Japonês, suíço e americano ganham Nobel de Química

Investigar a fundo os processos mais delicados da vida sempre foi o objetivo de um químico americano, um engenheiro japonês e um biofísico suíço. O resultado das pesquisas foi, até agora, fundamental e é aplicado em todos os laboratórios do mundo.Por isso, John Fenn, Koichi Tanaka e Kurt Wuthrich são os escolhidos para receber, em 10 de dezembro, o Prêmio Nobel de Química, anunciado nesta quarta-feira pela Academia Real de Ciências da Suécia. O trabalho desses três cientistas constitui a "ciência das proteínas", cujo desenvolvimento permite hoje que se diagnostiquem precocemente a malária ou os cânceres de mama, ovários e próstata.Graças aos seus descobrimentos, os químicos podem conhecer, agora em pouco tempo, a natureza benigna ou maligna das proteínas analisadas em laboratório. Por extensão, essas investigações revolucionaram a compreensão do funcionamento das células, de sua disfunção e a capacidade de atuar sobre esse funcionamento. "O trabalho deles abriu caminho para a descoberta futura da cura do câncer. Sem isso, não haveria medicamentos modernos", afirmou o presidente do Comitê para a Química do Nobel, Bengt Norden.Ao conseguir decifrar a composição e a estrutura de moléculas biológicas intactas - as proteínas -, os pesquisadores contribuíram para a criação desses novos medicamentos, a pesquisa das causas de doenças hereditárias e de substâncias nocivas para o meio ambiente, e seus estudos permitem, teoricamente, que a indústria prepare alimentos livres de substâncias tóxicas ou cancerígenas.E mais: esses cientistas mostram aos seus colegas um caminho que pode ser aplicado na investigação dos genomas. John Fenn, de 85 anos, e Koichi Tanaka, de 43, foram premiados por ter inventado e desenvolvido a espectrometria de massas, um método de análise essencial adotado praticamente em todos os laboratórios de química.Pesquisador da Universidade da Virginia em Richmond (EUA), Fenn criou, em 1988, o método chamado "ionização por eletropulverização", que permite determinar a massa das moléculas a partir da pressão atmosférica. Com os mesmos objetivos, Tanaka, engenheiro de pesquisa e desenvolvimento da empresa de equipamentos de precisão Shiamdzu, inventou, em 1987, outra técnica - a Soft Laser Desorption (SLD ou desabsorção por laser leve).A amostra analisada é desagregada por um feixe de laser que provoca a liberação das moléculas. Instrumentos de medição que funcionam segundo esses princípios são empregados atualmente de forma padronizada e em grande escala nos laboratórios que se dedicam à pesquisa estrutural.Já Kurt Wuethrich, de 64 anos, professor da Escola Politécnica Federal de Zurique, aperfeiçoou outro método de análise, a ressonância magnética nuclear (NMR, na sigla em inglês), que permite analisar a estrutura tridimensional e a mobilidade das moléculas. Com isso, podem-se "ver" as proteínas e compreender como funcionam nas células.A NMR é extremamente cara e complicada e só dominada em poucos laboratórios. A composição da amostra é revelada num forte campo magnético pela influência de ondas eletromagnéticas. Os dados obtidos mostram quais átomos se encontram na molécula e de que forma estão unidos. Dessa forma, pode-se calcular a forma da proteína e representá-la em três dimensões. Também se revelam as partes que são responsáveis pela função da proteína.Há pouco tempo, Wuethrich demonstrou na revista científica Nature que seu método serve, igualmente, para estruturas macromoleculares. Apesar da importância de suas pesquisas, os três cientistas mostraram-se surpreendidos ao ser informados de que tinham ganhado o Nobel. "Não consigo acreditar que me deram o prêmio, porque não imaginava que tivesse feito um trabalho tão importante", declarou Tanaka, cuja escolha, apenas dois dias depois de outro japonês, Masatoshi Koshiba, ter recebido o Nobel de Física, provocou uma onda de otimismo no país, assolado pela crise econômica."Não deveríamos ser tão pessimistas a respeito das coisas... Esta é a primeira vez que ganhamos dois prêmios de uma vez. Isso significa que podemos ser mais confiantes", disse o primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi. "Estou em estado de choque", revelou, por sua vez, John Fenn. Ele disse que já sabia que seu trabalho de análise de moléculas teria uso prático um dia. "Eu sabia que iria ser útil e popular, mas ficou mais popular do que eu podia imaginar nos meus sonhos da juventude."Já o suíço Kurt Wuthrich expressou "surpresa e felicidade" pelo prêmio e afirmou que ele não poderia ter vindo num momento mais propício. O pesquisador está em via de se aposentar da Escola Politécnica e emigrar para os Estados Unidos, onde deverá construir um laboratório de pesquisa. "O cheque que acompanha o Nobel facilitará essa nova vida", completou ele, que receberá metade do prêmio de US$ 1 milhão. A outra metade será dividida entre Fenn e Tanaka.

Agencia Estado,

09 de outubro de 2002 | 18h59

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