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Laço argentino com Moscou pôs Brasil em alerta durante Guerra das Malvinas

De acordo com documentos confidenciais obtidos pelo 'Estado', militares brasileiros temiam que Buenos Aires recorresse à União Soviética

Marcelo de Moraes - O Estado de S.Paulo,

01 Abril 2012 | 11h08

BRASÍLIA - Trinta anos depois da Guerra das Malvinas, documentos secretos mostram que o governo militar brasileiro temia que o conflito entre Argentina e Grã-Bretanha abrisse as portas do continente para a influência comunista da União Soviética e até mesmo acelerasse o programa nuclear argentino.

Papéis confidenciais guardados no Arquivo Nacional, em Brasília, aos quais o Estado teve acesso, revelam que o Brasil monitorou diariamente o andamento da crise entre os dois países. Os militares brasileiros, porém, tiveram especial preocupação com a ajuda que a então União Soviética poderia prestar aos argentinos como contraponto à aliança da Grã-Bretanha com os EUA.

O documento de número 350, produzido pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), de 19 de abril de 1982 e classificado como secreto, revela que a inteligência brasileira soube que os soviéticos teriam se comprometido a repassar uma carga de 100 quilos de urânio enriquecido aos argentinos. O relatório não informa o grau de enriquecimento do material. "Obteve-se informe de que, em cumprimento a negociações secretas anteriores, a União Soviética comprometeu-se a entregar à Argentina 100 quilos de urânio enriquecido para seu programa nuclear, tendo sido assinado em Buenos Aires um convênio entre a Comissão Nacional de Energia Atômica e a Teschmabexport (entidade soviética de comércio exterior)."

Segundo o mesmo documento, os soviéticos teriam elaborado uma espécie de operação com outros países de seu grupo de influência, como Cuba, Angola e Líbia, para poder repassar armas aos argentinos de forma indireta, sem chamar a atenção da comunidade internacional.

O avião que levava o embaixador de Cuba em Buenos Aires chegou a ser interceptado quando sobrevoou o espaço aéreo brasileiro. O documento do Cenimar faz referência ao episódio citando ainda a participação do líder cubano Fidel Castro e de seu colega líbio Muamar Kadafi na suposta operação de ajuda militar para a Argentina.

"Há indícios de que militares soviéticos se encontram em Buenos Aires auxiliando a Marinha argentina a levantar dados sobre a força-tarefa britânica que foi deslocada para a área das Malvinas. Os soviéticos solicitaram a Kadafi que a Líbia fornecesse à Argentina aviões e mísseis de procedência russa para que a URSS não aparecesse sozinha como responsável pelo fornecimento de armas", diz o documento.

"O embaixador cubano em Buenos Aires, cujo avião foi interceptado no espaço aéreo brasileiro, foi portador de uma mensagem de Fidel Castro aos argentinos em que, em nome do governo de Angola, oferece as bases aéreas angolanas como escala operacional para manter uma ponte aérea entre a Líbia e a Argentina", acrescenta o relatório.

Acompanhamento. Durante o conflito, o governo brasileiro manteve uma espécie de diário de acompanhamento da Guerra das Malvinas. São pouco mais de 50 informes, que monitoram a evolução do conflito. Mal abastecido de informações, os oficiais brasileiros tinham dificuldade em receber dados precisos e atualizados, mas o temor de que a URSS se aproveitasse da guerra para aumentar a influência sobre os argentinos volta a ser registrado abertamente.

"A União Soviética, dentro de sua estratégia expansionista, procurará tirar os maiores proveitos da atual disputa anglo-argentina. Assim, o divulgado oferecimento de ajuda à Argentina, por parte da URSS, poderia ter como objetivo criar dificuldades para uma solução que mantenha a unidade do bloco ocidental", cita o Sumário Diário de Informações número 04, produzido pelo Estado-Maior do Exército em 7 de abril de 1982 e classificado como confidencial.

Em 12 de abril, outro relatório aponta essa preocupação. "Em virtude da posição adotada pelos países da Comunidade Europeia, bem como a dos países da América Latina, a Argentina, sentindo-se isolada no contexto internacional, poderá buscar uma maior aproximação com os países do bloco comunista, em particular com União Soviética e Cuba. Este fato causa preocupação a setores militares argentinos, que lamentam a posição que vem sendo assumida pelos EUA", diz o documento, também classificado como secreto.

A preocupação chega ao seu auge em 16 de abril, quando o relatório dos militares brasileiros diz que "as declarações do presidente Leopoldo Galtieri de que a Argentina irá até as últimas consequências podem significar a disposição de aceitar a ajuda soviética, no caso de não chegar a uma solução por via diplomática".

Influência. No Sumário Diário número 04, a inteligência do Exército avalia a tentativa de soviéticos e americanos de influenciar o conflito. "O controle do Atlântico Sul é de fundamental importância, tanto para os países do bloco ocidental como para os soviéticos e seus aliados. Por essa razão, as duas superpotências não poderiam estar ausentes dos acontecimentos que envolvem Argentina e Grã-Bretanha", afirmam os militares brasileiros.

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