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Irlanda denuncia estupros e espancamento em escolas católicas

Relatório oficial sobre internatos católicos confirma denúncias de vítimas, mas não traz nome dos culpados

Associated Press,

20 de maio de 2009 | 14h33

Uma investigação, adiada e debatida por muito tempo, das instituições administradas pela Igreja Católica na Irlanda afirma que padres e freiras aterrorizaram milhares de meninos e meninas em escolas que mais pareciam campos de trabalhos forçados por décadas - e que inspetores governamentais fracassaram em impedir os casos crônicos de espancamento, estupro e humilhação.

 

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Depois de nove anos em elaboração, o relatório divulgado nesta quarta-feira, 20, com 2,6 mil páginas, toma partido, em praticamente todos os casos, dos autores de denúncias de abusos sofridos pelos ex-alunos enviados a mais de 250 internatos católicos.

 

O trabalho conclui que as autoridades eclesiásticas sempre acobertaram os pedófilos, protegendo-os da cadeia para proteger suas próprias reputações e, segundo documentos levantados no Vaticano, sabiam que muitos dos pedófilos eram criminosos em série.

 

A comissão responsável pelo texto diz que um número esmagador de testemunhos consistentes, de homens e mulheres que agora têm de 50 a 80 anos, demonstra, além de qualquer dúvida, que o sistema como um todo tratava as crianças mais como presidiários do que como seres humanos dotados de direitos e potencial.

 

"Um clima de medo, criado por punições generalizadas, excessivas e arbitrárias, permeou a maioria das instituições e todas as destinadas a garotos. Crianças viviam com o terror cotidiano de não saber da onde viria a próxima pancada", diz o relatório final da Comissão de Inquérito sobre abuso Infantil da Irlanda.

 

Mais de 300 mil crianças consideradas ladras, arruaceiras ou de "famílias disfuncionais" - uma categoria que frequentemente incluía mães solteiras - foram enviadas à austera rede irlandesa de escolas industriais, reformatórios, orfanatos e hospedarias dos anos 30 até a desativação da última instalação administrada pela Igreja, na década de 1990.

 

O relatório, divulgado pelo juiz Sean Ryan, determinou que estupro e molestação eram "endêmicos" nas instituições para meninos, principalmente nas administradas pela ordem dos Irmãos Cristãos.  As meninas, supervisionadas pelas Irmãs de Misericórdia, principalmente, sofriam muito menos abuso sexual, mas eram vítimas de humilhações constantes.

 

Vítimas do sistema vinham exigindo há tempos que a verdade sobre suas experiências visse a público, mas a maioria dos líderes religiosos vinham repudiando as alegações como exageros e mentiras, e testemunharam perante a comissão que quaisquer abusos foram culpa de pessoas mortas há muitos anos.

 

As descobertas da comissão não servirão de base para ações judiciais. Em 2004, os Irmãos Cristãos processaram a comissão de inquérito e conseguiram que os nomes de seus membros não fossem incluídos. Não há nenhum nome real - seja de vítima ou criminoso - no documento.

 

Autoridades da Igreja Católica irlandesa preferiram não comentar o relatório antes de lê-lo em detalhes.

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