Invasão do Iguaçu gera protestos e indignação

A insistência dos invasores e políticos do oeste paranaense, em reabrir a Estrada do Colono, no Parque Nacional do Iguaçu, contra a legislação em vigor e as reiteradas decisões da Justiça, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF), causou forte reação dos ambientalistas e mesmo de políticos e autoridades governamentais. Na madrugada do último sábado, cerca de 300 pessoas romperam a cerca do parque e reabriram a estrada, passando retroescavadeiras sobre o reflorestamento de nativas, realizado em 2001. A estrada está sendo reaberta à força e à revelia das autoridades, devendo estar em condições de receber tráfego ainda nesta semana.?Minha impressão é que o mesmo setor conservador, que quer os transgênicos e a degradação da natureza, animou-se com o sucesso da política do fato consumado e da desobediência civil, e agora está no Iguaçu, acreditando que pode resolver tudo desta forma?, afirmou o deputado José Sarney Filho, presidente do Partido Verde e ex-ministro do Meio Ambiente. ?O governo deve ser muito duro com os invasores, do contrário vai perder as rédeas da situação?. Juntamente com o deputado Fernando Gabeira (PT-RJ), Sarney Filho organiza uma comissão do Congresso para ir ao Paraná e tentar mediar politicamente o confronto.?Chegamos à conclusão de que isso é sério demais para deixar só com o Meio Ambiente, que no atual governo vem deixando muito a desejar. O Parque Nacional do Iguaçu é responsabilidade do Brasil, é o segundo destino turístico mais visitado por estrangeiros (o primeiro é o Rio de Janeiro), e por isso estamos procurando também as autoridades ligadas ao turismo, para pedir providências concretas?, declara Mário Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica. ?Já provamos que a estrada interessa ao narcotráfico e funciona como massa de manobra em ano eleitoral, já reunimos todo tipo de prova contra este crime e ainda estamos esperando a ação. Só nos resta recorrer ao setor produtivo, para ver se alguma medida efetiva é tomada?. ?É um fato, que vem se repetindo e exige uma medida imediata. Trata-se de um crime bem caracterizado na legislação e não pode ficar desta forma. Se os responsáveis não forem punidos, como criminosos, as invasões vão se repetir e continuar se repetindo?, argumenta Ibsen de Gusmão Câmara, presidente da Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação (Rede Pró-UCs), que representa 23 organizações não governamentais no Brasil e defende a integridade total do Parque Nacional do Iguaçu. Em nota à imprensa, a Rede Pró-UCs reitera, que a criação de uma unidade de conservação implica numa mudança no uso das terras: ?passam a vigorar novas regras de ocupação ou de comportamento, que todos os homens devem, obrigatoriamente, obedecer em proveito de todos e não de alguns. A nossa legislação considera crime tudo que possa trazer danos aos parques nacionais. Estabelecer limitações a esses danos não é solução racional. O Parque Nacional do Iguaçu é patrimônio mundial da humanidade e deve ser mantido íntegro. As únicas ações permitidas devem ser voltadas para sua conservação e qualquer ação contrária a isso deve ser considerada crime previsto na legislação vigente?.?É ultrajante ver que interesses mesquinhos estão acima do bem comum e continuam colocando em risco um Patrimônio da Humanidade. Isso não pode acontecer?, enfatiza Cláudio Pádua, diretor científico do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). Para ele, ?é como se arrancassem a cabeça de um David de Michelângelo, que é um Patrimônio Cultural da Humanidade, para calçar uma rua qualquer?.O governador do Paraná, Roberto Requião, também condenou a invasão, em nota oficial: ?o Governo do Paraná entende as razões, que levam pessoas a tentarem a reabertura da Estrada do Colono. Todavia, entende também que o Parque Nacional do Iguaçu é o último remanescente florestal significativo do Estado e assim deve ser preservado. Portanto, não aceita a desobediência, discorda de qualquer tentativa de reabertura da estrada, bem como trabalha em entendimento com o Governo Federal, a quem compete a responsabilidade sobre a área, para que a saída dos ocupantes venha a ser rápida, pacífica e em bom termo?, diz.Para o secretário paranaense do Meio Ambiente, Luiz Eduardo Cheida, "nenhuma necessidade humana justifica uma nova agressão ao Parque Nacional do Iguaçu, por isso a Secretaria de Estado do Meio Ambiente recomenda que os ocupantes deixem o parque, para que ele continue sendo fundamental ao equilíbrio ambiental da região e do Paraná?.

Agencia Estado,

06 de outubro de 2003 | 17h45

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