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Lagarta versus folha

Temos de esperar agora para saber como a planta responde a essa nova estratégia

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2019 | 03h00

Imagine o pavor de um capim pensante ao ver se aproximar a boca de uma vaca. Ao contrário da gazela que tem uma chance de correr e escapar do leão, a planta não consegue fugir do herbívoro. É por isso que as plantas desenvolveram mecanismos sofisticados de defesa. Muitas são venenosas, outras possuem espinhos e todas são compostas de celulose, um polímero quase impossível de digerir. Para as plantas a solução é afugentar, resistir ou sobreviver à bocada. E, claro, os predadores desenvolveram estratégias para evitar essas armadilhas. 

Uma das estratégias utilizadas pelas plantas é produzir uma seiva branca, grudenta e tóxica. Essa seiva, que você já deve ter observado em seringueiras (e usamos para fabricar borracha), afasta grandes herbívoros que não gostam de sentir aquela cola de gosto ruim aderida à mucosa bucal. E os insetos correm o risco de ficarem literalmente colados quando abocanham uma dessas folhas e são envoltos pela seiva que coagula e endurece ao contato com o ar. Os mais afoitos acabam mortos, colados pela boca na primeira mordida. A seiva fica estocada sob pressão em vasos no interior do caule e na base da folha. Quando esses canais são rompidos por uma mordida, a seiva sob pressão extravasa.

Sabendo que muitas espécies de plantas do gênero Euphorbia produzem uma quantidade abundante de seiva, os biólogos ficaram surpresos quando encontraram larvas de um inseto (Theroa zethus) devorando folhas de Euphorbias. E foram investigar como as larvas lidavam com as defesas da planta. E o primeiro passo foi filmar.

O filme mostrou que a folha devorada pela lagarta não secreta seiva ao ser mordida. Além disso, foi possível observar que a lagarta, antes de começar a morder a folha, se dirige ao pecíolo (o cabinho da folha) e usa suas mandíbulas para raspar levemente a superfície do pecíolo sem romper o tecido. 

Aí, então, a larva secreta sobre a área raspada um jato do ácido produzido por uma glândula que tem na parte ventral. E, em seguida, fica apertando levemente o pecíolo com as mandíbulas. Após meia hora, a lagarta se movimenta em direção à folha e começa a comer. Na área do pecíolo que havia sido “tratado” se forma uma constrição. Foi fácil para os pesquisadores cortar o pecíolo entre a constrição e a folha e verificar que ele não liberava seiva. 

Examinando em um microscópio a área que sofria constrição, os cientistas descobriram que os canais de seiva estavam bloqueados. Ao analisar o produto secretado pela lagarta, os cientistas descobriram que ele contém grande concentração de ácido fórmico e é muito ácido. Quando os cientistas colocaram a secreção ácida sobre o pecíolo, descobriram que a constrição que bloqueava a passagem da seiva surgia, mas levava mais de duas horas. 

Para o processo ir mais rápido era necessário antes remover a cera que cobre o pecíolo. É isso que a larva estava fazendo: raspando o pecíolo com as mandíbulas. Já a glândula que produz o jato de ácido normalmente serve como defesa: a larva espirra esse ácido nos pássaros ou em outros bichos que tentam atacá-la.

Essas observações sugerem que o método usado pela larva para bloquear a saída da seiva é o seguinte: primeiro a larva acha o pecíolo da folha. Daí escolhe uma área que é raspada com as mandíbulas para tirar a cera que protege a planta. Em seguida, ácido é espalhado nessa área para fazer colapsar os canalículos com seiva. 

Aí a larva espera meia hora e se dirige para a folha e começa a comer. A folha indefesa não secreta seiva e é devorada. É impressionante como a seleção natural levou ao aparecimento dessa estratégia sofisticada para bloquear a liberação de seiva. E tudo isso feito por uma larva que tem cérebro minúsculo, provavelmente sem imaginação. 

Agora temos de esperar alguns milhares de anos para saber como a planta vai responder a essa nova arma da lagarta. Que estratagema surgirá na planta? Uma cera resistente ao ácido? Se os humanos ainda estiverem por aqui nesse futuro distante, seria uma boa ideia voltar a observar como evoluiu a batalha entre a folha e a lagartas. 

MAIS INFORMAÇÕES: A NOTODONTID NOVELTY: THEROA ZETHUS CATERPILLARS USE BEHAVIOR AND ANTI-PREDATOR WEAPONRY TO DISARM HOST PLANTS. PLOS ONE | HTTPS://DOI.ORG/10.1371/JOURNAL.PONE.0218994 (2019)

* É BIÓLOGO

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