Cai Linhai
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Lenda da primeira dinastia chinesa encontra apoio na ciência

Arqueólogos e geólogos descobriram evidências de uma enchente gigantesca que poderia ser a Grande Enchente mencionada nos anais da história do país

Nicholas Wade, The New York Times

15 Agosto 2016 | 10h27

Os cientistas encontraram evidências de uma cheia catastrófica que tomou conta de boa parte do vale do Rio Amarelo na China há cerca de 4 mil anos, um evento que poderia confirmar a base histórica da lendária primeira dinastia chinesa.

Os antigos textos chineses relatam um misto de eventos históricos e de lendas. Alguns registros, tais como os relacionados à segunda e à terceira dinastia da China, foram confirmados em detalhes surpreendentes quando os arqueólogos encontraram inscrições em ossos oraculares e antigos objetos de bronze.

Entretanto, os registros da dinastia dos Xia, a primeira da China, contêm histórias da Grande Inundação com um salvador semelhante a Noé, o Imperador Yu, que recebeu seu direito de governar dos céus depois de cavar canais para escoar as águas da enchente e tornar a terra segura outra vez.

Os historiadores se perguntavam há bastante tempo se o relato da enchente era apenas um mito criador, a memória folclórica de um evento real, ou uma mistura dos dois. Alguns viam a história do Imperador Yu como pura ficção criada para justificar um governo centralizado e, na falta de evidências que confirmassem uma inundação tão grande, muitos acreditavam que as narrativas da dinastia Xia fossem mais do que narrativas históricas.

Uma equipe de arqueólogos e geólogos liderados por Qinglong Wu, da Universidade de Pequim, descobriu evidências de uma enchente gigantesca que poderia ser a Grande Enchente mencionada nos anais da história chinesa.

O que deu início à enchente foi um deslizamento de terra, causado por um terremoto e que criou uma barragem natural no curso do Rio Amarelo, justamente onde ele passa pelo Desfiladeiro de Jishi, após sair do platô tibetano. Os pesquisadores publicaram na última edição da revista Science que, a julgar pelas paredes do desfiladeiro, a barragem teria deixado o nível da água 244 metros acima dos níveis atuais.

Durante um período de seis a nove meses, segundo estimativas da equipe de Wu, o rio deixou de circular e a água se acumulou em um lago formado pela barragem. Então, quando a água do rio superou o limite de barragem, ela cedeu rapidamente, liberando 15,8 quilômetros cúbicos de água e causando uma das maiores enchentes registradas nos últimos 10 mil anos. A enchente pode ter afetado cerca de 2 mil quilômetros de rio, rompendo as margens naturais, causando incontáveis alagamentos e mudando até mesmo o curso do Rio Amarelo.

Geralmente é muito difícil datar uma enchente. Mas o mesmo terremoto que permitiu a formação de uma barragem no rio, nos forneceu uma data, já que destruiu um vilarejo conhecido como Lajia a cerca de 25 quilômetros do local de formação da barragem. As fissuras causadas pelo terremoto foram completamente preenchidas por sedimento após a enchente, sem o depósito anual de terra trazida pelo vento, como é comum na região, o que significa que a enchente aconteceu no mesmo ano do terremoto, de acordo com a equipe de Wu.

A datação por radiocarbono dos ossos de três crianças mortas pelo terremoto mostram que o evento ocorreu em 1920 a.C.

A data oferece uma impressionante conexão temporal com a dinastia Xia que, caso realmente tenha existido, teria começado mais ou menos nesse época. Um projeto moderno de cronologia da China determina o início da dinastia no ano 2070 a.C. Além disso, dois estudiosos trabalhando com registros astronômicos chineses - onde consta que houve uma conjunção de cinco planetas no início do reinado do Imperador Yu - calculam que a dinastia teria começado em 1914 a.C.

Os anais históricos da China registram que o Imperador Yu permitiu que o país se recuperasse da Grande Enchente depois de cavar canais para drenar a água, ao invés de tentar reparar os vazamentos nos diques do Rio Amarelo, como seu antecessor teria tentado fazer. Ele também estabeleceu a fundação da civilização chinesa que se seguiu ao especificar quais regiões deveriam enviar tributos. O local onde ele começou suas operações teria sido Jishi, que tem os mesmos ideogramas chineses do desfiladeiro onde o deslizamento ocorreu.

A equipe de Wu afirmou que a reconstrução virtual da enchente do Desfiladeiro de Jishi Gorge demonstrou que os relatos textuais antigos da Grande Enchente "podem ter sua origem em eventos naturais que realmente ocorreram". De acordo com os pesquisadores, a descoberta também confirma a ideia de que o sítio arqueológico encontrado em Erlitou, a cerca de 2.500 quilômetros do desfiladeiro, teria sido a capital da dinastia Xia. O fim da cultura Erlitou ocorreu em 1900 a.C., o mesmo ano da enchente do Desfiladeiro de Jishi.

Entretanto, os historiadores precisarão de mais evidências antes de confirmar a tese da equipe. Ainda não se sabe como os relatos folclóricos da enchente teriam se mantido com tanta precisão por 900 anos, conforme sugeriu a equipe de Wu, já que muitos elementos do texto poderiam ter ocorrido mais de 1 mil anos antes de seu registro. 

Provavelmente tenha havido muitas enchentes, que poderiam ter ganhado proporções ainda maiores na memória popular, afirmou Sarah Allan, historiadora da China antiga no Dartmouth College. Para ela, a Grande Enchente descrita nos textos antigos é um mito que ajuda a explicar como o mundo foi criado e não se trata de um evento histórico.

"A história começa com água em várias culturas e o problema é como tornar o mundo habitável", afirmou. Mesmo que o mito tenha tido origem em um evento real, é muito difícil associar esse mito à enchente do Desfiladeiro de Jishi, ou essa enchente à cultura Erlitou, afirmou.

Paul Goldin, que estuda o período dos Estados Combatentes da China na Universidade da Pensilvânia, também acredita que as histórias em torno de Yu e da Grande Enchente provavelmente não representem eventos históricos. Além disso, elas seriam datadas do século IV a.C., muito depois da enchente do Desfiladeiro de Jishi.

"Essas são lendas relativamente tardias que foram propagadas por razões filosóficas e políticas. É muito questionável supor que elas representem alguma velha memória do passado", afirmou Goldin.

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