Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters

Leia íntegra do discurso de despedida do Papa Bento XVI

Venerados Irmãos no Episcopado e no Presbiterato, Distintas Autoridades, Caros irmãos e irmãs,

O Estado de S.Paulo,

27 Fevereiro 2013 | 21h23

Agradeço por terdes vindo em tão grande número a esta minha última Audiência Geral.

Obrigado de coração! Estou realmente comovido! Vejo em vós a Igreja viva! E acho que devemos agradecer também ao Criador pelo dia maravilhoso que nos proporcionou hoje, mesmo sendo inverno.

Como o apóstolo Paulo no texto bíblico que acabamos de ouvir, eu também sinto no meu coração que devo agradecer principalmente a Deus que guia a Igreja e a faz crescer, que semeia a sua Palavra e desse modo alimenta a fé em seu Povo.

Neste momento, minha alma se expande e abraça toda a Igreja espalhada pelo mundo; e dou graças a Deus pelas "notícias" que nestes anos de ministério petrino pude receber sobre a fé no Senhor Jesus Cristo, sobre a caridade que circula realmente no Corpo da Igreja e o faz viver no amor, e sobre da esperança que nos abre e nos orienta para a plenitude da vida, para a pátria do Céu.

Levarei a todos na oração, em um presente que é o de Deus, no qual abarco cada encontro, cada viagem, cada visita pastoral. Abraço tudo e a todos na oração confiando-os ao Senhor, a fim de que tenhamos pleno conhecimento de sua vontade, com toda a sabedoria e inteligência espiritual, e para que possamos nos comportar de maneira digna dEle, do seu amor, dando frutos em toda obra de bem (cfr. Col 1, 9-10).

Neste momento, há em mim uma grande confiança, porque sei, todos sabemos, que a Palavra da verdade do Evangelho é a força da Igreja, é a sua vida. O Evangelho purifica e renova, dá frutos, onde quer que a comunidade dos fiéis o ouça e acolha a graça de Deus na verdade e na caridade. Esta é a minha confiança, esta é minha alegria.

Quando, no dia 19 de abril, há quase oito anos, aceitei assumir o ministério petrino, tive a firme certeza que sempre me acompanhou: esta certeza da vida da Igreja da Palavra de Deus. Naquele momento, como já disse repetidas vezes, as palavras que ressoaram no meu coração foram: Senhor, porque me pedes isto e o que me pedes? É um peso enorme o que colocas sobre meus ombros, mas se Tu o pedes, sobre a tua palavra lançarei as redes, certo de que Tu me guiarás, mesmo com todas as minhas fraquezas. E oito anos mais tarde posso dizer que o Senhor me guiou, esteve sempre ao meu lado, pude perceber cotidianamente sua presença. Foi um trecho do caminho da Igreja em que houve momentos de alegria e de luz, mas também momentos difíceis; eu me senti como São Pedro com os Apóstolos no barco no lago da Galileia: o Senhor nos deu muitos dias de sol e de brisa suave, dias de pesca abundante; houve também momentos em que as águas estavam agitadas e o vento contrário, como em toda a história da Igreja, e o Senhor parecia dormir. Mas sempre soube que naquele barco estava o Senhor e sempre soube que o barco da Igreja não é meu, nem é nosso, é dEle. E o Senhor não permite que ele afunde; é Ele que o conduz, certamente também por meio dos homens que escolheu, porque assim Ele quis. Esta foi e é uma certeza que nada pode ofuscar. E é por isso que hoje meu coração está repleto de gratidão a Deus porque Ele jamais deixou que faltassem a toda a Igreja e a mim também o seu consolo, a sua luz, o seu amor.

Estamos no Ano da fé, por mim proclamado para fortalecer justamente a nossa fé em Deus em um contexto que parece deixá-Lo cada vez mais em segundo plano. Gostaria de convidar a todos a renovar a firme confiança no Senhor, a entregar-nos como crianças nos braços de Deus, certos de que aqueles braços nos amparam sempre, permitindo que caminhemos todos os dias, também quando estamos fatigados. Gostaria que cada um se sentisse amado pelo Deus que nos deu o seu Filho e que nos mostrou o seu amor sem limites. Gostaria que cada um sentisse a alegria de ser cristão. Uma bela oração que devemos rezar todos os dias pela manhã diz: "Eu te adoro, meu Deus, e te amo de todo o meu coração. Te agradeço por ter-me criado e feito cristão ...". Sim, somos felizes pelo dom da fé; ela é o bem mais precioso, que ninguém poderá nos tirar! Agradeçamos por isto ao Senhor todos os dias, com a oração e com uma vida cristã coerente. Deus nos ama, e espera que nós também o amemos!

Mas não quero agradecer apenas a Deus neste momento. Um Papa não está só na condução do barco de Pedro, embora seja esta a sua primeira responsabilidade. Eu nunca me senti sozinho carregando a alegria e o peso do ministério petrino; o Senhor pôs perto de mim muitas pessoas que, com generosidade e amor a Deus e à Igreja, me ajudaram e se mantiveram ao meu lado. Antes de mais nada vós, caros Irmãos Cardeais: a vossa sabedoria, os vossos conselhos, a vossa amizade foram preciosos para mim; os meus Colaboradores, a começar pelo meu Secretário de Estado, que me acompanhou com fidelidade nestes anos; a Secretaria de Estado e toda a Cúria Romana, assim como todos aqueles que, nos vários setores, prestam o seu serviço à Santa Sé: são muitos rostos que não aparecem, permanecem na sombra, mas no silêncio, na dedicação cotidiana, com espírito de fé e humildade representaram para mim um amparo seguro e confiável. Dedico um pensamento especial à Igreja de Roma, a minha Diocese! Não posso esquecer dos Irmãos no Episcopado e no Presbiterato, as pessoas consagradas e todo o Povo de Deus. Sempre recebi nas visitas pastorais, nos encontros, nas audiências, nas viagens grande atenção e profundo afeto; mas eu também amei a todos e a cada um, sem distinção, com a caridade pastoral que é o coração de todo Pastor, principalmente do Bispo de Roma, do Sucessor do Apóstolo Pedro.

