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Júpiter pode ter varrido primeiros planetas do Sistema Solar

Estudo indica que planeta gigante se aproximou do Sol, destroçando 'super-Terras' que existiam na atual órbita de Mercúrio 

FÁBIO DE CASTRO, O Estado de S. Paulo

23 Março 2015 | 19h58

Como uma gigantesca bola de demolição, Júpiter pode ter atingido o Sistema Solar, na época de sua formação, destruindo uma primeira geração de planetas, antes de recuar para sua órbita atual. A conclusão é de um novo estudo publicado nesta segunda-feira, 23, na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). De acordo com os autores, a descoberta ajuda a explicar por que o Sistema Solar é tão diferente de centenas de outros sistemas planetários descobertos nos últimos anos.

"Agora que podemos olhar para o nosso próprio Sistema Solar, no contexto de diversos outros sistemas planetários, uma das características mais interessantes é a ausência de planetas entre o Sol e a órbita de Mercúrio. O padrão típico dos sistemas planetários da nossa galáxia parece ser um conjunto de super-Terras com períodos orbitais incrivelmente curtos. Nosso sistema cada vez mais nos parece estranho", disse um dos autores do estudo, o astrofísico Gregory Laughlin, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (Estados Unidos).


Segundo Laughlin, o novo estudo explica não apenas a lacuna no Sistema Solar interior - que compreende Mercúrio, Vênus, a Terra e Marte -, mas também certas características da Terra e de outros planetas rochosos internos, que teriam se formado depois dos planetas externos, a partir de restos de material.

No estudo, os cientistas exploraram as implicações de um novo cenário que explicaria a formação de Júpiter e de Saturno. Nesse cenário, proposto por outro grupo de astrônomos em 2011 e conhecido como "Grand Tack", Júpiter teria primeiro migrado para dentro do sistema, em direção ao Sol, até a formação de Saturno causar a reversão de seu curso, fazendo com que o planeta gigante migrasse para fora até sua posição atual. Os pesquisadores realizaram cálculos complexos para descobrir o que teria acontecido se um conjunto de planetas rochosos com órbitas muito próximas ao Sol tivesse se formado antes da migração de Júpiter para o interior do sistema.

Naquele momento, segundo os cientistas, seria plausível que planetas rochosos com espessas atmosferas tivessem se formado nas proximidades do Sol, a partir de um denso disco de gás e poeira. Esses planetas se encaminhariam para se tornar típicas "super-Terras", como as que existem em vários outros sistemas planetários encontrados pelos astrônomos nos últimos anos. À medida que Júpiter se moveu para dentro, no entanto, perturbações gravitacionais do planeta gigante teriam varrido esses planetas interiores - além de planetóides e asteróides -, fazendo com que eles trançassem suar órbitas, levando a uma série de colisões que teriam feito os planetas nascentes em pedaços.

"É a mesma coisa que tememos que aconteça com os satélites que estão para ser destruídos na órbita baixa da Terra. Os fragmentos deles iriam começar a se chocar com outros satélites, gerando uma reação em cadeia de colisões. Nosso trabalho indica que Júpiter deve ter criado esse tipo de cascata de colisões no Sistema Solar interno", disse Laughlin.

Os fragmentos resultantes das colisões teriam então entrado em uma espiral rumo ao Sol. A avalanche teria destruído qualquer super-Terra em formação, levando seus pedaços para dentro do Sol. Uma segunda geração de planetas internos teria se formado mais tarde, a partir do material que ficou para trás - o que é coerente com as evidências de que os planetas internos do Sistema Solar são mais jovens que os planetas mais distantes do Sol. De fato, Mercúrio, Vênus, a Terra e Marte são menores e têm atmosferas muito menos espessas do que seria de se esperar, segundo Laughlin. "Uma das previsões da nossa teoria é que planetas verdadeiramente parecidos com a Terra, com superfícies sólidas e pressões atmosféricas modestas, são muito raros", disse ele.

De acordo com o cientista, a formação de planetas gigantes como Júpiter é relativamente rara, mas quando ocorre, o planeta geralmente migra para dentro e termina em uma distância orbital parecida com a da Terra. Mas a formação de Saturno no Sistema Solar atraiu Júpiter de volta, permitindo a formação de Mercúrio, Vênus, Terra e Marte. 


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