Mia Persson
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Interação de cães com humanos pode ter base genética, diz estudo

Cientistas estudaram o DNA de 190 cães da raça beagle e descobriram cinco genes relacionados a comportamentos como busca de atenção e permanência próxima a humanos; quatro estão ligados ao autismo em humanos

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2016 | 15h54
Atualizado 29 Setembro 2016 | 20h57

O comportamento sociável dos cães em relação aos humanos pode ter base genética, segundo um novo estudo publicado nesta quinta-feira, 29, na revista Scientific Reports, do grupo Nature. Os cientistas da Universidade de Linköping (Suécia) estudaram os genomas de 190 cães da raça beagle e identificaram cinco genes ligados a comportamentos como a busca de atenção e a permanência próxima de indivíduos da espécie humana.

Os cientistas também descobriram que quatro desses genes são ligados, nos humanos, a distúrbios sociais, como o autismo. Segundo os autores do artigo, a descoberta ajudará a desvendar as transformações genéticas que a domesticação provocou no genoma canino nos últimos milênios.

De acordo com um experimento feito pelos cientistas, os beagles que possuem variantes específicas dos genes identificados têm maior tendência a manter proximidade e até a fazer contato físico com humanos desconhecidos. 

Segundo o coordenador do estudo, Per Jensen, os cães foram os primeiros animais a se adaptar à vida entre humanos, há pelo menos 15 mil anos.

“Acreditamos que há variantes genéticas que tendem a tornar os cães mais sociáveis e que essas variantes têm sido selecionadas ao longo do processo de domesticação”, disse Jensen.

O cientista afirma que a maior parte dos estudos genéticos sobre cães usa amostras extraídas de animais de estimação, de animais que vivem nas ruas ou de lobos selvagens. A diferença da nova pesquisa, segundo Jensen, é que sua equipe utilizou no estudo um grupo de 437 beagles nascidos e criados em laboratório. Nenhum dos cães foi treinado previamente para a realização do experimento, de acordo com Jensen. 

Problema insolúvel. Para testar a sociabilidade dos cães, os cientistas deram aos animais a tarefa de resolver um problema sem solução, em uma sala com uma observadora humana desconhecida para os beagles. A tarefa consistia em tentar abrir um dispositivo em cujo interior havia três guloseimas que os cães podiam enxergar e farejar sob tampas deslizantes. Mas uma das tampas foi lacrada e não podia ser aberta.

“Depois de abrir duas das tampas, os cães ficavam muito confiantes de que a tarefa não era difícil, mas aí eles encontravam a terceira tampa e viam que o problema se tornava impossível de resolver”, explicou Jensen. 

Segundo ele, testes feitos anteriormente com lobos mostravam que esses parentes próximos dos cães ficariam tentando resolver o problema por si mesmos. Mas não os beagles: depois de algumas tentativas frustradas, vários deles procuravam o olhar da observadora humana, como se pedissem ajuda.

Alguns dos cães tentavam chamar a atenção da observadora olhando alternadamente para ela e para a tampa travada. Outros faziam contato físico com a mulher, ou ao menos se posicionavam bem perto dela.

Os cientistas então fizeram a análise comparativa dos genomas dos 95 cães que se mostraram mais sociáveis e dos 95 que interagiram menos com a observadora humana. Na análise, eles usaram um método chamado Estudo de Associação Ampla do Genoma, que permite examinar um grande número de variantes de genes. Os resultados mostraram que cinco genes tinham uma clara associação com a maior interação social com humanos.

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