Isaias Raw defende crítica a coleção do Butantã; pesquisadores reagem

Ex-diretor do Butantã reforça sua posição, mas outros cientistas defendem trabalho

Fabiane Leite e Alexandre Gonçalves, de O Estado de S. Paulo

20 Maio 2010 | 20h13

Pesquisadores, comunidades científicas e o próprio diretor do Instituto Butantã, Otávio Mercadante, reagiram às declarações do ex-presidente da Fundação Butantã, Isaías Raw.

 

O pesquisador afirmou, em entrevista ao Estado, que cabe aos pesquisadores do instituto buscar apoio em agências de fomento à ciência. “Se não conseguir, é porque não tem competência”, disse Raw. Também relativizou o papel das coleções. “Se a população não é atendida com vacina e soro, não é para juntar cobra para brincar no laboratório.”

 

Em nova manifestação, por carta, voltou a defender a missão de saúde pública do instituto e a criticar os responsáveis pela coleção de cobras e aracnídeos.

 

A Sociedade Brasileira de Zoologia divulgou carta em que “repudia integralmente a manifestação pública” de Raw “sobre a inutilidade das coleções”.

 

Leia, abaixo, a íntegra das cartas de Raw e de seus críticos:

 

De: Prof. Isaias Raw

Para: Folha de S.Paulo e Estado de São Paulo

Data 19-5-2010

 

Assunto: O incêndio no Butantan

 

 Lamento que tenho que restringir minhas declarações a um texto escrito. Repete-se 1969 quando perseguido pela Ditadura e seus aliados, o prestigioso New York Times pediu uma entrevista.  Informei que minha família ainda estava no Brasil e só daria declarações se o texto me fosse submetido.  O texto submetido não foi o que apareceu no Jornal!  Defendo a liberdade da imprensa, que deve ser responsável.

 

Disse  ao inexperiente repórter, que como foi determinado  que as declarações seriam do Diretor do Butantan e  que aguardasse um texto escrito. Não foi o que ocorreu!  Tenho portanto direito à resposta!

 

1. Como Diretor do Instituto, eu já havia advertido os responsáveis pelo acervo de Coleções de Animais Peçonhentos, que  o  álcool usado para conservar estes animais, evaporava criando um ambiente  com vapores, que certamente um dia levaria a um incêndio de altas proporções.  Bastaria substituir o álcool por  glicerina (outro álcool, mais seguro).   Os pesquisadores e a Engenharia do Instituto recusaram-se a tomar conhecimento da advertência e ao receber os recursos da FAPESP para aumentar o patrimônio, nada fizeram para prevenir a anunciada catástrofe.

 

2. A coleção de cobras, algumas ainda  colhidas por Vital Brazil,  tinham  um valor sentimental e histórico.  Todos lamentamos, mas o real patrimônio deixado por Vital Brazil não foi a coleção de cobras, mas descobrir como produzir soros!  Vital Brazil iniciou produzindo soro contra peste bubônica, que permitiu reabrir os portos do Brasil, onde nenhum navio chegava!   Como médico, criou um Instituto que tinha como prioridade a saúde pública.   

 

3. Quando cheguei ao Butantan, em 1984, o Instituto só produziu 39.000 ampolas de soro, que testadas pelo INCQS,  foram  recusadas pois eram inativas e contaminadas!  O respeito à herança de Vital Brazil,  era construir uma planta moderna e produzir como estamos fazendo 700.000 ampolas todos os anos.

 

4. O Brasil não produzia as vacinas para proteger as crianças  e tinha uma altíssima mortalidade  infantil, que reduziu-se a um nível mais aceitável com as vacinas que produzimos.  O Butantan, reconhecido internacionalmente,  entregou no ano  passado ao Ministério 204 milhões de doses de vacina que produziu, 95% da produção nacional. Com o aparecimento da gripe aviária, altamente mortal, ficou claro numa reunião que participei na Organização Mundial da Saúde, que as vacinas produzidas nos países mais avançados seriam reservados para sua população.  Produzir vacinas era um problema de segurança nacional!

