Charas Scientific
Charas Scientific

Legalização permite primeiros testes científicos da maconha

Pesquisadores do Colorado, onde erva é vendida desde 2014, descobrem contaminantes e baixos níveis de composto medicinal

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

23 Março 2015 | 07h28

SÃO PAULO - Mais de um ano depois da legalização da maconha no Estado do Colorado, nos Estados Unidos, pela primeira vez cientistas têm a oportunidade de testar em laboratórios a planta que de fato circula no mercado. O primeiro estudo feito para avaliar a potência e os contaminantes da droga que está sendo consumida no Estado americano mostra que ela é três vezes mais potente do que a maconha que circulava há 30 anos, tem teores muito baixos da substância utilizada para fins medicinais e é impregnada de micróbios e solventes.

O estudo inédito, realizado pelo Charas Scientific - um dos oito laboratórios certificados pelo Colorado para testar a potência da maconha no Estado -, foi apresentado nesta segunda-feira, 23, na reunião anual da Sociedade Americana de Química (ACS, na sigla em inglês), que está sendo realizada em Denver, capital do Colorado.

O cientista que coordenou o estudo, Andy LaFrate, diz ter ficado surpreso com a potência da maconha que é vendida no Colorado. As amostras têm teores inesperadamente altos de tetrahidrocanabinol (THC)  - o composto psicoativo da planta. "Chegamos a ver testes de potência que indicam quase 30% de THC, o que é uma quantidade gigantesca", disse LaFrate, que é diretor científico do laboratório.

Segundo LaFrate, há três décadas, os níveis de THC ficavam bem abaixo de 10%. A concentração da substância triplicou, de acordo com ele, porque, ao longo dos anos, os produtores fizeram cruzamentos entre variedades cada vez mais fortes a fim de atender à demanda dos usuários por altas potências.

Mas, de acordo com o pesquisador, esses cruzamentos tiveram uma consequência inesperada: várias das amostras testadas no laboratório tinham porcentagem baixa ou ausência total de canabidiol (CBD), a substância da maconha que tem sido usada para fins medicinais.

Atualmente, em diversos laboratórios do mundo, há cientistas estudando a utilização do CBD no tratamento de problemas de saúde como a esquizofrenia, doença de Huntgington e doença de Alzheimer. Há estudos em curso também para o uso do CBD contra a ansiedade e a depressão. Ao contrário do THC, o CBD não provoca efeitos alucinógenos.

De acordo com LaFrate, o estudo mostrou também que as centenas de linhagens de maconha selecionada são muito semelhantes quimicamente. "Há bastante homogeneidade, tanto do ponto de vista do uso medicinal, como da perspectiva da venda no varejo", disse ele. 

Segundo LaFrate, a homogeneidade química da planta significa que há pouca diferença no tipo de efeito recreativo "personalizado" que cada variedade pode proporcionar - o que pode ser uma limitação do ponto de vista comercial. 

"Uma planta pode ter folhas verdes, enquanto outra tem folhas roxas e a quantidade absoluta de canabinoides pode variar, alterando a potência. Mas a proporção de THC e CBD não muda muito", disse LaFrate. "Então, pode haver pouca diferença no efeito - ainda que algumas pessoas digam, por exemplo, que há variedades de maconha que deixam o usuário mais tranquilo, ou mais alerta." 

LaFrate também considerou "surpreendentes" os resultados dos testes sobre os níveis de contaminação química e biológica da maconha analisada. Embora a legislação do Colorado ainda não exija esse tipo de testes, alguns produtores estão procurando os laboratórios voluntariamente para submeter amostras e saber mais sobre a composição de seus produtos.

O estudo identificou uma série de contaminantes químicos e biológicos, como micróbios patógenos e solventes. "É bem surpreendente a quantidade de sujeira que encontramos em muito desse material. Você olha um broto de maconha que parece bonito e, quando o submete a um ensaio biológico, descobre que ele está coberto de fungos", afirmou.

O laboratório também encontrou um nível variável de contaminantes químicos como butano, que é utilizado para produzir extratos de maconha. A contaminação, de acordo com LaFrate, não é necessariamente alarmante, mas é sinal de que é preciso estudar quais são seus níveis de segurança.

"É um produto natural. Haverá sempre crescimento de micróbios em ali, não importa o que seja feito. Então as perguntas passam a ser: qual é o limiar seguro? Com quais contaminantes precisamos nos preocupar?", questionou LaFrate.

Segundo o cientistas, legalizar a maconha levantou diversas questões que ainda terão que ser estudadas. LaFrate - que está envolvido tanto nas análises científicas, como nas políticas públicas ligadas ao novo mercado de maconha do Colorado -, acredita que a regulamentação da droga continuará a evoluir, à medida que cientistas, legisladores e outros atores sociais aprendam mais sobre a planta e seus subprodutos.

Testes obrigatórios. O Colorado legalizou a maconha recreacional nas eleições de 2012, quando foi aprovada a Emenda 64, que permitiu a venda  para maiores de 21 anos. A comercialização, pioneira nos Estados Unidos, teve início em janeiro de 2014. A emenda determina que todos os produtos sejam submetidos a testes de potência e de contaminação, antes da venda. 

Foram criadas diversas regras para os programas de testes laboratoriais. A lei exige que cada lote seja testado para diversas características químicas e biológicas. Os cientistas utilizam métodos como cromatografia líquida de alta performance, cromatografia gasosa, espectrometria de massa, culturas microbianas e reação em cadeia polimerase.

De acordo com LaFrate, os resultados dos primeiros testes são "fascinantes e chocantes" e oferecem um primeiro vislumbre de uma indústria em sua infância.

Mais conteúdo sobre:
MaconhaColorado

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.