Carlos Cruz/CNPq
Carlos Cruz/CNPq

Lattes, sistema com currículo de cientistas, fica fora do ar pelo 4º dia; CNPq tenta fazer reparo

Indisponibilidade da plataforma compromete o acesso a informações sobre pesquisadores; órgão garante que dados não foram perdidos

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 12h56
Atualizado 28 de julho de 2021 | 12h49

Os sistemas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), agência federal de fomento à pesquisa, chegaram nesta terça-feira, 27, ao quarto dia fora do ar. A indisponibilidade dos servidores compromete o acesso a currículos de cientistas na plataforma Lattes e ao sistema de gerenciamento de bolsas. O "apagão" preocupa cientistas em todo o País, que temem a perda de dados e atrasos na liberação de auxílios. O conselho nega que as informações tenham sido perdidas. 

O CNPq é uma entidade ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia responsável pelo fomento à pesquisa e pelo pagamento de bolsas a cientistas brasileiros. Cerca de 80 mil pesquisadores brasileiros são financiados com recursos do CNPq. Os sistemas do conselho dão acesso aos currículos Lattes de milhares de pesquisadores, documentos usados para concorrer a bolsas e pleitear recursos para projetos. O CNPq também guarda informações sobre grupos de pesquisa em todo o País e gerencia uma plataforma para pagamento de bolsas aos cientistas, a Carlos Chagas, que está fora do ar.

Na tarde desta terça-feira, nem os e-mails de servidores do CNPq funcionavam normalmente e até o início da noite não havia previsão de restabelecimento dos sistemas. Segundo o CNPq, empresas foram contratadas para diagnosticar a causa da indisponibilidade das plataformas e os procedimentos de reparação dos equipamentos já foram iniciados.

Uma das preocupações de pesquisadores é que os dados registrados nas plataformas tenham sido perdidos, o que foi negado pelo CNPq na tarde desta terça-feira. De acordo com o órgão, há um backup das informações. Ainda não está claro se esse backup será capaz de recuperar as últimas informações depositadas pelos cientistas. 

"O CNPq já dispõe de novos equipamentos de TI e a migração dos dados foi iniciada antes do ocorrido. Independentemente dessa migração, existem backups cujos conteúdos estão apoiando o restabelecimento dos sistemas. Portanto, não há perda de dados da plataforma Lattes", informou o conselho. O órgão também afirma que o pagamento de bolsistas, outra preocupação dos pesquisadores, não será afetado.

Relatos de servidores apontam que a falha teria sido causada pela queima de um dos dispositivos que controla o acesso ao banco de dados do CNPq e que houve falta de manutenção no equipamento. Procurado pelo Estadão para comentar a origem da falha, o CNPq não se posicionou.

Mestrando na área de Engenharia de Transporte, Bruno Cavalcante, de 24 anos, estava apreensivo nesta terça com a indisponibilidade das plataformas. Ele quer concorrer a dois programas de doutorado - na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Federal do Ceará (UFC) - mas não sabe se a plataforma Lattes vai voltar a tempo. Os editais se encerram no dia 30 e Cavalcante precisa acessar o currículo para enviar às universidades. 

"Preciso atualizar (o Lattes), colocar artigos, para ter um currículo mais robusto. É angustiante", diz o jovem, que tem um projeto de geração de energia elétrica por meio do pavimento de rodovias. O CNPq afirma que todos os prazos de ações relacionadas ao fomento do CNPq estão suspensos e serão prorrogados. Cavalcante, no entanto, teme que a decisão de prorrogar os prazos acabe ficando nas mãos das universidades e ele perca as oportunidades. 

Para Fernando Peregrino, presidente do Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), o problema pode causar um "efeito cascata" em todo o País, se não for resolvido logo. "O CNPq é o centro do registro dos pesquisadores, de suas áreas de atuação. Para prestação de contas dos projetos, usamos o Lattes. Em qualquer disputa, são apresentados dados pelo sistema", afirma Peregrino. 

"Já está impactando os pesquisadores. Muitos tinham prazos urgentes para participar de editais e isso vai ficar comprometido", diz Roberto Muniz, presidente da Associação dos Servidores do CNPq (Ascon) e do Sindicato Nacional dos Gestores em Ciência e Tecnologia. Ele lembra que, apesar de o CNPq ter garantido que os prazos estão suspensos, processos no exterior também podem ser afetados.

E o pagamento de bolsas, segundo Muniz, só está garantido para a próxima rodada. "Tudo é processado por meio da (plataforma) Carlos Chagas e hoje ninguém consegue acessar. Precisam sanar o problema rapidamente porque, se continuar por mais tempo, pode, sim, haver atraso. Temos de seguir cronogramas para emitir ordem de pagamento", explica. 

Para ele, o problema nos sistemas tem relação com a falta de investimentos no órgão e a redução de pessoal. "O que estamos fazendo questão de afirmar é que acidentes podem acontecer. O que não pode é deixar de investir nessa área", diz Muniz. Além da escassez de recursos para a pesquisa em si, também falta verba para a área que dá suporte aos pesquisadores, afirma o servidor. 

O orçamento para a pesquisa no Brasil vem caindo nos últimos anos e a situação dos órgãos de fomento à pesquisa preocupa, diz Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC). Em 2021, a verba prevista para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) equivale a menos de um terço do que foi repassado uma década atrás.

Os cortes também atingem o CNPq, que sofre com a redução do número de bolsas a pesquisadores. Neste ano, o orçamento do órgão é de R$ 1,26 bilhão. O próprio presidente do órgão, Evaldo Vilela, já manifestou preocupação com o orçamento do conselho, um dos menores da história do CNPq. Sociedades científicas pedem a liberação completa de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia (FNDCT), que teve R$ 5 bilhões bloqueados este ano. 

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