 

5. Tenho uma longa historia como pesquisador e formador de pesquisadores e professores universitários.  Sempre afirmei nas publicações sobre o Butantan, que Institutos que não tem pesquisa, não logram produzir soros ou vacinas.  Isto não significa que cabe diretamente ao Instituto financiar as pesquisas básicas, porque o pesquisador deve submeter projetos, que outros cientistas, protegidos pelo sigilo, julgam.  Só pode ser financiado pesquisas  que passaram pelo crivo da comunidade cientifica nacional e internacional.  O financiamento sem este crivo leva inexoravelmente a decadência da Instituição,  que encontrei em 1984,  quando o Instituto pediu socorro a uma dezena de professores universitários de alto nível que estavam sendo aposentados. Só é publicado, em revistas internacionais artigos que um comitê de pares analisou.   É isto que deixei como norma durante minha gestão, que contribui para que o Instituto obtivesse auxílios da Fapesp, CNPq e até do exterior, publicando em boas revistas e hoje tem um nível comparado as Universidade publicas do Estado e da Fiocruz. Ao contrario da manchete da Folha, nunca na historia do Instituto, os pesquisadores logram obter tantos recursos para pesquisa cientifica!

 

6. Como diretor  fui buscar recursos para recuperar o Museu Biológico,  um Museu com  uma coleção de cobras vivas, visitadas por meio milhão de crianças e turistas de todo o mundo.  A Dupont contribui com  300.000 dólares.  A população  nada sabia de vacinas e criei o Museu de Micróbios e Vacinas e foi a Aventis que deu outros 300.000 dólares, completado com recursos da Fundação Vitae e da Fundação.   Mais recentemente a Fundação teve que socorrer a construção do novo Laboratório de Farmacologia, que pesquisa venenos,  onde os recursos solicitados a Finep foram gastos,  sem completar a obra.

 

7. O incêndio é o momento de rever a atividade cientifica dos pesquisadores do acervo. Não podemos simplesmente juntar todas cobras que são trazidas.  A produção de soros é feita com venenos de cobras  criadas  em ambiente limpo. Precisamos entrar na era da biologia molecular que já tem 50 anos! Mais importante do que o número de cobras, é manter o DNA que deve ser sequenciado. o  exame dos cromossomos que foi abandonado, e amostras do veneno. Com um projeto moderno haverá auxílios da Fapesp,  CNPq e Finep.    Nada adianta mentir, que a coleção gerou "milhares de teses e trabalhos publicados em revistas importantes", que se fosse verdade, como afirma um artigo publicado na Folha por um pesquisador do Butantan (que se diz também, professor da Unifesp, o que se for verdade deveria ser afastado por ter dois cargos em tempo integral),  o pequeno grupo que se dedica a coleção publicaria mais que todas as Universidades públicas juntas.  

 

8. Ser neto do grande Vital Brazil não dá autoridade para definir o papel do Butantan.  Os recursos que por anos economizei são fundamentais para a população. Iniciamos a produção de vacinas e soros um ano antes que o Ministério da Saúde defina o que precisa e tenha orçamento para encomendar ao Butantan!  Paga no ano seguinte, quanto quer e quando pode!  Somos  a ancora das metas de autossuficiência para soros e vacinas,  promovida pelo Jatene como Ministro, inovação e desenvolvimento tecnológico do atual Ministro.  Para fazer frente a isto, e pagar cerca de quatrocentos funcionários da Divisão de Produção, ao deixa a Presidência  da Fundação, deixei 200 milhões de reais.  Sem a produção do Butantan estaríamos sempre dependentes de empresas internacionais, algumas das quais, por falta de retorno financeiro abandonaram a produção de soros.  Hoje além de fornecer soro antidiftérico para Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, estamos trabalhando para desenvolver soros para o Marrocos  e outros países do Norte da África e para o Madagáscar.  

 

9. Como diretor levantei 300 mil dólares , da  Dupont, para reformar o Museu Biológico, onde ficam cobras vivas e outros 300 mil dólares da Aventis,  que com recursos da Fundação Vitae criou o único museu existente de micróbios e vacinas.  Os dois museus atraem cerca de 500.000 visitantes, na maioria jovens estudantes,  por ano  e oferece kits e laboratórios para os alunos fazerem experiências, que ajudar a formar novos quadros de cientistas.  A Fundação tem arcado com o custo dos monitores e outros materiais para os museus.

