Instituições financeiras discutem riscos ambientais

As instituições financeiras começam a incorporar, mesmo que ainda de maneira pontual, os riscos ambientais como critério de análise de crédito. Além dos benefícios institucionais, as empresas que saíram na frente neste assunto esperam evitar prejuízos futuros, caso os agentes financiadores passem a ser considerados co-responsáveis por danos ambientais, uma tendência nos países desenvolvidos. Essa preocupação foi um dos principais focos do workshop em Administração Ambiental para Instituições Financeiras, realizado pelo programa Eco-Finanças da entidade Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, que terminou hoje, na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo.O evento reuniu representantes de grandes instituições financeiras, como Bradesco, Unibanco, ABN Amro Bank, Itaú, Banco do Brasil, além de empresas de advocacia e consultoria ambiental, para discutir sistemas de administração ambiental e oportunidade de negócios na área ambiental. ?Este ainda é um assunto de vanguarda no setor, bastante conservador, mas algumas coisas avançaram. O maior exemplo brasileiro, e um dos maiores no mundo, é a iniciativa do ABN Real Amro Bank, que é transversal a todos os setores do banco, envolvendo desde o presidente, os públicos interno e externo e a comunidade. Além lançar produtos socioambientais, como linhas de crédito para aquecimento solar de residências, adequação de postos de gasolina e incorporação do risco ambiental na análise de crédito, o ABN realizou treinamento para mais de 1600 funcionários das 850 agências, sobre como questões ambientais e sociais estão relacionadas com a operação do banco?, conta Mário Monzoni, coordenador do Eco-Finanças.Segundo Monzoni, uma empresa que provoque contaminação ambiental pode ter problemas financeiros por conta disso e não conseguir honrar seus compromissos com o banco. ?Além disso, as instituições financeiras podem vir a ser chamadas a pagar a conta do passivo ambiental de um projeto que tenham financiado. No Brasil, ainda não tivemos nenhum caso, mas nos Estados Unidos o governo já obrigou o financiador a bancar a reparação ambiental de empresa que faliu?, disse.Um dos mecanismos para a instituição se precaver e minimizar custos futuros, na opinião de Monzoni, é a consulta pública sobre os empreendimentos. ?Isso não vale apenas para grandes projetos. A construção de um edifício, em uma área onde a vizinhança esteja lutando pelo tombamento de um prédio, já é suficiente até para inviabilizar o empreendimento?, diz.Outro exemplo citado é o Gasoduto Urucu-Porto Velho, projeto da Petrobrás, entre Amazonas e Rondônia, paralisado depois realizar as audiências públicas e obter parecer favorável do Ibama. ?A Justiça obrigou a Petrobrás a complementar o estudo e o relatório de impacto ambiental (EIA-Rima) e, enquanto isso, o projeto não pode ser licenciado?, conta Auriédia Costa, da Pastoral da Terra no Amazonas. Segundo ela, entre os problemas do empreendimento, está a falta de informação das comunidades e das autoridades dos municípios atingidos. ?As pessoas iam às audiências por curiosidade, esperando arrumar emprego na obra, mas saíam logo depois do início da reunião, por conta do horário (sempre tarde da noite) e por não entenderem o que estava sendo discutido. Além disso, problemas resultantes do primeiro gasoduto na região (Urucu-Coari), como a diminuição dos estoques de peixes e o assoreamento de igarapés, não foram considerados. Para os técnicos, todos os impactos desaparecerão depois da obra terminada. Mas como isso pode acontecer, depois que se interferir em culturas centenárias, alterar florestas e aterrar igarapés??, questiona.

Agencia Estado,

04 de junho de 2003 | 16h52

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