Jovem dá voz ao Complexo do Alemão

Estudante que ficou famoso ao narrar a invasão policial pelo Twitter tem trajetória retratada em novela da Globo

Suelem da Silva Oliveira,

28 Novembro 2012 | 23h00

René Silva dos Santos era o retrato social completo do Complexo do Alemão. O jovem de 19 anos é morador do Morro do Adeus – uma das 13 comunidades que fazem parte do Complexo – e foi testemunha da ocupação policial nas favelas em novembro de 2010. “Eram muitos tiros, helicópteros sobrevoando e a gente via e ouvia a polícia invadindo as casas”, relembra René, que ficou famoso ao narrar em tempo real pelo Twitter detalhes da ação.

A história de René, criador do jornal Voz das Comunidades, chamou a atenção do País e está na nova trama da Rede Globo, Salve Jorge. “A novela vai contar o início do jornal e toda a minha trajetória. Para mim, isso é um grande reconhecimento do meu trabalho social”, conta René.

Os meios de comunicação utilizados por René para mostrar os problemas da favela serviram como ponte entre a comunidade e o poder público. “Com o jornal consegui ajudar os moradores. E as pessoas de fora, entendendo a nossa realidade, se interessaram por nós”, declara o jovem.

A iniciativa do estudante é observada pela antropóloga e coordenadora de área do Programa de Gestão Social em Territórios Pacificados do Rio de Janeiro, Anelise Fróes. Ela defende as ações de comunicação que mobilizam a sociedade. “Percebe-se que há dificuldades de comunicação em boa parte das comunidades. Herança de décadas de silêncio, onde “falar” podia ter um preço alto e implicar em determinados riscos e punições”, aponta.

No âmbito governamental, o Estado do Rio de Janeiro decidiu instalar, desde 2008, as Unidades de Polícia Pacificadora, com a proposta de transformar a realidade social nas favelas e garantir o acesso às políticas públicas.

Dados da Secretaria de Estado de Segurança do Rio de Janeiro mostram no período de 2007 a 2012 – que já compreende a pós-pacificação – quedas de até 40% nos indicadores de criminalidade. Os casos de homicídio doloso, por exemplo, passaram de 4.563 para 3.028 em 2012. Na educação, aumentou em 28% o número de alunos matriculados nas escolas públicas estaduais das áreas pacificadas.

Para a antropóloga Anelise Fróes, as UPPs garantem o respeito à individualidade e à liberdade, e promovem um novo ordenamento social. “Entretanto, ocupar favelas com forças policiais não é suficiente para reverter situações de ausência efetiva dos demais serviços públicos. As UPPs não são responsáveis por todas as mudanças que precisam ocorrer nas favelas.”

Segundo Anelise, a comunicação pode ser um instrumento para promover a mudança social e valorizar os moradores das favelas. “As ferramentas de comunicação comunitária servem para quebrar o silêncio, para colocar as pessoas em contato, para divulgar o que acontece nas comunidades, para convocar a mobilização e participação comunitária.”

Como fez o René, que lá no Morro do Adeus, não esperou as UPPs chegarem para mudar a realidade da comunidade. Há oito anos o “Voz das Comunidades” circula como prova de que o acesso à informação contribui como modo de estimular as transformações sociais.

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