Jacaré pode sair da lista de ameaçados de extinção

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizou hoje, em São Paulo, um workshop para discutir a conservação e o manejo do jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), a espécie mais comum no Estado e entre as de maior valor comercial do País. O evento reuniu especialistas e criadores para buscar a melhor maneira de aliar a conservação da espécie na natureza ao seu aproveitamento econômico.?Quando começamos o trabalho com o jacaré-de-papo-amarelo, no final dos anos 80, acreditava-se que a caça era o maior problema e que por isso estava ameaçado de extinção. No entanto, hoje sabe-se que a espécie é mais abundante do que se pensava e que o principal problema não é a caça, mas a perda de habitat, que torna as populações vulneráveis?, disse o agrônomo Luciano Verdade, do Laboratório de Ecologia Animal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), que desenvolve desde 1988 manejo da espécie em cativeiro e formalizou um convênio de cooperação técnica com o Ibama sobre o assunto.Segundo o especialista, o Ibama está reavaliando a situação dos jacarés e tudo indica que não haverá nenhuma espécie de jacaré brasileiro na nova lista de espécies ameaçadas de extinção, que será concluída no início do próximo ano. ?Provavelmente o jacaré-do-papo-amarelo e o jacaré-açu (Melanosuchus niger), as duas espécies brasileiras atualmente consideradas em extinção pela Convenção Internacional de Espécies Ameaçadas (Cites), deverão mudar para a categoria de vulneráveis?, antecipa Verdade.Para o especialista, depois que o mercado internacional passou a produzir peles de jacaré legais, em países como a Venezuela, a destruição dos ambientes naturais e a contaminação dos rios e várzeas por agrotóxicos passaram a ser as maiores ameaças à espécie. Ao mesmo tempo, ?a legislação restritiva em relação à fauna, fez o País perder oportunidades. Mais flexíveis, os países vizinhos saltaram à frente, impedindo que o uso levasse à preservação do jacaré no Brasil?.Verdade acredita que a criação extensiva de jacarés em regiões como o Pantanal ajudaria a diminuir o avanço do gado na região, mantendo as populações não só de jacarés, mas também de espécies mais ameaçadas, como as onças e os tuiuiús. Em regiões como São Paulo, onde faltam áreas naturais, a alternativa é a criação intensiva, em cativeiro, para produção de carne e couro, mas com uma conexão real com a preservação na natureza. ?A melhor forma de mostrar essa conexão ao mundo é através da certificação de origem?.Através de marcadores moleculares, a Esalq vem trabalhando no mapeamento genético do jacaré-de-papo-amarelo, para conhecer a diversidade genética da espécie e também para montar um sistema de certificação para criadores. Através de levantamentos de campo, foram identificadas populações saudáveis da espécie no Rio Grande do Sul (no banhado do Taim), em São Paulo (Ilha do Cardoso e regiões central e oeste do Estado), no Mato Grosso do Sul, além de populações importantes em Alagoas, Pernambuco, Paraíba e até no subúrbio de Natal, no Rio Grande do Norte. ?No entanto, precisaríamos de instituições locais para termos informações de Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Paraná e Santa Catarina?. Com os dados atuais, estima-se que a população do jacaré-de-papo-amarelo seja de várias dezenas a algumas centenas de milhares, enquanto para o jacaré-açu, existem populações na Amazônia central de alguns milhares, levando a estimativa para uma população total de alguns milhões. ?É o mais preciso que conseguimos ser?, explica. CriadoresSegundo Marilda Corrêa Heck, coordenadora do Núcleo de Fauna do Ibama em São Paulo, existem quatro criadouros de jacarés em São Paulo. ?Quanto mais informações técnicas conseguirmos, mais poderemos gerenciar a atividade e avaliar os projetos de criadores. A idéia, no futuro, é que tenhamos um banco de sangue dos jacarés de criadouros, dos quais faríamos a fiscalização por sorteio. Quando a filiação não bater, teremos o fechamento sumário do estabelecimento?, explica.Desde que iniciou a criação de jacarés, a Esalq produziu cerca de 800 animais, dos quais repassou cerca de 500 para criadores de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Santa Catarina.

Agencia Estado,

22 de outubro de 2002 | 16h53

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