Johannesburgo inicia negociações preliminares para a agenda 21

As negociações preliminares para a conclusão do Plano de Implementação da Agenda 21 começaram no meio da tarde desta sexta-feira em Johannesburgo, em meio aos temores da delegação brasileira de que a ênfase excessiva no tema da pobreza permita desviar a atenção de seu objetivo estratégico principal: aproveitar a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável para avançar nos compromissos firmados na Rio-92.Os negociadores dos países em desenvolvimento e de alguns dos países mais ricos do mundo, formando dois grupos separados, começaram às 15h30 em Johannesburgo (10h30 em Brasília) a discutir os muitos pontos do Plano de Implementação sobre os quais ainda não há acordo. As negociações entre os membros dos blocos precedem a abertura oficial da reunião de cúpula, marcada para segunda-feira, quando chegam os ministros.De um lado, os 133 países em desenvolvimento do G-77, do qual o Brasil desponta como um dos líderes, sobretudo na área ambiental; de outro, o Japão, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, países cujas iniciais formam a sigla Juscanz em inglês.Os delegados continuam reunidos e a previsão é de que atravessem a noite tentando desbastar os 25% do documento de 71 páginas, elaborado na reunião preparatória de Bali, entre maio e junho, que continuam entre colchetes, o que, na gramática da diplomacia, significa que ainda não são objeto de consenso.Um dos temas mais sensíveis são os meios de financiamento das metas estabelecidas pelo plano, sobretudo no que se refere à transferência de recursos dos países ricos aos pobres. Apenas 11% do texto que se refere a financiamento foi fechado em Bali. O Brasil e outros países em desenvolvimento temem que, com isso, a chamada Rio +10 se converta num grande embate a respeito de ajuda financeira.Outro tema que também exigirá muita saliva dos negociadores é o do comércio, do qual apenas 15% foi objeto de acordo em Bali. Aqui, o ponto central é a exigência dos países em desenvolvimento de que os ricos abram os mercados para seus produtos primários. Boa parte desses parágrafos entre colchetes defende o fim dos subsídios agrícolas e das barreiras que protegem os produtos agrícolas, como condição para que os países em desenvolvimento se livrem da pobreza e alcancem o desenvolvimento sustentável.O Brasil joga tudo nesse argumento: se a eliminação da pobreza é um objetivo central desta cúpula, então os países ricos devem começar abrindo seus mercados para os pobres, em vez de simplesmente doar-lhes dinheiro. Os ricos não querem nem uma coisa nem outra.Por fim, o outro nó difícil de desfazer, que está ligado aos outros dois, é a diferença de visões sobre as implicações da globalização. Apenas 7% dos trechos que tocam nesse tema estão fora de colchetes.Os trechos que repetem o princípio das "responsabilidades comuns, mas diferenciadas", consagrado na Rio-92, também são motivos de conflito. Os países ricos querem rever esse princípio, que significa que devem arcar substancialmente com o custo da implementação dos compromissos contidos na Agenda 21, já que são os que mais poluem e os que mais podem pagar. Para o Brasil e seus parceiros, se não for alcançado um consenso que mantenha esse princípio, Johannesburgo terá representado um retrocesso em relação ao Rio.

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