Jornalismo Comunitário transforma comunidades ribeirinhas na Amazônia

Jovens em 32 comunidades atuam em rádios e produções digitais para gerar consciência social

Égon F. Rodrigues,

28 Novembro 2012 | 23h00

 Em uma das transmissões diárias das 22 rádios da Rede Mocoronga, os moradores das comunidades ribeirinhas escutam o locutor: “Alô, repórteres comunitários. Vamos tecer a nossa Rede Mocoronga!”. Começam, então, as transmissões simultâneas das outras estações: “No ar. Rádio Piquiá-Piquiatuba, Rio Tapajós. Rádio Comunitária Uirapuru de Vila Franca, Rio Arapiuns”. Logo após, a vinheta: “Rádio Mocoronga. Um Eco... lógico na Amazônia!”.

Neste momento, ouve-se ao fundo a música criada para a ONG Projeto Saúde & Alegria (PSA). Batizada de Rede Mocoronga de Comunicação Popular, a iniciativa do PSA vem fazendo a diferença há mais de dez anos para 32 comunidades nos municípios de Santarém, Juruti e Belterra, no oeste do Pará. Às margens dos Rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns, cerca de 250 jovens atuam de maneira integrada no campo da cultura digital.

Os adolescentes e jovens são formados como repórteres comunitários em oficinas de educomunicação, nas quais aprendem a produzir programas de rádio, vídeos, blogs e jornais locais. Dentre os trabalhos estão a Rádio Mocoronga, a TV Mocoronga e o jornal O Mocorongo, nomes que remetem à palavra usada pelos indígenas para se referir aos que nascem no município de Santarém, no Pará.

Coordenador de educação do PSA, Fabio Pena ressalta a importância do projeto para que os moradores apresentem a Amazônia e sua identidade cultural.  “A prática da comunicação comunitária pelos jovens desenvolve o aprendizado e os pontos necessários para viver na sociedade da informação de hoje. Eles desenvolvem a leitura e a escrita, e produzem informações e conhecimentos.” Oportunidades de aprendizagem são criadas em comunidades onde metade dos habitantes tem menos de 15 anos.

A ONG Saúde & Alegria surgiu em 1987 com a proposta inicial de desenvolver um projeto de educação e prevenção de doenças em 16 localidades da Amazônia, onde não havia sequer um médico. Hoje, a organização realiza atendimentos médicos e desenvolve cada vez mais uma rede comunitária integrada. Este trabalho beneficia cerca de 30 mil pessoas, envolvendo programas que vão desde saúde, organização social e meio ambiente, a educação, geração de renda, cultura e comunicação.

Os jovens aprendem mais sobre a vida da comunidade por meio das produções que desenvolvem nas sucursais comunitárias. “Essas rádios têm uma função social de difundir a informação local de interesse público para a comunidade”, afirma o professor universitário Alexandre Fillietaz, que trabalha com rádios comunitárias.

Nos últimos anos, pelo menos cinco comunidades começaram a participar da rede. “Existe uma multiplicação horizontal da experiência. Outras comunidades passam a participar, ao verem a comunidade vizinha produzindo. Eles passam a desenvolver a capacidade de produzir conhecimento e conteúdo sobre a Amazônia, a partir de quem vive na lá”, destaca Fabio Pena, coordenador do PSA.

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