 

10. Entre as novas prioridades são as vacinas de dengue que infectou este na 500.000 pessoas, o  rotavírus com uma vacina que cobre todos os 5 tipos de vírus presentes no Pais, o surfactante que evitará pelo menos metade de 150.000 das mortes por bebes sufocados poucos minutos depois do nascimento e a criação de vacinas múltiplas para a maternidade e para crianças, juntando 3 a 7 vacinas diferentes. Certamente Governo, o Ministério da Saúde, as Fundações de Apoio, o BNDES  e a própria população  são capazes de entender a  importância, que não foi refletida nos principais jornais.

* * *

Nós, os pós-graduandos do Museu de Zoologia da USP, expressamos nossa preocupação com a mensagem veiculada pela matéria publicada recentemente na Folha de São Paulo, no Caderno Ciência (19/05). Acreditamos que a matéria deixa a entender que a manutenção de coleções científicas para esse fim seja uma empreitada secundária para o desenvolvimento científico do Brasil. Não, ela não é.

Recente estudo realizado pela Thomson Reuters (empresa que avalia o desenvolvimento científico a nível mundial) revelou que a pesquisa em biodiversidade é um dos pontos fortes da produção científica brasileira, competindo diretamente com outras áreas de pesquisa de ponta. De fato, o Brasil apresenta a maior produção científica em nível mundial sobre fauna neotropical, com a Universidade de São Paulo como líder na área.

 

Essa produção científica é diretamente ou indiretamente dependente de ciências de base, pesquisas estas que só são possíveis pela manutenção de coleções científicas, como as recentemente perdidas pelo Instituto Butantan. Tais coleções alimentavam não apenas a produção dos pesquisadores residentes, mas eram também referência em nível nacional e mundial.

 

Acreditamos que a perda de uma coleção de tal magnitude seja detrimental não apenas para uns poucos pesquisadores, mas sim à sociedade como um todo. Este tipo de desastre não deveria ser menosprezado. Essa foi uma perda indescritível e achamos que as colocações do Dr. Isaías Raw não fazem jus à contribuição do zoólogo para a sociedade. Esperar-se-ia que um ex-presidente de uma importante instituição de pesquisa soubesse do papel que uma coleção de tal porte representa para a produção científica nacional. Infelizmente, este não parece ser o caso do Dr. Isaías Raw.

 

Atenciosamente,

 

Rodrigo Cesar Marques - Representante dos Alunos do MZUSP

de acordo:

Adalberto Cesari - Mastozoologia

Ana Paula Dornelas - Malacologia

André Luis Netto Ferreira - Ictiologia

Cibele Bragagnoto - Aracnologia

Daniel Abbate - Malacologia

Fabio de Andrade Machado - Herpetologia

Felipe Gobbi Grazziotin - Herpetologia

Flavia rodrigues Fernandes - Entomologia

Gabriel Biffi - Entomologia

Grazielle Giacomo - Museologia

Guilherme Ide Marques dos Santos - Ictiologia

Laura Rocha Prado - Entomologia

Lívia Rodrigues Pinheiro - Entomologia

Lucas de Araújo Cezar - Entomologia

Luciane augusto de A. Ferreira - Carcinologia

Matheus Godoi Pires - Herpetologia

Paola Sanchez - Herpetologia

Patricia Oristânio V. Lima - Malacologia

Paulo Miranda Nascimento - Paleontologia

Pedro Hollandra Carvalho - Ictiologia

Ricardo Arturo Guerra Fuentes - Herpetologia

Ricardo Kawada - Entomologia

Rodrigo Brincalepe Salvador - Malacologia

Simeão de Souza Moraes - entomologia

Vanessa Simão do Amaral - Malacologia

Vivian Trevine - Herpetologia

Ricardo Angelim Pires-Domingues - Paleontologia

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Fábio de Andrade Machado

Laboratório de Herpetologia/Morfometria

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A Sociedade Brasileira de Zoologia repudia integralmente a manifestação pública do senhor Isaías Raw, ex-diretor da Fundação Butantan, sobre a inutilidade das coleções científicas.

