Íntegra da entrevista com o Prêmio Nobel Martin Chalfie

Ao lado do japonês Osamu Shimomura e do americano Roger Tsien, Chalfie recebeu ontem o Nobel de química

Camila Viegas-Lee, de O Estado de S. Paulo,

09 de outubro de 2008 | 00h21

Ao lado do japonês Osamu Shimomura e do americano Roger Tsien, Martin Chalfie recebeu ontem o prêmio Nobel de química. Os cientistas desenvolveram ferramentas para iluminar e tornar possível a leitura de proteínas dentro de células vivas.   Essas lanternas minúsculas facilitaram o estudo de diversos eventos que ocorrem nas células e em organismos inteiros - o que até então era impossível - como o desenvolvimento de células nervosas ou a proliferação de células cancerígenas.   Chalfie, em particular, mostrou como o gene da proteína fluorescente poderia ser inserido em qualquer organismo ao apresentá-la ao mesmo tempo que outras proteínas de interesse. Em entrevista exclusiva para o Estado, Chalfie falou sobre a descoberta, o futuro e como é fã de Villa Lobos e Jorge Amado.   Estado: Como foi receber a famosa ligação da Suécia às quatro da manhã?   Martin Chalfie: Eu não ouvi o telefone tocar! O telefone tem tocado muito baixinho em casa e ainda não tive tempo de regular. Acordei às 6h10 e pensei "quem é o schmuck (palavra iídiche que é usada hoje nos EUA para um bobão, babaca) que ganhou o prêmio este ano?". Abri o meu laptop, fui direto no site do prêmio Nobel e ví que um dos schmucks era eu!   Estado: Como se deu a descoberta de como o gene da proteína fluorescente poderia ser inserido em qualquer organismo?   Chalfie: Em 1988 fui a uma palestra do Paul Brehm aqui no meu departamento (Biologia na Columbia University) e ele falou sobre água-vivas e organismos semelhantes que tem uma proteína fluorescente verde. Eu trabalho com um organismo que é transparente e eu percebi, depois dessa palestra, que se nós pudessemos tirar essa proteína (das água-vivas) e colocar nas células poderíamos ver as células acender. Então depois da palestra eu imediatamente tentei descobrir quem estava trabalhando com essa proteína e encontrei um excelente cientista chamado Douglas Prasher.   Ele estava tentando clonar essa proteína. Depois de algumas tentativas, consegui me encontrar com ele e fomos capazes de pegar a proteína que ele clonou e testar se funcionaria na célula. As pessoas na época pensaram que isso não funcionaria assim. Pensavam que se você colocasse nas células, elas não ficariam fluorescentes porque virariam outras coisas mas conseguimos inserí-la do jeito certo e funcionou. Tivemos ajuda de uma ótima estudante de mestrado chamada Ghia Euschirken.   Estado: Uma vez eu ví uma exposição de um artista plástico brasileiro que tinha inserido essa proteína nas células de um coelho...   Chalfie: Sim, o coelho fluorescente verde, do artista Eduardo Kac. Eu ví fotografias do coelho, nunca ví em pessoa. Eu tenho um amigo brasileiro, Arthur Kampela, que me deu aulas de violão e foi ele que me falou do coelho. Parece que existe uma música famosa no Brasil sobre um casal fazendo amor num Volkswagen. A música é do Artur. Eu estudei violão com ele por uns dois ou três anos.   Estado: O senhor sabe tocar alguma música brasileira?   Chalfie: Eu toco algumas, clássicas na maioria. Eu tocava já há muitos anos quanto assisti uma apresentação sobre música brasileira aqui na escola de música, da Columbia. E foi lá que eu conheci o Arthur. Agora eu machuquei as mãos e tive que parar por um tempo. Eu tocava algumas interpretadas pelo Tom Jobim, como À Sombra da Mangueira, do Pernambuco e Villa Lobos. Há uma longa e maravilhosa tradição musical no Brasil.   Estado: Há muitas águas-vivas lá também, o senhor já visitou o Brasil?   Chalfie: Eu não iria ao Brasil pelas águas-vivas (risos). Desde os anos 80, quando eu descobri os livros de Jorge Amado, eu tenho sido um grande fã e lí todos os romances publicados em inglês. Eu adoraria ir para a Bahia.   Estado: O que o prêmio muda de agora em diante?   Chalfie: O dia de hoje está sendo certamente muito diferente. (risos). Mas não sei o que ele vai mudar no resto da minha vida. Eu suspeito que eu receba mais visibilidade, pelo menos por hoje, as pessoas estão falando comigo no corredor e isso é muito legal. O prêmio vai me dar mais oportunidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, não tem havido o apoio científico que o país merece. E agora eu posso adicionar a minha voz a outros vencedores do prêmio pela revigoração das iniciativas da Casa Branca pelas políticas científicas. Nos últimos oito anos, tivemos várias políticas falsas.   Estado: O senhor assistiu ao debate de ontem a noite?   Chalfie: Assisti e de fato uma das primeiras coisas que eu fiz hoje de manhã foi contactar meu amigo Bob Horvitz, que recebeu o prêmio em 2002, para assinar uma carta de apoio ao Obama com outros vencedores do Nobel. Eu quero adicionar meu nome à lista e estou agora no processo de descobrir como fazer isso.   Estado: Muita gente não se dá conta de que o Nobel premia trabalhos realizados há muitos anos. Qual é o foco de sua pesquisa hoje?   Chalfie: Eu publiquei a pesquisa premiada pelo Nobel em 1994. Muitos cientistas continuam usando a descoberta. As perguntas que estou tentando responder hoje não têm nada a ver com a proteína fluorescente. Uma dos projetos que estou feliz em fazer parte é tentar entender como o sentido mecânico funciona. Podemos detectar luz com a visão, químicos com os ouvidos, o palato, o olfato.   Cientistas sabem como a luz e os químicos interagem. Sabemos quais são as moléculas. Mas temos uma série de sentidos que não respondem a químicos ou luz, eles respondem a um pequeno empurrãozinho, como por exemplo, o nosso sentido de toque, de equilíbrio. Quando o médico bate com um martelinho no seu joelho, o que eles estão fazendo é alongar um músculo. E você pode detectar isso.   Todas essas coisas são sentidos feitos de força mecânica. E têm uma outra coisa em comum, especialmente com os humanos. Não temos a menor idéia de como eles funcionam. Não ter a menor idéia de como eles funcionam é uma maravilhosa oportunidade e é isso que estamos pesquisando em meu laboratório por muitos anos. Trabalhamos no sentido do toque numa versão bem pequena, de um milímetro de comprimento. E usamos genética para pesquisar isso.   Estado: Como o senhor vai comemorar hoje a noite?   Chalfie: A Tula e eu vamos dar um jantar para amigos. Tenho uma filha que provavelmente está rodeada de amigos implicando com ela agora na escola.

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