Já são 76 as crianças contaminadas por chumbo em Bauru

O Instituto Adolfo Lutz confirmou a contaminação, por chumbo no sangue, de mais 50 crianças residentes no entorno da unidade metalúrgica da Indústria de Acumuladores Ajax. De um lote de 79 amostras, 50 foram dadas como positivas, pois apresentam índice de chumbo superior a 10 microgramas por decilitro, o máximo admitido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).Exames anteriores já haviam detectado o problema em outras 26 crianças. A Divisão Regional da Saúde aguarda novos resultados para os próximos dias e continua coletando sangue de crianças com até 12 anos, moradoras num raio de até um quilômetro da indústria. A unidade metalúrgica da Ajax, que emprega aproximadamente 100 trabalhadores, está interditada desde o final de janeiro, por ordem da Cetesb, que relacionou 28 itens a serem cumpridos pela empresa para se enquadrar nas normas ambientais. No início do mês, o juiz Artur de Paula Gonçalves, da 4ª Vara Cível de Bauru, expediu liminar numa ação civil pública proposta pelo Instituto Ambiental Vidágua, que obriga a empresa a custear todas as despesas de monitoramento da poluição e suas causas, além de tornar indisponíveis os bens da empresa e de seus sócios, com a finalidade de garantir o cumprimento da ordem. Na última segunda-feira, houve uma manifestação de empregados e familiares, na porta da Câmara Municipal, durante a realização da sessão. Aproximadamente 600 pessoas gritaram palavras de ordem pela manutenção dos empregos. O ato levou os vereadores a marcarem uma audiência pública para amanhã, às 14 horas. Foram convidados representantes da empresa, dos empregados, Cetesb, Ministério Público Estadual, Ministério Público do Trabalho, Saúde Pública e outros interessados no assunto. Em comunicados divulgados pela imprensa local, a empresa afirma já ter cumprido as exigências técnicas para poder voltar a trabalhar na área interditada. Mas Rogério Chini, gerente da agência da Cetesb em Bauru, diz que não: "A empresa apresentou apenas alguns croquis, e não os projetos que permitirão à equipe técnica da Cetesb analisar o caso e dar seu parecer quanto a uma provável desinterdição", afirmou. A Ajax funciona desde 1958. Foi uma empresa de fundo de quintal até 1967, quando mudou-se para o distrito industrial. Possui hoje 1100 empregados, sendo 100 deles no setor de reaproveitamento do chumbo de baterias usadas, que funciona separado da linha de montagem, no quilômetro 112 da rodovia Bauru-Jaú. Ao redor da unidade poluidora existem vários bairros com população superior a 5 mil pessoas, que deverão ser examinadas. VítimaO menino David Marcel de Castro Pereira, de 10 anos, é uma das vítimas da contaminação pelo chumbo expelido pela indústria de baterias. Ele nasceu e morava com a família no Núcleo Habitacional Octávio Rasi, localizado próximo à fonte poluidora, e - segundo a mãe, Elizete Aparecida Pinheiro Pereira - sofreu de uma inexplicável diarréia dos sete meses até os cinco anos de idade. Durante esse tempo, passou pelos diferentes especialistas em pediatria, gastroenterologia, toxicologia, psicologia e psiquiatria, sem conseguir um diagnóstico. Só em 1999, quando amostras do seu sangue foram enviadas a dois centros especializados em toxicologia localizados em Asheville e Chicago (EUA) é que foi constatada a intoxicação por chumbo, urânio, alumínio e cádmio. Além da diarréia, desde cedo o menino apresentou sinais de deficiência mental. Sua fala é normal, mas ele não consegue construir frases e nem entender o que as pessoas lhe dizem. Limita-se a repetir as palavras que ouve, e irrita-se facilmente. Em junho de 2000, por exigência do toxicologista Igor Vassilief, que atendia David, a família mudou-se para o Jardim Flórida, no outro lado da cidade. "O médico disse que se não mudássemos, meu filho morreria", diz Elizete, afirmando que além do menino, ela, o marido e os outros dois filhos sofreram de rinite alérgica enquanto moravam perto da fábrica e agora, distantes há quase dois anos, estão melhores. De posse do diagnóstico, a família ingressou na Justiça pedindo a responsabilização da indústria para que repare os danos causados a David. Mas enquanto não tem o pronunciamento judicial, passa por grandes dificuldades. "Meu filho precisa de cuidados médicos especiais, nossa família não tem condições para pagar e nenhum órgão público nos atende", reclama a mãe.Ele já esteve em duas escolas especiais, foi convidado a retirar-se, e precisa de uma terceira, mas esta é particular. Elizete reclama de dificuldades para encaminhar o atendimento do filho. Lembra que, além dos órgãos públicos da saúde e da educação, também escreveu inúmeras cartas para os programas populares de rádio e televisão, mas não obteve resposta. Sua preocupação maior é que, sem atendimento adequado, o quadro geral do filho venha a agravar-se.

Agencia Estado,

18 de abril de 2002 | 15h01

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