 

É lamentável encontrar um tamanho desprezo sobre o conhecimento biológico de nosso país, justamente quando o mundo inteiro, no Ano Internacional da Biodiversidade, organiza esforços para conhecer, preservar e divulgar o que resta dos ambientes naturais de nosso planeta. Além de entendermos a natureza que nos cerca, cada vez mais percebemos a importância econômica de fármacos, biomateriais e aplicações na agroindústria, além dos cruciais serviços ambientais prestados, como polinização na agricultura, fornecimento de água limpa e sequestro de carbono na atmosfera. As coleções biológicas foram e continuarão sendo uma ferramenta básica para subsidiar o desenvolvimento de todas as aplicações citadas acima.

 

Causou-nos particular espanto ouvir do próprio ex-administrador de uma organização sua completa falta de familiaridade sobre o que deveria administrar, da forma em que coleções similares são organizadas em todo mundo, e principalmente pelo raciocínio simplista que leva a falsas dicotomias, contrapondo a produção de vacinas para crianças com a manutenção das coleções. É importante salientar que reconhecimento que o Instituto Butantan tem hoje na produção de vacinas é fruto direto da ciência básica realizada através de suas coleções científicas e que possibilitaram a identificação correta das espécies para as quais vacinas e soros são produzidos. A Sociedade Brasileira de Zoologia entende que fomento para pesquisa é solicitado pelo pesquisador, porém a manutenção ou ampliação da infraestrutura é de responsabilidade institucional e de seu administrador.

 

Felizmente, ainda há no Brasil importantes Museus de História Natural que abrigam exemplos das espécies de nosso país, os quais frequentemente encontram-se em estados tão ou mais precários em relação à situação que causou a tragédia no Butantan. Precisamos urgentemente alocar recursos para evitar que tragédias similares causem mais perdas irreparáveis sobre um patrimônio, que é da humanidade. Entendemos que o momento chama por um ambicioso programa interministerial de consolidação dos Museus Brasileiros de História Natural, incluindo as coleções da fauna, flora e micro-organismos, para assegurar que o Brasil continue na liderança da pesquisa sobre a biodiversidade tropical.  

Rodney Ramiro Cavichioli

Presidente da Sociedade Brasileira de Zoologia

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Em reportagem ao Estado de São Paulo o professor Isaias Raw faz insinuações e afirmações nas quais questiona tanto a qualidade de parte dos pesquisadores do Instituto Butantan como da existência da coleção de cobras mortas em tal instituição. É triste ouvir, de um ícone da ciência brasileira, afirmação tão leviana, em um momento tão dolorido para pesquisa brasileira, a qual ele mesmo ajudou a construir.

Em primeiro lugar é preciso esclarecer que nos últimos anos dezenas de projetos, entre auxílios a pesquisa e bolsas a alunos, foram concedidos pela Fapesp a esses pesquisadores para trabalharem com serpentes e aranhas das coleções do instituto. Mais de 300 trabalhos em revistas internacionais de impacto foram produzidos somente nos últimos cinco anos por tais pesquisadores.

 

A competência de muitos desses pesquisadores pode ser constatada não só pelo fomento obtido, quantidade e qualidade de suas publicações, mas também pela concessão de bolsas de produtividade em pesquisa concedidas pelo CNPq. O Instituto Butantan é um órgão da Secretaria Estadual da Saúde e entre as suas atribuições está a produção de soros e vacinas. Essa não é a única atribuição nobre do Instituto que visa a beneficiar a saúde de milhões de brasileiros.

 

Diversos de seus pesquisadores estudam toxinas de serpentes, aranhas e outros animais venenosos. Dezenas de artigos são publicados anualmente por tais pesquisadores. Muitos desses trabalhos permitem reconhecer o modo de atuação dessas toxinas sobre organismo humano. Após muitos estudos e dedicação desses pesquisadores podemos hoje reconhecer toxinas com propriedades anestésicas, anticoagulantes e anti-hipertensivas. O reconhecimento de moléculas com essas propriedades farmacológicas podem permitir a elaboração de sua síntese e produção de remédios.

