa existência não precisam ser ensinados. Nós simplesmente nascemos sabendo. Pense nisso a próxima vez que se assustar com uma lagarta.

05 de fevereiro de 2009 | 15h10

Tudo o que sabemos sobre:
darwinismomedoinstinto

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.