Inverno ameno quebra recordes na Europa

Fauna e flora confusa, além de altas temperaturas e sol, marcam o inverno europeu de 2008

AP

04 de março de 2008 | 20h16

Quebradores de gelo ociosos nos portos. Insetos saindo de seus esconderijos na floresta. Plantas surgindo no verde da relva. O inverno terminou antes de ter começado no norte da Europa, onde os recordes de temperaturas altas deixaram as pessoas se perguntando se seria um acontecimento isolado ou uma sinal do aquecimento global. "É o inverno mais quente de que se tem notícia", disse John Ekwall do Instituto de Meteorologia e Hidrologia da Suécia (SMHI). Em dezembro, janeiro e fevereiro, a média de temperatura em Estocolmo foi de 2,2°C - a marca mais alta desde que as medidas começaram a ser contabilizadas em 1756. Temperaturas recordes de inverno foram marcadas em outras 12 localidades no país, de acordo com o SMHI. Do outro lado do mar Báltico, Letônia e a maior parte da Finlândia registraram os invernos mais quentes desde 1925. A Letônia teve uma temperatura média de 1°C, cinco graus acima do normal, de acordo com sua agência nacional de meteorologia. O sul da Finlândia teve apenas 20 dias de neve, compadados aos 70 dias usuais, enquanto a vizinha Estônia teve que cancelar a popular maratona de sky da cidade de Tartu. "Eu não me lembro de um inverno como esse. Tem sido emocionalmente estressante, especialmente para as pessoas mais velhas, porque está escuro e chuvoso todo o tempo", disse Merike Merilain, chefe do instituto meteorológico da Estônia (EMHI). Na Noruega, a temperatura em fevereiro foi a segunda mais alta já registrada, 4,6°C acima do normal. Especialistas são cautelosos e não culpam o aquecimento global, assinalando que um inverno quente pode ser seguido de um frio. O Instituto de Meteorologia finlandês disse que o inverno quente resultou parcialmente de fortes correntes de ar vindas do sul e do oeste, causadas por temperaturas excepcionalmente quentes na superfície do Atlântico. No entanto, as temperaturas da primavera só aumentaram as preocupações sobre a mudança do clima, especialmente na região sensível do Ártico. A mudança enganou a fauna e a flora. Em regiões normalmente cobertas por neve e gelo, as temperaturas semelhantes às da primavera levaram flores a desabrocharem prematuramente. Pássaros migratórios retornaram do sul antes da época usual. Do sul da Suécia, eles nunca saíram, pois não houve qualquer neve.  O tempo quente também alterou a vida dentro das vastas florestas dos países nórdicos e bálticos, onde insetos, como formigas e carrapatos saíram mais cedo de seus abrigos de inverno. Para os negócios, o inverno ameno tem sido uma bênção confusa. Na Lituânia, companhias madeireiras notaram que as estradas estavam intransitáveis devido à lama grossa, ao invés do gelo, mais comum para a época, deixando toras apodrecendo nas florestas escuras. As ferrovias expressas entre Tallinn e Helsinki, entretanto, se beneficiaram muito da falta de gelo no Golfo da Finlândia. Normalmente elas não conseguem operar do final de dezembro até abril, mas esse ano muitas delas operaram sem interrupções.  Por outro lado, para os fãs de esportes de inverno, a estação tem sido um pesadelo. Pequenos resorts de ski perto de Estocolmo nem abriram e entusiastas do ski esperaram em vão pela formação de gelo nas pistas que circundam a capital sueca.  Enquanto o norte da Europa tem estado estranhamente quente, o oeste tem estado ensolarado e seco. O serviço de meteorologia francês, Meteo France, anunciou no relatório preliminar desta sexta-feira, 29, que desde 1950 a França não passava por um inverno tão ensolarado. Em Portugal, as chuvas de setembro a janeiro foram as mais baixas há 91 anos. Ironicamente, agora que a maior parte dos meteorologistas nórdicos concordam que o inverno se tornou primavera, o frio está voltando para algumas áreas. Toda Finlândia banqueou de neve, e previsões dão como certa mais uma semana de tempo de inverno com nevascas fortes e geadas. Essa notícia agradou um grupo de meninos da sexta série viajando de trem para uma temporada de snowboard com sua professora de Helsinki. "Tem sido um longo tempo. É só a segunda vez no ano que conseguimos sair de lá", disse Imo, de 13 anos, que só deu seu primeiro nome. "Esse inverno foi uma droga".

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