 

Um dos exemplos de toxina animal que "se transformou" em remédio nas estantes da farmácia é o anti-hipertensivo captopril. A molécula sintetizada para tal medicamento foi descoberta a partir do veneno da jararaca (Bothrops jararaca) que ocorre na Mata Atlântica. Quantos brasileiros se beneficiam e prolongam suas vidas pelo uso desse medicamento? Pesquisadores do Instituto Butantan descobriram recentemente mais de 10 toxinas com potencial para se transformarem em medicamentos. E o que o monte de cobras mortas e aranhas dizimadas pelo incêndio têm a ver com isso? Nos últimos 20 anos, mais de 30 espécies de cobras foram descritas graças à coleção de serpentes do Butantan (além de mais de 1.000 aranhas na coleção de artrópodes).

 

Nesse período, mais de 100 trabalhos descreveram a ecologia dessas cobras. Entre as espécies recentemente descobertas esta a jararaca endêmica da Ilha dos Alcatrazes (Bothrops alcatraz), situada a 34 km da costa de São Paulo. Essa ilha não possui ratos, principal alimento da jararaca do continente. Assim, essa serpente teve que se adaptar a essa nova situação e passou a comer centopeias. Estudos preliminares indicam que seu veneno é distinto, provavelmente uma adaptação ao seu novo alimento. Esse veneno possui proteínas não encontradas na jararaca do continente. Que propriedades farmacológicas podem existir nas moléculas dessas proteínas? Poderão novos medicamentos surgir depois de seu veneno ser estudado?

 

Outro estudo recente feito nessas coleções incineradas revelou que uma pequena cobrinha (Pseudablabes agassizii) se alimenta de aranhas, ao contrário de suas parentes próximas, que comem vertebrados. A dieta desse animal é um indicativo importante para outros pesquisadores que estudam toxinas. Que moléculas a evolução pode ter construído para uma cobra subjugar uma presa tão específica?

 

O fato de comer um invertebrado é um indicativo que toxinas diferentes e moléculas desconhecidas da ciência existem nesse veneno. Além de descrever a dieta dessa cobra os pesquisadores, em estudos de campo, verificaram que tal espécie era encontrada em áreas campestres do Cerrado brasileiro. Dados dos exemplares dessa espécie preservados na coleção possibilitaram confirmar que a espécie ocorre exclusivamente em áreas campestres do Cerrado. Essas áreas estão extremamente reduzidas e fragmentadas no Estado de São Paulo, e essas espécie certamente está condenada à extinção, caso esse habitat não seja preservado. Essa informação possibilitou incluir a serpente na lista oficial da fauna ameaçada de extinção do Estado de São Paulo.

 

Do mesmo modo, os dados de cobras mortas da coleção possibilitaram reconhecer que 18 espécies de serpentes estão ameaçadas de extinção no Estado de São Paulo. O reconhecimento de espécies ameaçadas e de seus hábitats são imprescindíveis para subsidiar o poder público em suas políticas de conservação.

 

Neste ano, o Estado de São Paulo criou 4 novas Unidades de Conservação (UC) - 2 Parques Estaduais, um Monumento Natural e uma Florestal Estadual.  Essas áreas foram indicadas pelo mapeamento para criação de UC elaborado pelo projeto Biota da Fapesp. As informações oriundas das cobras mortas da coleção do Butantan contribuíram para tal mapeamento. Deste modo, as cobras mortas da coleção do Butantan estão efetivamente auxiliando a conservar parte de nossa biodiversidade. A manutenção da Biodiversidade é inquestionável por uma série de motivos que inclui o ético e social, mas sob a ótica utilitária significa preservar moléculas desconhecidas com potencial de uso farmacológico dentro das cobras, sapos, peixes, aranhas, insetos, plantas e vários outros organismos.

 

Coleções zoológicas e botânicas constituem o estágio embrionário para desvendar essas moléculas e reconhecer aquelas que vão beneficiar o próprio homem. Coleções zoológicas e botânicas são as ferramentas básicas para auxiliar a preservar essas moléculas para as próximas gerações. Como disse recentemente um nobre pesquisador do Instituto Butantan "Inovação é uma história contada no futuro". Não obstante a imensa contribuição do professor Raw para ciência brasileira ele está atropelando parte dessa história.

 

      Otavio A. V. Marques

   Diretor do Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan

 

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