Lebre causa danos no interior paulista

Os produtores paulistas, sobretudo do oeste do estado, vem se deparando com um novo tipo de ataque às lavouras. Além dos fungos, lagartas e insetos, eles também estão aprendendo a lidar com um problema bem maior: uma espécie de lebre - Lepus c apensis - que chega a medir 40cm e pesar 7kg, quando adulta. Ela ataca plantações de laranja, maracujá, melancia, côco, pupunha, café, soja, feijão e milho, sobretudo no período vespertino e noturno.Nativa da Europa, a espécie foi acidentalmente introdu zida na Argentina, há mais de 100 anos e vem lentamente se espalhando para o Norte. "Por ser uma espécie exótica, que causa danos, ela deve ser tratada como praga e combatida, diferentemente das espécies brasileiras, que são protegidas", diz Rômulo Mello, diretor de Fauna do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Reno váveis (Ibama). "Só precisamos estudar a melhor forma de conter sua proliferação, a partir de avaliações da dinâmica dapopulação e comportamento". Mello apresentará o problema à Câmara Técnica de Fauna, que se reúne na segunda quinzena de março, e deve encaminhar as medidas de combate.No Rio Grande do Sul, a caça a essa lebre é autorizada de agosto e outubro, mas isso não foi suficiente para conter o avanço da espécie, que não tem predadores naturais e não se intimida facilmente com as tentativas dos produtores de afastá-la. Alguns usam cachorros, espantalhos ou fazem barulho para tirar os animais das plantações, "mas elas acostumam com facilidade", diz o agrônomo Willibaldo Villa, da Casa da Agricultura de Marília (SP).Segundo ele, na região há relatos de danos até a cafezais em formação, desde 1999. "Também tenho informações de ataques a lavouras de Itapetininga e Sorocaba, sobretudo em culturas de melancia e maracujá", afirma. A lebre prefere os brotos mais tenros, o que, no caso de mudas de palmeiras ? como côco e palmito - chega a matar a planta. Nos frutos rasteiros, como a melancia, ela rói a casca, inutilizando o produto para comercialização. E, em algumas plantações perenes como a laranja, rói o caule, abrindo caminho para ainfestação por fungos e doenças."Há 2 anos, um produtor de maracujá com 1.500 pés plantados foi obrigado a cercar com tela toda a área para se livrar da lebre", conta Villa. Porém a solução é inviável para lavouras grandes. Em Bauru, o produtor Haroldo Zils perdeu 10 mil pés de palmito pupunha, amargando o prejuízo após quase um ano de investimentos na lavoura. Também notou ataques às plantações de feijão, soja e café novo. Antônio de Jesus Sanches, de Pratânia (SP), costuma ver as lebres nas bordas da plantação de soja, mas diz que o prejuízo ainda épequeno, porque elas comem apenas as folhas. Em outras áreas onde também tem plantações - de milho e cana-de-açúcar, além da soja - também já viu as lebres. "Elas estão por todo o interior, em Lençóis, São Manoel, por todo lado",repete ."Cheguei a perder 60% da minha plantação de palmito de pupunha, quando as mudas já estavam com 6 meses e 50cm de altura", acrescenta outro produtor, Marcelo de Resende Barbosa, de Alvilândia (SP). "As mudas foram roídas atéficar a 1cm do solo". Barbosa mantinha a pupunha livre de mato com herbicidas, na época do ataque, há 3 anos. Mais recentemente adotou técnicas de agricultura orgânicae não mantém mais a pupunha "no limpo", como se diz na roça. E reparou que as lebres preferem algumas ervas daninhas nativas, como picão, ao invés da pupunha. "Acho que elas atacavam por que não tinha outra coisa. Agora, com a disponibilidade de ervas, vejo que continuam por lá, mas não causaram mais dano à plantação, nem mesmo às mudas novas". O único problema que ele ainda não resolveu foi a preferência pelas acácias, árvores recém plantadas como cerca viva, na divisa da propriedade. "Vou ter que achar uma outra espécie de árvore, da qual elas não gostem", comenta.Para Wilson Lima, gerente do Ibama em São Paulo, é necessário fazer um plano de manejo da lebre, levando em consideração todas estas informações de agricultores e também os dados de pesquisadores. De acordo com ele, aespécie se reproduz de 1 a 3 vezes por ano, com 2 a 3 filhotes por vez. "Os machos atingem a maturidade sexual aos 6 meses e as fêmeas aos 7 a 8 meses. Ambos vivem até 9 anos, de modo que um casal pode gerar uma imensa prole ao longo de sua vida reprodutiva", observa. Durante o dia, as lebres se isolam em meio à vegetação, tornando-se mais ativas à noite, quando se juntam em bandos. São animais que nadam bem e até sobem em árvores, chegando a atingir, na corrida, cerca de 60km/h. "Diante de um animal como esse, exótico, introduzido sem controle, precisamos de uma regulamentação própria, incluindo uma avaliação do ponto de vista sanitário, para saber se não há possibilidade de transmissão de doenças", conclui Lima.

Agencia Estado,

21 de fevereiro de 2003 | 16h49

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