Todos os dias carreguei cada um de vós na oração, com coração de pai.

Gostaria que minha saudação e meu agradecimento chegasse a todos: o coração de um Papa abrange o mundo inteiro. E gostaria de expressar minha gratidão ao Corpo Diplomático junto à Santa Sé, que representa aqui a grande família das Nações. Lembro também de todos os que trabalham por uma boa comunicação e que agradeço por seu importante Serviço.

A esta altura, gostaria de agradecer de todo coração também às inúmeras pessoas do mundo todo, que nas últimas semanas me enviaram sinais comoventes de atenção, amizade e oração. Sim, o Papa nunca está só, agora o sinto mais uma vez de uma maneira tão grande que toca o coração. O Papa pertence a todos e muitíssimas pessoas se sentem muito próximas a ele. É verdade que recebo cartas dos grandes do mundo - dos Chefes de Estado, dos Líderes religiosos, dos representantes do mundo da cultura e assim por diante. Mas recebo também inúmeras cartas de pessoas simples que me escrevem simplesmente com o coração e me fazem sentir o seu afeto, que nasce do fato de estarmos juntos com Cristo Jesus, na Igreja. Estas pessoas não me escrevem como se escreve, por exemplo, a um príncipe ou a um grande que não se conhece. Escrevem-me como irmãos e irmãs ou como filhos e filhas, com o sentido de um vínculo familiar muito carinhoso. Aqui é possível tocar com a mão o que é a Igreja - não uma organização, uma associação para fins religiosos ou humanitários, mas um corpo vivo, uma comunhão de irmãos e irmãs no Corpo de Jesus Cristo, que une a todos nós. Experimentar a Igreja deste modo é poder quase tocar com as mãos a força de sua verdade e do seu amor, é motivo de alegria, numa época em que tantas pessoas falam do seu declínio. Mas vede como a Igreja é viva hoje!

Nestes últimos meses, senti que minhas forças diminuíram, e pedi a Deus com insistência, na oração, que me iluminasse com sua luz para que eu tomasse a decisão mais correta, não pelo meu bem, mas pelo bem da Igreja. Dei este passo na plena consciência de sua gravidade e também da sua novidade, mas com uma profunda serenidade de espírito. Amar a Igreja significa também ter a coragem de fazer escolhas difíceis, sofridas, tendo sempre diante de nós o bem da Igreja e não de nós mesmos.

Aqui gostaria de voltar mais uma vez ao dia 19 de abril de 2005. A gravidade da decisão estava precisamente no fato de que, a partir daquele momento, eu estaria comprometido sempre e para sempre com o Senhor. Sempre - quem assume o ministério petrino não tem mais nenhuma privacy. Ele pertencerá sempre e totalmente a todos, a toda a Igreja.

Sua vida deixa de ter, por assim dizer, a dimensão privada. Pude experimentar, e experimento neste exato momento, o fato de que recebemos a vida exatamente quando a doamos. Antes eu disse que muitas pessoas que amam o Senhor amam também o Sucessor de São Pedro e estão afeiçoadas a ele; que o Papa tem realmente irmãos e irmãs, filhos e filhas em todo o mundo, e que se sente protegido no abraço da vossa comunhão; porque não pertence mais a si mesmo, pertence a todos e todos pertencem a ele.

"Sempre" significa também "para sempre" - não há mais como voltar à vida privada. Minha decisão de renunciar ao exercício ativo do ministério não revoga isto. Não voltarei à vida privada, a uma vida de viagens, encontros, recepções, conferências. Não abandonarei a cruz, mas permanecerei de uma maneira nova perto do Senhor Crucificado. Não carregarei mais o poder do ofício no governo da Igreja, mas no serviço da oração permanecerei, por assim dizer, no recinto de São Pedro. São Bento, cujo nome carrego como Papa, me servirá de grande exemplo nisto.

Ele nos mostrou o caminho para uma vida, que, ativa ou passiva, pertence totalmente à obra de Deus.

Agradeço a todos e a cada um de vós também pelo respeito e a compreensão com que acolheram esta decisão tão importante. Eu continuarei acompanhando o caminho da Igreja com a oração e a reflexão, com a dedicação ao Senhor e à sua Esposa que procurei viver até hoje todos os dias e que quero viver sempre. Peço que me lembreis diante de Deus, e principalmente que oreis pelos Cardeais, chamados para uma tarefa tão relevante, e pelo novo Sucessor do Apóstolo Pedro: que o Senhor o acompanhe com a luz e a força do seu Espírito.

Invoquemos a materna intercessão da Virgem Maria mãe de Deus e da Igreja para que acompanhe cada um de nós e toda a comunidade eclesial; entreguemo-nos a Ela profundamente confiantes.

Caros amigos! Deus guia a sua Igreja, sempre a sustenta também e principalmente nos momentos difíceis. Não devemos perder jamais esta visão de fé, que é a única verdadeira visão do caminho da Igreja e do mundo. No nosso coração, no coração de cada um de vós, esteja sempre a jubilosa certeza de que o Senhor está ao nosso lado, não nos abandonará, está perto de nós e nos envolve com o seu amor. Obrigado!

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